segunda-feira, 21 de julho de 2014

Pedras e Cristais - pequeno guia mágico parte 1

Esse artigo é dedicado a Lugh dos Braços Longos, meu Deus Pai-Benfeitor; louvado seja, e ao Ronaldo e a Flor, que estejam em plenitude onde estiverem.



O uso das pedras pelos povos da Antiguidade está descritos na introdução de qualquer livro sobre pedras e cristais que por ventura você venha a folhear. Nessa série de artigos,  pretendo falar um pouco sobre o uso delas dentre os celtas, de acordo com registros mitológicos, e dar dicas de seu uso nas práticas pagãs modernas.


ONTEM

Os celtas utilizavam, pelo menos, cristais de quartzo e âmbar*, em jóias e pingentes, conforme observado em achados arqueológicos. Segundo material do Colégio Druídico do Brasil, uma jóias de âmbar eram utilizadas dentre os celtas continentais para diferenciar diferentes graus hierárquicos dentre os druidas.




O British Museum tem uma vasta coleção de bolas de cristal amarradas por um fio de couro ou prata, encontradas em tumbas celtas e vikings. Evidentemente não é possível afirmar com que intuito as utilizavam, nem que utilizavam a mesma maneira que utilizamos hoje em dia, mas sem dúvida as pedras eram um importante elemento para eles, e a pesquisa nos fornece alguns indícios.
  
Os relatos grego e romanos fazem referência ao “ovo do druida”, como nesse exemplo:

“Há também um outro tipo de ovo, de grande renome nas províncias da Gália, mas ignorados pelos gregos. No verão, as cobras inúmeras entrelaçam-se em uma bola, mantidas juntas por uma secreção de seus corpos e de sua saliva. Isto é chamada anguinum. Os druidas dizem que as serpentes sibilantes jogam ele no ar, e que deve ser pego por um manto, e não é permitido tocar o solo; e que se deve tomar imediatamente um cavalo a galopes, pois as serpentes irão segui-lo até que um rio as corte. Pode ser testada, dizem eles, verificando se flutuam contra a corrente de um rio, mesmo que ser definido em ouro. Mas como é a forma de mágicos para lançar um véu sobre suas fraudes astúcia, eles fingem que esses ovos só podem ser tomadas em um determinado dia da lua(...)Eu mesmo, no entanto, vi um desses ovos; era redondo, e quase tão grande quanto uma maçã pequeno; a concha era cartilaginosa e crivada como os braços de um polvo.”“Ele é usado com tanta ostentação que uma vez, que conheci um cavaleiro romano, um Voconttian, que foi morto pelo imperador Claudius simplesmente, até onde sei, porque ele o usava em seu peito durante um julgamento”Gaius Plinius Secundus (“Naturalis Historia”, 29.52-4, séc. I d. C.)1

Será que ele foi morto, pois era sabido do poder da pedra e sua atitude foi considerada uma tentativa de persuasão da justiça? Enfim, numa livre interpretação do texto de Plínio, o ovo me parece uma pedra, colhida da terra, sendo as serpentes a energia telúrica de determinado lugar, de onde a pedra fora escavada, em momento propício a sua utilização energética como amuleto. As referências à lua e à correnteza, também pode ser a codificação de rituais de limpeza, energização e programação usados ainda hoje.
Em Gales ainda se acredita nesses objetos, como o mân macal (pedras de serpente), e glain y nidir (jóia da serpente). E tanto em Gales quanto na Escócia (e Egito) existe uma formação rochosa, redonda, vítrea que alguns afirmam ser o ovo em questão. Sendo o “ovo” ou não, essa formação, chamada de adder stone2 (pedra somadora?) é conhecida como ovo de serpente ou pedra da bruxa, a qual se atribui poderes físicos s psíquicos como o de curar tosses e evitar pesadelos.


Ovo de serpente do lago Huehnergott

No Mabinogi3 há pelo menos duas referências ao poder mágico das pedras, uma daria o poder da inviabilidade e outra permitiu Pereduc matar uma terrível criatura invisível.

Na mitologia celto-irlandesa, o grupo mais destacável de deuses, os habilidosos Tuatha Dé, vieram das ilhas do norte do mundo com Quatro Tesouros, sendo um deles uma pedra (Lia Fail) que tinha a capacidade de gritar o nome do rei legítimo, o que no meu ponto de vista, trata-se de uma “dica divina” sobre o poder oracular das pedras.

E foi através de uma pedra que a Tuatha Dé Danann vivenciou sua grande conquista da Irlanda, pois foi com uma pedra que o terrível Balor do Olho Mau foi derrotado por um golpe certeiro de seu neto, o solar Lugh Lamfhada,  episódio decisivo da Segunda Batalha de Magh Tuireadh (Mag Tuireadh na f-Fomorach)4. O golpe foi tão forte que o olho de Balor saiu por detrás de sua cabeça, matando grande quantidade de seus aliados que estavam em seu campo de visão. (se você ainda não leu esse conto, largue tudo agora e leia, é divino e já há uma confiável versão em português traduzida pela Ana Beatriz e Daniel Nicolato).

A essa pedra decisiva, foi escrito o poema:
“Uma tathlum, pesada, ígnea, firme,
Que os Tuatha Dé Danann tinham com eles,
Foi o que quebrou o terrível olho de Balor,
De antiga tradição, na batalha dos grandes exércitos.
O sangue dos sapos e ursos furiosos,
E o sangue do leão nobre,
O sangue das víboras e dos troncos de Osmuinn,
Era deles que se compunha a tathlum.
A areia do rápido mar Armoriano,
E a areia do farto Mar Vermelho.
Todas elas, sendo antes purificadas, eram usadas
Na composição da tathlum.
Ao herói Lugh foi dada
Esta bola de pedra – projétil nada macio.
Em Mag Tuireadh de gemidos estridentes
Com sua mão ele arremessou a tathlum.”5

Não me arrisco a uma tradução do poema, ainda que esteja óbvio que não se trata de uma receita literal. As citações de sangue e fúria da composição da pedra são, no mínimo, uma analogia a seu poder. Se assim não fosse, não haveria motivo pra exaltar uma pedra “qualquer” arremessada pelo deus solar cuja profecia já dava como certa a morte de seu avô por suas mãos.

HOJE
Como já havia dito, não sabemos como eles usavam as pedras magicamente, mas é certo que usavam esse tipo de magia.Podemos pensar, em termos práticos, na tathlum como uma grande pedra de proteção? De bloqueio de energia indesejável? Creio que sim.

As pedras são elementos da Natureza e só por isso já são importantes, pois são compostas da energia natural em si. Para os pagãos de modo geral, a energia da Natureza é a força criadora, logo fonte restauradora, curativa e inspiradora que a tudo e todos agrega e perpassa de modo harmônico (pra dizer o mínimo), logo é interessante ter esses elementos próximos a nós, na medida do possível, ao máximo que pudermos na tentativa de estarmos também harmonizados e em equilíbrio.

As pedras podem ser utilizadas como representações da terra, pelas associações simbólicas de suas cores (exemplo: pedra amarela pra um altar de prosperidade) ou dentro de suas propriedades específicas, pra fazer poções, potencializar propriedades das ervas, harmonizar ambientes, fazer amuletos, incrementar altares, varinhas, e atrair ou repelir energias em geral.
Aprendi muito sobre pedras, cristais e minerais, identificação  e  seu uso mágico indo a Feira Hippie de Ipanema, marcando ponto na barraquinha do Ronaldo e da Flor. Como já faz uns 20 anos, e me mudei da capital, não sei se ainda estão lá, mas a eles dedico esse artigo porque minha religião me ensina a ser grata aos mestres e eles o foram pra aquela adolescente curiosa pela vida espiritual esotérica que os enchia de perguntas sobre cada uma das pedrinhas expostas.


Eles nunca me enganaram tentando me vender uma pedra tingida, sintética, ou um tipo por outro (nem me expulsaram da banquinha!). Eles usavam um livro, que se não é completo como diz o título, é extremamente útil e prático e que consulto até hoje até hoje. Cristais e Minerais- Guia Completo. Isabel Seidl foi, anos depois, minha aluna no primeiro curso de cultura celta que ajudei a montar no Rio de Janeiro. Felizes coincidências do caminho.


Os livros de Judy Hall tem se popularizado (ao menos em cada loja de pedra que eu entro) e tem a vantagem de ter muitas imagens e de ter muitas pedras catalogadas (cerca de 200 tipos cada livro). Ainda que seja um livro traduzido, ele mostra grande quantidade pedras brasileiras ou comumente encontradas no Brasil. Muitos livros vendidos aqui, se tratam de traduções, logo não contemplam nossa biodiversidade(e esse também é um problema que se estende a ervas, árvores, flores...), acabam sendo livros auxiliares mas pouco úteis na prática.

Muitas pedras hoje em dia são simuladas em laboratório, alguns lugares revelam a origem, outros não. Fique atento, há cristais mais raros e frágeis que os outros, e por isso os preços variam muito, preço muito baixo ou igualmente atribuído a diversos cristais pode ser indicativo de pedra sintética.


(continua)

Um comentário:

  1. Ola, aconselho também, A Sabedorias das pedras (francisco bostrom)
    um lindo livro.

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