Mostrando postagens com marcador Rodrigo Morocho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Rodrigo Morocho. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Ser um fáidh

Nas últimas viagens à Irlanda conheci lugares, pessoas e vivi experiências que fortaleceram a minha fé de maneira exponencial. E esse fortalecimento culminou no encontro com o meu "destino" dentro do meu clã e no meu caminho religioso: ser um fáidh.
Vindo de uma família em que esse dom é comum, não poderia me supreender com o fato de ser mais um, porém foi justamente o contrário. Ser um fáidh, grosso modo, é ser um vidente, prever o futuro. Porém o "cargo" de fáidh vai além de ver o que se esconde ali na esquina, vai além de um sonho premonitório. É estar atento a todos os sinais que se recebe do Mundo e saber interpretá-los da maneira correta.
Ser um fáidh é criar um elo de confidencialidade com aquele que está diante de você. Um elo que, quiçá, vá além da esfera da honra e palavra. É um quase elo espiritual em que, por alguns momentos, você se torna o outro e o entende profundamente. E ser o outro não é algo fácil de nenhum modo.
Vir de uma família com essa habilidade é uma faca de dois gumes, pois ao mesmo tempo em que você tem facilidade em acessar o oculto, você se sente confortável em somente usar seu dom quando 
alguém o necessita. Porém, ser fáidh é estar a serviço do clann, do tuath. É cuidar, constantemente, da família que te cerca. Não pode ser um part-time job, tem que ser algo a que você se dedique plenamente, inclusive tendo que fazer sacrifícios muitas vezes.
Me parece que o trabalho do fáidh é mais soturno, obscuro e introspectivo que o do fili, por exemplo. Talvez seja coisa minha, mas de qualquer forma sempre preferi ficar mais aos fundos sem me mostrar. E viver no escuro sempre foi uma característica daqueles que buscavam o conhecimento do oculto, do divino, das respostas às perguntas.
Ser fáidh é difícil, mas é um difícil maravilhoso. 

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Amigos, estamos passando por momentos difíceis na nossa política que afetarão a todos nós. Assim, o Corrente RJ lança a proposta de uma trioíche (3 noites de vigília) das morrigna contra o fundamentalismo religioso. Do dia 18 ao dia 20 deste mês, sempre às 21:00, acenda uma vela e peça ajuda às morrigna para que as bases fundamentalistas se enfraqueçam e possamos ter uma sociedade mais igualitária. Ajudem a espalhar a ideia. Este é o momento em que nós pagãos mais devemos nos unir.


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Leprechaun

O Leprechaun talvez seja a fada mais conhecida do mundo celta irlandês. É mundialmente referenciado como um homem já de idade, de pouca estatura, vestido de verde e com cartola da mesma cor, que guarda um pote de ouro no final do arco-íris. Mas este ser tão conhecido vai um pouco mais além do que um guardião de tesouros.
Uma das hipóteses é que o nome Leprechaun venha do irlandês "leith bhrogan" (sapateiro), porém possui várias outras formas de acordo com a província irlandesa de onde se ouça relatos, variantes como: Lurachmain, Lurican e Lurgadhan. Essas fadas são geralmente encontradas bêbadas (nada mais propício prum símbolo irlandês :p), porém nunca tão bêbadas que não consigam manejar um martelo. E não há registros de fêmeas, tirem suas conclusões... rs

Costumes contam que os Leprechauns carregam sempre consigo 2 bolsas de couro: uma contendo uma moeda de prata que sempre volta para a bolsa, e uma contendo uma moeda de ouro que se transforma em folhas - ou cinzas - depois que esta fada se afasta. Essa última dá origem também ao chamado "ouro de tolo" ou "ouro de leprechaun". 
Existe um tipo de leprechaun que seria um pouco mais brincalhão, que montaria em cavalos, bodes, ovelhas, cães... que quebram cercas, janelas, portas, lâmpadas, a TV novinha que você comprou... esse é o Cluricauns. Porém alguns folcloristas parecem não concordar que o Cluricaun seja uma versão mais malvada e brincalhona do Leprechaun, mas ainda estamos esperando um folclorista concordar com outro.

O leprechaun evita ao máximo o contato com os humados, considerando-os malvados, idiotas, brigões e ladrões... por isso quando passam próximo a humanos, usam toda sua velocidade, deixando-nos sempre com a sensação de termos visto algo. Aquele que realmente consegue pegar uma fada desta vai ouvir uma porção de xingamentos e depois uma promessa de riqueza se a deixar ir. Mas atenção, seu ambicioso, nunca tire os olhos do leprechaun enquanto ele estiver em seu poder, pois quando o fizer, ele desaparece e você vai continuar na pobreza.
O leprechaun é uma fada associada à terra e aos bens materiais, portanto, é muito fácil encontrá-los em árvores, arbustos, cavernas e aqueles buracos na parede da sua casa. Durante muitos anos, viajantes, fazendeiros, brux@s e pessoas em geral deixavam oferendas para eles nas estradas e aos pés das árvores. As oferendas eram comumente leite, bolo, pão... o que reforça sua ligação com o elemento terra.
Os avistamentos de leprechauns são tantos pela Irlanda que recentemente o próprio governo instituiu uma área, de preservação ambiental pra proteger os pequeninos. Parece que está tendo uma infestação de Leprechauns pelo condado de Clare, à Oeste da ilha. E sim, esse pessoal deve ir trabalhar virado na Guinness.


um "Leprechaun watch". Uma câmera instalada em Tipperary, à sudoeste do país, em Munster. Como está no meio do mato, não tem como ver à noite, mas quem estiver sem nada pra fazer, pode passar umas horas observando a câmera pra ver se enxerga uma dessas fadas.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Boann - a deusa do An Bhóinn

Boann é a deusa associada ao rio Boyne, rio que corta o complexo do Brugh na Bóine – atual Newgrange. Ela é casada com Elcmar (às vezes Nechtan, dependendo da versão) e era proibida, assim como qualquer outro que não seu marido, de se aproximar do Poço da Sabedoria (Tobar Segais), cercado por 9 aveleiras que alimentavam o salmão nadando em suas águas. Boann descumpriu as ordens dadas e se debruçou no poço, que explodiu suas águas atirando-se sobre a deusa. Versões diferentes falam sobre o destino de Boann, mas comumente se diz que ela sobreviveu à fúria das águas perdendo um olho, um braço e uma
Boann e o rio Boyne
perna. Desta forma, Boann é associada à Sabedoria. Perder partes de seu corpo é uma alusão ao Conhecimento, pois não se adquire nenhum conhecimento sem perder algo. Explico melhor, quando se obtem conhecimento sobre determinado assunto, sua visão muda, seu jeito de caminhar pelo mundo muda e não toca mais as coisas ao redor da mesma maneira. Você nunca mais será o mesmo depois que recebe determinado conhecimento.
Mas essa deusa é muito mais complexa.

Em sua mitologia, Boann também é mãe de Angus Mac Óg (Aengus ou Oengus são ortografias possíveis também) com o Daghda. O Daghda foi amante de Boann por uma noite e desse encontro foi gerado o deus jovem. Ao saber da gestação, o Daghda usa seus poderes e faz com que o Sol esteja a pino por 9 meses, podendo assim parecer que da concepção ao parto de Angus, passou-se somente 1 dia. Então, Boann é mãe de Angus, que em tempos mais modernos seria associado a Apolo e Narciso da mitologia grega pela beleza e juventude, e também uma deusa da Sabedoria. Mas a questão que se pode fazer aqui é: Por que o Daghda se interessou por Boann? Não há em nenhum mito destaque sobre suas características físicas que indiquem o porquê. Aliás, não há nenhum tipo de descrição de Boann, talvez somente em textos mais recentes em que se faz alusão a ela ser mãe de Bríd ou até mesmo esta própria deusa.

Como disse, Boann é uma deusa bem mais complexa. Boann vem da contração de 2 palavras irlandesas Bó + Fhionn (Bó + Find em irlandês antigo) que significa “Vaca Branca”. As vacas brancas são animais associados ao deus Daghda, o que explicaria, então, seu affair com a deusa Boann. Ele, assim, afirma sua posição como Deus fertilizador e perpetua a imagem da vaca como um animal representando da fertilidade e prosperidade.
A deusa das vacas brancas
Sabe-se, também, que a vaca é um animal bem comum em mitos irlandeses. Basta observar a quantidade de textos como “Táin Bó” (Ataque ao Gado), transformando esse gênero como um dos mais encontrados na literatura irlandesa, junto aos Imramma (Viagens ao Outro Mundo). O táin bó mais conhecido é o “Táin Bó Cúailnge” (O ataque ao gado de Cooley), mas podemos encontrar, pelo menos, mais 6 táin bó famosos: “Táin Bó Flidaise”, “Táin Bó Aingen” e “Táin Bó Fraích” são alguns exemplos (Assalto ao gado de Flidais, Aingen e Fáech, respectivamente).
Porém, a associação de Boann com as vacas parece ser mais antiga. Existe um mito pouco conhecido em que podemos ter uma primeira visão sobre essa deusa tão importante, mas pouco venerada pelos pagãos de hoje em dia. Diz-se que uma bela Berooch (ou sereia) veio à Irlanda anunciar a chegada de 3 vacas vindas do Oeste e um ano após a anunciação, 3 vacas majestosas surgiram das águas do mar: uma negra, uma branca e uma marrom. As 3 vacas surgiram e pararam na costa Oeste da ilha com sua pele brilhante e olhos bondosos observando o povo que as esperava. Pouco tempo depois se puseram a caminhar e tomaram 3 caminhos diferentes. A vaca preta (Bó-Dhu) se dirigiu para o Sul; a vaca marrom (Bó-Ruadh) se dirigiu para o Norte; e a vaca branca (Bó-Find) cruzou a planície irlandesa em direção ao centro, em direção ao palácio do Árd Rí (O Grande Rei da Irlanda). Por cada local que essa vaca passava, a cidade era nomeada em sua homenagem; cada poço em que a vaca bebia era chamado de Lough-na-Bó ou Tober-Bó-Finn (Lago da Vaca ou Poço da Vaca Branca) para que nunca se esquecesse de sua chegada. E assim foi, a palavra “bó” é uma das palavras mais comuns em irlandês, inclusive na toponímia. Ao chegar ao centro da ilha, a Bó-Find gerou 2 bezerros, um macho e uma fêmea que deram origem a uma maravilhosa raça de gado que, segundo se diz, existe até hoje. A vaca branca logo se dirigiu em direção ao mar (não se diz se para Leste ou Oeste, mas é mais provável que para Leste) e se escondeu numa caverna às margens de um lago, num sono profundo, esperando que o Árd Rí viesse acordá-la.
Ora, isso mostra que, possivelmente, Boann foi a primeira Deusa da Soberania. Ela não somente era um animal sobrenatural como também trouxe fertilidade à terra e só seria acordada pelo Grande Rei. Essa é uma aproximação bem nítida do rito de posse da terra que encontramos com a chegada dos Milésios.
Vale ressaltar que a Colina de Tara está há alguns kilômetros somente (aproximadamente 4km) do rio Boyne e que Newgrande está a leste de Tara, seguindo o curso do Boyne. Pode-se imaginar, portanto, que Bó-Find, a Vaca Branca, foi com o tempo, perdendo sua importância como Senhora da Soberania passando a ser a Deusa Boann que habita o rio Boyne, uma deusa da Sabedoria.
Alguns membros do meu clã, numa viagem à Irlanda, tiveram uma experiência no mínimo "suspeita": próximo à Tara, num terreno agora particular, encontraram uma gruta próxima às margens do Boyne com oferendas, restos de velas e tudo o mais. Se aproximaram, deixaram suas oferendas e orações. Ao se levantarem para sair, perceberam que muitas vacas brancas se dirigiam a eles. Só algum tempo depois é que eles puderam entender a ligação.

Castelo Trim às margens do rio Boyne