Mostrando postagens com marcador Deuses. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Deuses. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 11 de junho de 2015

A Morrighan – uma percepção pessoal

A princípio, eu iria escrever o resumo de minha palestra do ESP®BR de 2014. Mas o número de pedidos para escrever um artigo mais completo foi muito grande. Então, atendendo a pedidos, lá vai. (Ignorem os erros de português rsrs)

A Morrighan – uma percepção pessoal – primeira parte.


No ano de 1987, após um breve “namoro” de 5 anos, resolvi “noivar”. Não se tratava de um relacionamento com outro ser humano, e sim com a
Deusa Morrighan. Achei a comparação pertinente porque é nesta fase do relacionamento humano que passamos a conhecer mais profundamente alguém, para aí sim, podermos assumir um compromisso maior. Até então, nos 5 anos de “namoro” houve um conhecimento superficial, mas a coisa não podia ficar assim. Meu coração me chamava a cada dia a um compromisso bem maior. Foi então, que comecei a minha guerra pessoal, sim uma guerra, pois a falta de material e de gente com conhecimento DELA fez da minha busca uma luta contra uma série de barreiras para adquirir conhecimento. Foi nesta luta Quixotesca, contra moinhos de vento é que me veio uma luz. Eu deveria buscar contra meus princípios pré-estabelecidos de criação e de sociedade. Compreender dentro do “clima” do povo que a cultuava, qual seu papel para eles, e assim chegar ao fundo da questão de seu culto. Comecei a pensar em rituais de conexão com aquele povo, comecei a meditar e dentro de horas, dias, meses e anos da minha vida, tive essa busca por entendimento alcançado com muita alegria, apesar de ter passado por muito sofrimento, de ver minhas ideias desfeitas, minhas emoções bagunçadas, meus conceitos destruídos e derrubados, até nada restar de minha “atitude pessoal”, de não ser mais minhas ideias, e sim, do que era o culto a ela, não ser mais meus pensamentos e sim o que eu deveria entender.  Não questionar, apenas entender.
                Tive que ver que a cultura da morte em nossa sociedade moderna é vista como algo ruim, antinatural, triste, sombria e velada. Sim velada, porque as crianças em sua maioria absoluta na sociedade moderna não veem os mortos, não vão a enterros, não visitam doentes em estados terminais, e crescem sem ter a morte como algo que sempre alcançará os vivos. As explicações dadas às crianças quando alguém da família ou alguém muito próximo morre, dificulta ainda mais esse entendimento. Frases do tipo “virou estrela” ou “foi pro céu” ou ainda “foi morar com o papai do céu” faz com que essa criança não veja que o corpo, aquele corpo que até então falava, sentia, amava, parou. E se dá a ela uma falsa espiritualização que ela não entende de uma alma que ela nunca viu, e que foi para um lugar para qual ela também não tem a real certeza de existir. Criamos seres humanos que não compreendem a morte, que não a veem e por esta razão quando se fica face a face com essa companheira inseparável de todos os vivos, nos desesperamos e nos ressentimos com ela quando adultos.



               Comecei a pensar o porquê de não ter nenhum achado de templo ou de culto para essa Deusa, e nestes meus pensamentos e meditações e ritos de esclarecimentos, custou-me a ver a resposta que era tão simples, e que estava em baixo de meu nariz o tempo todo para aquele povo.  Pra quê? Sim, a resposta era pra que as pessoas cultuariam a morte em templos, se essa era a única coisa que com certeza não vai te faltar ou te abandonar.  Vamos, pensem comigo. Eles viveram em uma época onde a comida é difícil conseguir, não existem antibióticos, nem supermercados, farmácias, luz, e outros luxos que temos hoje em dia. E que ao descascar uma simples batata e dar um pequeno corte na mão, eles poderiam morrer de tétano ou uma infecção poderia mata-los de uma hora para outra. Pra que vou cultuar a morte em um lugar específico? Ela deveria “andar e passear” entre aquele povo. Quantos morriam em um ano? As crianças deveriam “ver a morte” a todo tempo. E como não encará-la com naturalidade? Poxa, naturalidade, não alegria. Alguém deve estar se perguntando então: Por que não temos altares ou outra forma de culto doméstico? A resposta é simples também. Não é porque eu convivo com ela, a vejo, sinto sua presença constante, que eu vou querer ela por perto, sendo “trazida” para dentro de minha casa né gente. Alguém em seu juízo perfeito pensa: Já que eu vou morrer, vou ficar pedindo  a morte pra ficar pertinho de mim – É claro que não. Todos a conheciam, mas ninguém verdadeiramente queria sua visita. É natural e normal querer viver e amar a vida. A não ser que sua vida e a vida de seu povo estejam ameaçadas. No caso de uma guerra que foi declarada, por exemplo, aí pedimos pela morte do inimigo. Viram como lutamos para viver? Quando a guerra chegava, e ela chegava com frequência naquelas paragens, era a hora de chamar a morte. De cultuar a morte. De ofertar para a morte. E de pedir a morte. Mas aí está a questão. Você não está chamando SUA morte. É a morte do inimigo do seu povo, e aí está a grandeza dessa Deusa. Ela dá a vitória (vida por mais tempo) e sua soberania para quem ela quer. Essa é sua grande e REAL função. Deixar “viver” mais um pouco.
                Nessas guerras, se pedia que elas estivessem nas mãos dos nossos guerreiros, na ponta de suas lanças e espadas, na flecha certeira atirada, no golpe fatal. E se pedia também que se ela nos viesse “beijar” que fosse um beijo rápido. O beijo dos maridos ao se despedir de suas esposas ao sair para o trabalho. O beijo dos que já se conhecem por longas datas, o beijo da amizade onde o tempo venceu o tesão,  e o amor mais em paz foi plantado e deixou nascer o maior dos sentimentos, a cumplicidade do coração de velhos amigos. E que ao acordar deste beijo ligeiro, que é a despedida da vida, que é nosso maior amor terreno, pudessem eles abrir os olhos, já não os olhos carnais, e estivessem em um lugar muito bom para onde só os justos, valentes e honrados vão. Mas antes de amar a morte, deixo mais uma vez claro que aquele povo amava a vida. Amava respirar, comer, beber, ver seus filhos crescerem, fazer sexo, tudo que a vida nos proporciona, e queriam acima de tudo, continuar bem vivos. Por isso eu digo, minha senhora não é a Deusa dos campos em flor, não é a Deusa do leite e da brisa fresca de uma manhã de primavera, ela é a destruição do inimigo, ela é o alívio da doença, ela é o bebê que parou de respirar. Ela é o fim dos sonhos, o  fim do amor, o fim da alegria, o fim da vida que sempre chega para ambos os lados.
                Eu pergunto: Você acha que nas batalhas ela era chamada para espalhar flores no campo? – Claro que não.  Dar leite morno e fresco para os guerreiros inimigos? – Não. Era sangue, vísceras, braços mutilados, decapitações, derrota. Era esse o clamor de quem a chamava naquele momento. Era esse o desejo mais profundo para os seus inimigos. E quem estiver aí com uma ideia diferente em mente, ou é porque não entendeu o significado de seu culto ou quer por “panos quentes” para aliviar ou suavizar algo que não tem suavização.
                É triste ver pagãos querendo justificar ou aliviar seus cultos para serem aceitos em uma sociedade moderna e como a nossa brasileira, cristianizada. Plantar beleza e docilidade onde não existe para nos assemelharmos aos ideais cristãos de paz, amor e fraternidade, pois se não vamos fritar no inferno, para mim é vergonhoso.
                Ouvi desde minha infância que menino mal e menina desobediente, e quem deseja mal ao seu próximo Deus castiga, e vai parar no inferno. Não é isso que a gente ouve? Pois é... Mas,  voltando aquele povo, eles queriam de verdade que o inimigo morresse, fosse esmagado e aniquilado para não mais se levantar. Porque essa era a garantia de suas vidas, da vida de seus filhos e de seus descendentes. Daí,  “clareou” meus pensamentos de que, naquele momento, era feito o culto a Morrighan entre os Celtas. E sim, isso era “sinistro”.
                Muitos sabem que nas soleiras de algumas portas tinham um buraco muito especial. Como uma espécie de prateleira,  E nela era colocada uma cabeça. A cabeça geralmente de um inimigo, aquele que lhe trouxe problemas, ou o que foi morto em uma batalha. O que seria isso se não um aviso aos que ali passassem do tipo: “Quer sua cabeça no seu pescoço? Então seja honrado comigo, e não tente roubar minhas terras, e nem me faça algo desonroso”. Além disso, considero este como um amuleto de proteção, e também uma oferta de vitória para a Deusa da morte e da guerra. Sim, eu interpreto essa cabeça como um amuleto e um culto a Morrighan, em uma forma de oferta de gratidão do dono da casa pelo serviço bem feito Dela. Ele estava vivo, já o inimigo... Bem, não teve a mesma sorte. E o que dizer dos achados de dezenas de corpos bem arrumados, montados e distribuídos em covas, onde estes foram provavelmente prisioneiros de guerra sacrificados? A quem? Por quê? Acho que a resposta automaticamente foi dada. Uma grande oferta de agradecimento. Por este motivo, ao ver algumas pessoas sinalizando o culto de Morrighan como algo menos mortal e duro, para mim é algo inconcebível. Vejo muitos outros dizerem por aí que “A Deusa evoluiu” que os Deuses evoluem, e que por essa razão não é mais assim. E esse culto se adaptou e não é mais esta energia mortífera que cultuamos, e eu me pergunto, como assim? A Deusa era “atrasada”? Teve que evoluir como um Pokémon? Ou eu que não quero ver que nada na vida muda, e que tudo é um grande ciclo? Ou ainda,  eu quero que esta energia evolua para caber nos meus moldes pessoais, onde já não consigo compreender por visão curta social e espiritual que aquilo é monstruosamente sinistro, mas é de uma beleza incomparável?  As guerras acabaram? – Não. Ainda tem gente que se mata como no Oriente Médio. Sim, e sempre existirá a guerra e a morte. Porque o ser humano não é igual, pensa, sente, age diferente. E sempre existirão disputas onde o sangue será derramado,  para que as nossas necessidades, a necessidade do campeão, prevaleça. O mais forte toma a terra. O mais forte come, porque esta é a lei natural. Para que um possa viver, da planta ao gado, uma vida será tirada,  para que a outra possa viver uma morre sempre.
                É duro, mas é a vida. Pode parecer triste, mas é um fato. Conviver com este fato de bem com a morte e com a vida é a única escolha que nos resta. Ou tentar justificar nosso culto com ideias evolutivas sem sentido.
                Bem, eu sei que muitos não irão concordar. Não sou dona da verdade, quem sou eu? Mas eu vejo cada coisa em seu lugar desde que o mundo é mundo. E acho que tudo tem sua beleza. Acho ainda que tudo está em seu lugar com sua devida importância,  e é simples para mim. Assim como claramente consigo distinguir sentimentos como amor, ódio, bem, mal, verdade e mentira. Para mim, nenhum deles é igual, mas vejo beleza em todos. Escutamos às vezes por aí que o mal e o bem dependem do ponto de visão, e que a verdade e a mentira dependem do aspecto pelo qual elas são observadas. Eu discordo. E acho inclusive que essa é a desculpa dos fracos ou dos sem caráter. O mal é mal. O bem é bem. A verdade sempre é a verdade. E a mentira por mais que disfarçada, sempre será mentira. Não misturo sentimentos, nem os confundo, e por isso não gosto de pessoas em cima dos muros. Para mim, são sentimentos bem distintos e situações bem separadas. Consigo ver beleza e necessidade em ambas. Mas eu nunca seria falsa o suficiente para fingir ou trocar um pelo outro.  E assim eu enxergo os meus Deuses. A Deusa da morte é dor e destruição do que é vivo, o que é uma lição para quem vê que nela está o equilíbrio. A Deusa do lar é a protetora de nossa casa, e temos que ver nela a alegria de ter conforto, família e herdeiros. E assim por diante. É nesse equilíbrio que eu creio, e não na “igualdade”. Acredito na dualidade sem misturar suas faces. No vencedor e no perdedor. O que ficou vivo e o que ficou morto. O que tem saúde e o doente.
                Estou escrevendo isso para mostrar que esses são pontos da vida que não se misturam, ora estamos em um estágio, ora em outro, e isto é um equilíbrio. Da mesma forma eu não misturo os meus Deuses. Eu não acredito na unificação dos Deuses em um, como alguns outros pagãos fazem. Este é um aspecto pessoal. Condeno quem o faça? – Não. Apenas eu não o faço. E é desse modo que eu enxergo Morrighan. Ela não evoluiu, ela É. Ela não alterou o seu aspecto, ela É. Ela não se adaptou ao mundo moderno, porque ela não precisa se adaptar nem a mim, nem a você. Porque a morte é o contrário da vida. E sempre que surgiu a vida, ela É. O mundo tecnologicamente “melhorou e evoluiu”, mas nossos sentimentos em nossos corações e almas ainda são os mesmos. Não evoluem. A morte existe, sempre existiu e sempre existirá, porque ela é um aspecto imutável, assim como os nossos sentimentos. Nunca surgirão novos, porque eles sempre existiram no mundo. São os mesmos, não evoluem. Amor, ódio, paixão e fé, entre tantos outros. E Morrighan pra mim, é o mais profundo dos sentimentos, o imutável, Morrighan É.


          Sentimentos não se misturam você ama ou odeia, mesmo que seja a mesma pessoa em momentos separados. Você é um mentiroso ou verdadeiro. Você tem honra ou não. Um sentimento passa por cima do outro, muda de ódio para amor ou vice versa, mas são sentimentos completamente distintos embora convivam. E é por essa razão que eu digo que não é porque a palavra é soberania que ela está ligada diretamente a bons acontecimentos. Minha maravilhosa Deusa dá a soberania a aqueles que conseguirem ver nela a honra da guerra, a felicidade da vitória em cima dos inimigos e em ver que suas ofertas são ofertas de comidas, bebidas e também de sentimentos profundos, como desejos de vingança, ódio e quem sabe até morte. Ela come e ela bebe daquilo que sempre foi e sempre será a sua oferta (mais tarde falarei sobre ofertas de Morrighan e sobre seu outro aspecto que é o sexo). Comidas e ofertas estas às vezes tão diferentes das nossas, porque hoje vivemos muitas das vezes de maneira mais tranquila e pacata. Mas devemos respeitar sua energia, suas ofertas e sua maneira de ser, pois também temos nossas batalhas pessoais, e os nossos perigos no dia a dia, e ela deve estar sempre agradada e de prontidão a nos proteger. Pode ser que suas ofertas de comida, bebida, e sentimentos nem sempre agrade a todos, mas quem agrada? A única coisa que podemos fazer é cultuá-la ou não. Mas mudá-la para encaixá-la em nossos moldes estreitos e pessoais, para mim é desrespeitoso e um tanto quanto covardia.
Morrighan, sua energia e seu poder são para poucos. Os poucos que tiverem espírito duro para compreendê-la, ou entendimento para saber que tudo está em seu devido lugar.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

ESP®BR: Palestra "Comunicação com os Três Mundos - um olhar Reconstrucionista Irlandês" por Laise Ayres

Esta palestra, realizada dia 13/09/2014 no Templo de Apolo (Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, Rio de Janeiro/RJ), foi criada especialmente para o Encontro Social Pagão®, organizado pelo Projeto Gaia Paganus®. O objetivo era apresentar aos participantes do Encontro um olhar Reconstrucionista Irlandês sobre como se dá a comunicação com os Três Mundos ou Três Reinos Celtas - Céu, Terra e Mar -, e com os Deuses, Ancestrais e Boas Gentes que os compartilham conosco.

1. Sobre a autora

 Laise Ayres, elo da Corrente RJ, 15 anos de paganismo. Não gosta do termo 'druida', ou 'druidismo' para definir suas práticas, afinando-se mais com o título Reconstrucionista Irlandesa, ou simplesmente Pagã Irlandesa. Usa como base para suas práticas os mitos, registros literários, costumes folclóricos, e características arqueológicas e geográficas da Ilha Esmeralda, mas tem como espinha dorsal de sua vivência religiosa gnoses pessoais, meditações e insights. É há 6 anos integrante de um clã privado, sem nome, na cidade do Rio de Janeiro.


 2. O que é Reconstrucionismo Celta

 É um movimento politeísta, animista, religioso e cultural cujo objetivo é reconstruir - reconstituir - aspectos religiosos e culturais das tradições célticas pré-cristãs através de elementos sobreviventes nos registros históricos, literários, nas evidências arqueológicas e nas práticas folclóricas nos países que descendem daqueles povos, além de, é claro, da língua. Nesse contexto, a língua acaba sendo uma das fontes preciosas de insight a respeito da cultura e, consequentemente, do modo de ser, sentir e crer do povo celta. Na Irlanda, os elementos célticos sobrevivem principalmente através da língua, o Irlandês, do registro dos monges cristãos em diversos manuscritos, e através das práticas folclóricas tradicionais.

A ideia do Reconstrucionismo é de certo modo reconstruir como os diferentes paganismos celtas se pareceriam hoje em dia se não tivessem sido interrompidos pelo cristianismo - a exemplo do Hinduismo, que evoluiu e mudou, mas manteve sua essência. É um caminho de muita pesquisa e estudo, e muito debate entre praticantes, embora muitos pontos atualmente já tenham sido definidos coletivamente, e mais ou menos estabelecidos.

3. Os Três Mundos ou Três Reinos

O conceito de Três Mundos (ou Três Reinos) é muito marcante na cosmologia irlandesa. Esses Três Mundos são um esquema dentro do qual está tudo o que existe - Céu, Terra e Mar. O maior símbolo dos Três Mundos é o An Thríbhís Mhór, o Grande Triskel, as três espirais unidas por um ponto central.

Os Três Mundos aparecem em vários pontos na cultura irlandesa - a Invocação de Blathmac mac Cú Brettan diz “Neamh nglas, muir más, talamh cé.” - “Céu azul, belo Mar, Terra presente.” Também há um juramento irlandês que diz: “Que o céu caia e me esmague, que o mar se erga e me afogue, que a terra se abra e me engula se eu quebrar esse juramento.”

Ver o mundo como uma junção de Céu, Terra e Mar faz muito sentido se consideramos que a Irlanda é uma ilha. Então o céu sobre suas cabeças, a terra sob seus pés e o mar circundante como ligação com o resto do mundo (e com todos os outros) podem de fato ser veículo para o próprio modo como o irlandês vivenciava sua realidade.

Há muitas relações simbólicas vistas entre o Céu, a Terra e o Mar. Em nossos corpos, o Céu é o fôlego, a Terra os ossos, e o Mar, o sangue. Na árvore, os galhos tocam o Céu, as raízes ligam-na ao Mar sob a Terra, que depois preenche a árvore através dos veios como seiva, e o Tronco que surge sobre a Terra cria toda a conexão entre o que está em cima e embaixo. No tempo, o Mar é o passado, aquilo o que sempre foi, o Céu é o futuro, pressagiando o que está por vir e trazendo a mudança, e a Terra é o presente a ser desfrutado.

O equilíbrio, a harmonia, brotam da união desses Três Reinos, representado, no Triskel, pelo triângulo ou círculo no ponto em que unem-se as espirais.

É comum, na prática Reconstrucionista, manter-se um altar para cada Reino, ou áreas para os Três Reinos no altar (meu caso).

Eu tenho no altar três árvores que uso para representar os Três Reinos. Uma verdinha representando a Terra, uma dourada representando o Céu e uma roxa e preta representando o Mar.

4. O Mar, a Terra e o Céu

O Além-Mar é o Outro Mundo para a Irlanda (e para a cultura celta em geral). É cruzando o Mar que heróis irlandeses encontram Tir na nOg, a Terra da Juventude, o país das fadas, dos Antigos, dos Ancestrais. Há uma série de contos na literatura irlandesa chamada Immrama, viagens mágicas, em que o herói parte com seu barco em uma viagem de autodescobrimento, que não raro envolve criaturas fantásticas e encontros com Deuses.

Oisín, filho do herói Fionn Mac Cumhaill e célebre guerreiro e poeta dos Fianna, certa vez foi convidado pela filha do deus do mar Manannán, Níamh Chinn Óir, para ir com ela a Tir na nÓg, a Terra da Juventude. Após ficar lá com Níamh por três anos, Oisín resolveu retornar à Irlanda. O problema é que o tempo em Tir na nÓg passa diferente, e na verdade passaram-se 300 anos na Irlanda. Então Níamh avisou Oisín que, se ele tocasse com os pés o solo da Irlanda, ele sentiria os efeitos dos 300 anos e ficaria murcho e velho. Ele retornou à Irlanda mesmo assim, cavalgando Énbarr, o cavalo branco de Níamh que corre igualmente bem sobre a terra e sobre o mar.

Ao chegar à Irlanda, Oisín descobriu que muitas coisas mudaram nesses 300 anos. O antigo lar de seu pai encontrava-se em ruínas, e todos os que ele um dia conheceu estavam mortos há muito. Mas os próprios homens daquela terra estavam diferentes, menores, mais fracos e menos sábios, parecia, e ele compadeceu-se ao ver a dificuldade com que eles moviam pedras para criar uma estrada, o que o motivou a ajudá-los. Ao mover a pedra, que era pesada, a correia da sela de Énbarr não aguentou a pressão e partiu-se, fazendo com que Oisín desequilibrasse-se e caísse no chão, transformando-se em um velho imediatamente conforme previsto por Níamh. O cavalo retornou a Tír na nÓg, e Oisín, agora um ancião cuja vida aproximava-se do fim, permaneceu na Irlanda, e em algumas versões desse conto ele encontrou ninguém menos que São Patrício e com ele teve uma longa conversa antes de morrer.

O Mar nos transforma, nos revela, nos põe à prova. Nos faz entender quem somos e o que nos compõe.

É no local destinado ao Mar que normalmente coloco os objetos relacionados aos Ancestrais no meu altar: terra das casas onde morei, pequenos objetos simbólicos da minha ascendência e da minha história - o De Onde Eu Vim.

Existem três tipos de Ancestrais honrados no Reconstrucionismo - os culturais, os "carnais" e os locais. Por exemplo, meus antepassados incluem os Fianna - culturais, por adoção - meus avós, bisavós, etc - “carnais”, biológicos - e os brancos, negros e indígenas que viveram nesta terra antes de mim. Mantenho símbolos que os representem, fotografias e objetos pessoais de familiares já mortos, uma figa representando meu lado negro e umbandista, um muiraquitã representando a cultura indígena que habitou este solo antes de mim, Eu os honro, homenageio e realizo oferendas, além de rezar para eles.

Quando falamos em Céu, Terra e Mar assim arrumadinho, parece que há uma distinção toda organizadinha entre eles, mas a verdade é que eles se misturam bastante, pois há Mar dentro da Terra (lençóis d'água, fontes, poços), Terra sob o Mar (cavernas submarinas, fundo do mar), Terra tocando o Céu (montanhas), Céu tocando o Mar (linha do horizonte). Do mesmo modo, os Ancestrais, os Deuses e as Boas Gentes (também chamados de Sídhe, Povo das Fadas, Bom Povo ou Espíritos da Terra) misturam-se bastante.

Por exemplo, conta-se que os Deuses, as Tuatha Dé Danann, com a chegada dos Milesians, correu para as colinas, reduzindo e transformando-se nas Fadas, em Sídhe. Essas colinas mencionadas, são na verdade os cairns, tumbas neolíticas espalhadas por toda a ilha, construções feitas de pedra que se parecem bastante com colinas quando vistas de fora, mas que possuem entradas e câmaras internas. Esses cairns, construídos por um povo que viveu na Irlanda antes dos celtas, aparecem muito na mitologia, pois pontos geográficos são mencionados em todos os contos que falam dos Deuses: rios, planícies, montanhas, pedras - e cairns.

O cairn mais famoso é Newgrange, cujo nome irlandês é Brugh na Boinne, o Palácio do rio Boyne. Esse cairn figura no mito como lar da deusa Boann (que deu nome ao rio) e seu marido Elcmar - e, mais tarde, do filho de Boann com Dagda, o deus Aengus. Aengus, usando de um ardil linguístico (em que pede a Elcmar para que o Brugh pertença a ele dia e noite - ao que ele concede, entendendo, num equívoco compreensível dada a estrutura da língua irlandesa, que não possui artigo indefinido, que Aengus o queria por um dia e uma noite, quando na verdade Aengus queria dizer para sempre) toma para si o Palácio, tornando-se o novo senhor do Brugh. Mas há outros cairns famosos, considerados como "a última morada" dos Deuses, como o cairn de Morrighan em Keshcorran, e o de Medb em Knockarea.

Contudo, esses cairns, bem como dos dolmens (as portal tombs), são túmulos. Lá dentro eram depositadas as cinzas dos mortos após serem cremados, e lá os Ancestrais eram reverenciados. Em tempos mais recentes, bebês que morriam antes de serem batizados, que por esse motivo não podiam ser enterrados no cemitério cristão, eram depositados por seus pais nessas estruturas, por entendê-las como solo sagrado. Deuses, Sídhe e Ancestrais. Tudo em uma mesma estrutura. Representação física dos Três Mundos.

Para se relacionar com as Boas Gentes (que sempre chamamos assim porque, caso estejam nos ouvindo, é considerado bom augúrio que os consideremos bons), é comum que oferendas sejam feitas nessas construções (cairns, dolmens), de leite, manteiga, pão, mel ou cerveja, que são considerados itens difíceis para as Boas Gentes obterem normalmente na natureza.

Se o Mar e, principalmente, a Terra, são constantes, o Céu pode representar o inalcançável. Toda mudança parece vir do Céu - o sol, o vento, a chuva, a neve, a mudança do clima, o claro e o escuro, as aves migratórias, os augúrios. O Céu é inalcançável e incontrolável, pelo contrário, ele é que nos rege. As forças celestiais eram reverenciadas pelos celtas e pelo povo que veio antes na Irlanda, basta ver como muitos cairns são posicionados de forma que o sol adentra a câmara interna apenas numa data e numa hora específica - sendo o mais famoso nesse fenômeno Newgrange, cuja câmara interna permanece às escuras por todo o ano exceto no dia do solstício de inverno, quando o sol entra e ilumina o altar central sob o grande Triskel gravado na pedra.

Em um dos mais importantes (se não O mais importante) manuscrito irlandês, A Segunda Batalha de Moytura (Cath Magh Tuired), conta-se a seguinte passagem:

1. Os Tuatha De Danann estavam nas ilhas no norte do mundo, estudando conhecimentos ocultos e feitiçaria, artes druídicas e bruxaria e ofícios mágicos, até que eles sobrepujaram os sábios nas artes pagãs.
2. Eles estudaram o oculto e conhecimentos secretos e artes diabólicas em quatro cidades: Falia, Gorias, Murias e Findias.
3. De Falias foi trazida a pedra de Fal, que foi depositada em Tara. Ela costumava berrar sob cada rei destinado a conquistar a Irlanda.
4. De Gorias foi trazida a lança que Lug tinha. Nenhuma batalha jamais perdurou diante dela, ou do homem que a segurava em sua mão.
5. De Findias foi trazida a espada de Nuadu. Ninguém jamais escapou de seu golpe, tendo sido ela tirada de sua bainha mortífera, e ninguém pôde resistir a ela.

6. De Murias foi trazido o caldeirão do Dagda. Nenhuma companhia que foi até ele jamais o deixou insatisfeita.

Eu tenho como gnose pessoal pensar que os Deuses, antes de vir à Terra pelo Mar em suas célebres embarcações, quando estudavam conhecimentos ocultos e feitiçaria nas "ilhas no norte do mundo", estavam no domínio do Céu, no inalcançável, no místico. Então, no meu altar, no canto relacionado ao Céu, eu coloco representações dos Quatro Tesouros, pensando nas suas cidades de origem (Falias, Gorias, Murias e Findias) como os quatro pontos cardeais que mapeiam a Terra quando vista do Céu.

Quando as Tuatha Dé Danann vieram à Irlanda, foi como parte de uma série de invasões sofridas pela ilha, que incluem vários outros povos, como os Fir Bolg, os Milesians, a Companhia de Cessair, entre outros. Há um povo, no entanto, que sempre esteve lá, os Fomorians. Os Fomorians são descritos como gigantes, desfigurados, com poderes mágicos, violentos, rudes e belicosos. Descreve-se que eles vivem sob o Mar. Ao passo que os Deuses, das Tuatha, possuem atribuições eminentemente humanas (Goibhniu é Ferreiro, Dian Cecht é Médico, Oghma é associado à Eloquência, e Lugh tem todas as habilidades existentes no mundo e mais algumas). Quando as Tuatha vencem a batalha contra os Fomorians, o dom concedido pelos perdedores é ensinar aos vencedores o uso da Terra, a agricultura. Diante disso, pode-se pensar que esse processo de luta, dominação e compreensão do homem pela Terra é imensamente simbólica. A figura de Lugh Senhor de Todas as Habilidades, filho de pai Tuatha e mãe Fomorian, que é também quem vence a guerra ao matar seu avô Fomorian, pode ser vista como unificadora, pois no conto é a pessoa dele que faz Bres, o Fomorian, revelar os segredos da agricultura.

Lugh, embora não seja um Deus Sol, é ainda um Deus eminentemente Solar - no conto O Cortejo de Étain (Tochmarc Étaine), o povo pensa que o Sol está nascendo do Oeste, mas na verdade é Lugh que chega daquela direção e seu rosto brilha tanto quanto o Sol. Sua ligação com o Céu, para mim, é inegável. Ele é como o Céu que desce e domina Terra e Mar (lembrando que Manánnan, Deus do Mar, é pai adotivo de Lugh).

No Reconstrucionismo - bem como em todas as vertentes pagãs - não somos nós que escolhemos os Deuses, eles é que nos escolhem. Para o meu altar fiz, por gnose pessoal, intuição súbita e execução um tanto obsessiva, uma série de símbolos para os Deuses que me escolheram, usando itens que tivessem relação estreita com esses Deuses, fosse na forma, fosse no uso, fosse no material. Há, por exemplo, um rechaud em forma de panela de barro sobre uma lareira, para Bríd - e optei pelo uso do barro por haver nele a Terra umidificada pela água (Mar), que é moldada por mãos humanas (Arte, Inspiração, setores de Bríd) e depois é modificada pelo fogo (Céu). A panela representa o poço, pois ponho água e essência ali dentro, enquanto a lareira é um símbolo comum de Bríd em sua face protetora do lar e mantenedora da chama. Tenho também um candelabro dourado para Lugh, com ramos de trigo, uma lança e uma funda decorando - e lá acendo velas para esse Deus. Tenho um caldeirão cheio de grãos, e uma folha de carvalho em homenagem ao Dagda, uma pequena caixa de prata com um crânio de corvo, algumas pedras e algumas penas negras para Morrighan, uma ânfora de louça decorada com ervas curativas tendo dentro água da fonte dedicada a Airmid, uma pequena garrafinha feita de concha e cheia de água do mar entre outros objetos para Manánnan... entre outros. Uso esses símbolos para me sentir mais próxima dos Deuses de minha devoção.

Para nos sentirmos próximos dos nossos Deuses nós fazemos orações, canções, rituais, oferendas. As oferendas podem ser materiais (por exemplo mingau de aveia com cerveja preta para o Dagda) ou imateriais (horas de treinamento de violino dedicadas a Bríd, ou oferecer água a animais de rua em nome de Flidais). Há também pactos que podem ser firmados. Por exemplo, dediquei a Macha um geis (uma espécie de tabu, em que abstém-se de algo para conseguir alguma outra coisa, como Cu Chulainn possui o geis de não poder comer carne de cão, ou Cruinniuc recebeu de sua mulher Macha o geis de não contar a ninguém quem ela é ou do que ela é capaz. Por sinal, é claro que, nos dois casos, os geasa foram quebrados, trazendo grave prejuízo). Eu pedi a Macha para engravidar, e firmei com ela o geis de que eu não brigaria, com ninguém, em situação nenhuma, até conseguir meu intento. Ela, como padroeira da gravidez e do parto, concedeu meu desejo. Foi mais de um ano sem brigar, e foi bem difícil. Mas acho que me fez muito bem (o geis tem como uma de suas características trazer algum crescimento pessoal para quem compromete-se com ele).

Os Deuses, também, são vistos como Ancestrais. O Livro das Invasões (Lebor Gabala), conta da chegada dos Deuses à Irlanda como quem conta as histórias dos feitos de um antepassado distante. Na Irlanda, nós somos descendentes dos Deuses - como Cu Chulainn é filho de Lugh, como Diarmuit é afilhado de Aengus.

A unidade básica dos celtas é o clã, a família. Um coletivo de clãs é uma tribo. E é essa a relação que temos com nossos Deuses, com nossos Ancestrais, e também com as Boas Gentes. Nós chamamos pelos nossos Deuses da mesma forma que telefonamos pra nossas mães com um problema, e fazemos coisas por eles como quem dá um presente para um filho. É uma relação estreita, de colaboração, apoio, amor, convivência, conhecimento. Nós não invocamos nossos Deuses. Nós não os chantageamos. É uma relação familiar. Pois eles são, também, aqueles que vieram antes de nós, nossos Ancestrais. E eles são aqueles que dividem essa Terra conosco, como as Boas Gentes.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Boann - a deusa do An Bhóinn

Boann é a deusa associada ao rio Boyne, rio que corta o complexo do Brugh na Bóine – atual Newgrange. Ela é casada com Elcmar (às vezes Nechtan, dependendo da versão) e era proibida, assim como qualquer outro que não seu marido, de se aproximar do Poço da Sabedoria (Tobar Segais), cercado por 9 aveleiras que alimentavam o salmão nadando em suas águas. Boann descumpriu as ordens dadas e se debruçou no poço, que explodiu suas águas atirando-se sobre a deusa. Versões diferentes falam sobre o destino de Boann, mas comumente se diz que ela sobreviveu à fúria das águas perdendo um olho, um braço e uma
Boann e o rio Boyne
perna. Desta forma, Boann é associada à Sabedoria. Perder partes de seu corpo é uma alusão ao Conhecimento, pois não se adquire nenhum conhecimento sem perder algo. Explico melhor, quando se obtem conhecimento sobre determinado assunto, sua visão muda, seu jeito de caminhar pelo mundo muda e não toca mais as coisas ao redor da mesma maneira. Você nunca mais será o mesmo depois que recebe determinado conhecimento.
Mas essa deusa é muito mais complexa.

Em sua mitologia, Boann também é mãe de Angus Mac Óg (Aengus ou Oengus são ortografias possíveis também) com o Daghda. O Daghda foi amante de Boann por uma noite e desse encontro foi gerado o deus jovem. Ao saber da gestação, o Daghda usa seus poderes e faz com que o Sol esteja a pino por 9 meses, podendo assim parecer que da concepção ao parto de Angus, passou-se somente 1 dia. Então, Boann é mãe de Angus, que em tempos mais modernos seria associado a Apolo e Narciso da mitologia grega pela beleza e juventude, e também uma deusa da Sabedoria. Mas a questão que se pode fazer aqui é: Por que o Daghda se interessou por Boann? Não há em nenhum mito destaque sobre suas características físicas que indiquem o porquê. Aliás, não há nenhum tipo de descrição de Boann, talvez somente em textos mais recentes em que se faz alusão a ela ser mãe de Bríd ou até mesmo esta própria deusa.

Como disse, Boann é uma deusa bem mais complexa. Boann vem da contração de 2 palavras irlandesas Bó + Fhionn (Bó + Find em irlandês antigo) que significa “Vaca Branca”. As vacas brancas são animais associados ao deus Daghda, o que explicaria, então, seu affair com a deusa Boann. Ele, assim, afirma sua posição como Deus fertilizador e perpetua a imagem da vaca como um animal representando da fertilidade e prosperidade.
A deusa das vacas brancas
Sabe-se, também, que a vaca é um animal bem comum em mitos irlandeses. Basta observar a quantidade de textos como “Táin Bó” (Ataque ao Gado), transformando esse gênero como um dos mais encontrados na literatura irlandesa, junto aos Imramma (Viagens ao Outro Mundo). O táin bó mais conhecido é o “Táin Bó Cúailnge” (O ataque ao gado de Cooley), mas podemos encontrar, pelo menos, mais 6 táin bó famosos: “Táin Bó Flidaise”, “Táin Bó Aingen” e “Táin Bó Fraích” são alguns exemplos (Assalto ao gado de Flidais, Aingen e Fáech, respectivamente).
Porém, a associação de Boann com as vacas parece ser mais antiga. Existe um mito pouco conhecido em que podemos ter uma primeira visão sobre essa deusa tão importante, mas pouco venerada pelos pagãos de hoje em dia. Diz-se que uma bela Berooch (ou sereia) veio à Irlanda anunciar a chegada de 3 vacas vindas do Oeste e um ano após a anunciação, 3 vacas majestosas surgiram das águas do mar: uma negra, uma branca e uma marrom. As 3 vacas surgiram e pararam na costa Oeste da ilha com sua pele brilhante e olhos bondosos observando o povo que as esperava. Pouco tempo depois se puseram a caminhar e tomaram 3 caminhos diferentes. A vaca preta (Bó-Dhu) se dirigiu para o Sul; a vaca marrom (Bó-Ruadh) se dirigiu para o Norte; e a vaca branca (Bó-Find) cruzou a planície irlandesa em direção ao centro, em direção ao palácio do Árd Rí (O Grande Rei da Irlanda). Por cada local que essa vaca passava, a cidade era nomeada em sua homenagem; cada poço em que a vaca bebia era chamado de Lough-na-Bó ou Tober-Bó-Finn (Lago da Vaca ou Poço da Vaca Branca) para que nunca se esquecesse de sua chegada. E assim foi, a palavra “bó” é uma das palavras mais comuns em irlandês, inclusive na toponímia. Ao chegar ao centro da ilha, a Bó-Find gerou 2 bezerros, um macho e uma fêmea que deram origem a uma maravilhosa raça de gado que, segundo se diz, existe até hoje. A vaca branca logo se dirigiu em direção ao mar (não se diz se para Leste ou Oeste, mas é mais provável que para Leste) e se escondeu numa caverna às margens de um lago, num sono profundo, esperando que o Árd Rí viesse acordá-la.
Ora, isso mostra que, possivelmente, Boann foi a primeira Deusa da Soberania. Ela não somente era um animal sobrenatural como também trouxe fertilidade à terra e só seria acordada pelo Grande Rei. Essa é uma aproximação bem nítida do rito de posse da terra que encontramos com a chegada dos Milésios.
Vale ressaltar que a Colina de Tara está há alguns kilômetros somente (aproximadamente 4km) do rio Boyne e que Newgrande está a leste de Tara, seguindo o curso do Boyne. Pode-se imaginar, portanto, que Bó-Find, a Vaca Branca, foi com o tempo, perdendo sua importância como Senhora da Soberania passando a ser a Deusa Boann que habita o rio Boyne, uma deusa da Sabedoria.
Alguns membros do meu clã, numa viagem à Irlanda, tiveram uma experiência no mínimo "suspeita": próximo à Tara, num terreno agora particular, encontraram uma gruta próxima às margens do Boyne com oferendas, restos de velas e tudo o mais. Se aproximaram, deixaram suas oferendas e orações. Ao se levantarem para sair, perceberam que muitas vacas brancas se dirigiam a eles. Só algum tempo depois é que eles puderam entender a ligação.

Castelo Trim às margens do rio Boyne

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Imbolc e o puerpério

Se o inverno é gestação - um momento de interiorização, silêncio e escuridão para criar nova vida, novos projetos, novas ideias e de descanso e preparação para o plantio -, o Imbolc é o puerpério. 

Puerpério é o nome que se dá ao período logo após o parto, em que o bebê recém nascido começa a adaptar-se ao mundo aqui fora e a mãe, também recém nascida, aprende (muitas vezes a duras penas) sobre como exercer sua nova condição. É um período delicado, muito emocional, em que normalmente a nova mãe enfrenta noites mal dormidas ou sem dormir, tem poucas oportunidades para ir ao banheiro ou tomar banho, e raramente tem uma refeição não interrompida ou pulada. A plenitude silenciosa da gravidez dá lugar a um bebê que chora e que não sabemos ainda como acalentar. Amamentar no começo é difícil e até doloroso, pois nenhum dos envolvidos sabe ainda como fazer. É um período de perda de identidade, em que a mulher deixa de ser aquela que costumava ser, com suas individualidades, talentos, liberdades e tarefas, mas ainda não estabilizou sua nova eu - a mãe.

É uma grande mudança e, como todas as mudanças, exige esforço e assusta um pouco.

O bebê humano nasce antes de estar completamente pronto, e é muito defendida a visão de que é necessária uma exterogestação após o parto, em que a mãe e o bebê, ainda mergulhados na sombra, encontram-se um ao outro, e através desse encontro é que estabelecem as fundações do relacionamento que construirão juntos ao longo dos anos.

Não tem nada melhor nesse momento do que quando uma mulher experiente, que já foi mãe antes, vem na casa da puérpera. Pode ser a mãe ou a sogra, uma irmã mais velha ou uma amiga verdadeira. Ela passa um pano nos móveis, varre o chão, lava a louça, enfia roupa dentro da máquina e depois pendura para secar, faz comida para a semana e congela em porções individuais e fáceis de aquecer no forno. Ela segura no colo o bebê para que a mãe possa ir ao banheiro, tomar banho, comer, tirar um cochilo. Ela ajuda com a pega certa na amamentação, tranquiliza as inseguranças da mãe, reforça nela a fé de que ela é capaz e está fazendo tudo certo.

Quando iniciamos um novo projeto, precisamos dessa voz amiga. Quando o inverno parece perdurar para sempre é que precisamos acender uma chama e confiar que o verão virá pela frente, com todas as suas possibilidades. Vejo a deusa Bríd, neste momento do Imbolc, assumir esse papel.

Bríd é normalmente representada como tríplice, patrona das artes, poesia e inspiração, da cura, da família e do lar. Ela é associada ao fogo, seja da forja ou da lareira, e é representada com chamas saindo do topo da cabeça. Ela também é associada com parto e amamentação, pois é conhecido o hábito de se colocar uma crosog (Cruz de Brigid, ou de Santa Brígida), uma cruz característica feita de junco ou de trigo, na cabeceira da parturiente para ajudá-la a dar à luz e proteger a díade mãe-bebê. É uma deusa polivalente e considerada por alguns contraditória, pois apesar de toda a sua associação com fogo, há poços sagrados a Bríd por toda a Irlanda, e normalmente esses poços possuem tradição de suas águas serem curativas.

Bríd possui muitos nomes: Brigid, Brighid, Brigit, Briggidda, Brigantia, ou ainda Santa Brigida, uma figura religiosa poderosíssima na Irlanda, e a principal santa deste país. É uma deusa celebrada em muitos países europeus, O nome Brigit vem provavelmente do antigo Brigantī, "A Alta", "A Sublime", e em sua homenagem foram nomeados vários rios: Braint (Anglesey) e Brent (Middlesex), e também possivelmente Bregenz na Áustria e Brechin na Escócia. O manuscrito Glossário de Cormac oferece uma etimologia improvável para o nome da deusa: "Breo Saighead"--"flecha flamejante."

No Glossário de Cormac a deusa Bríd, uma dos Tuatha De Danann, é descrita como trigêmeas, filhas do Daghda, todas com o mesmo nome. Uma era a deusa da poesia, outra da forja, e uma terceira da cura. A poesia a relaciona naturalmente aos bardos, e à sabedoria. A forja e o ofício do ferreiro eram relacionados à magia, assim como a cura. No Livro das Invasões é dito que ela possuía dois bois poderosos chamados Fea e Men, e também Torc Triath o rei dos javalis, o que indica que ela poderia estar associada à fartura, ao sustento e à alimentação.

A data sagrada de Bríd é justamente o Imbolc, celebrado no hemisfério norte no começo de fevereiro, e aqui no começo de agosto. Há uma deusa chamada Cailleach, a megera do inverno, de cabelos brancos e pele azul, que traz o frio, a neve e a tempestade no inverno, e diz a lenda que nessa época do Imbolc ela derrete e transforma-se em Bríd, trazendo o calor da primavera porvir. É, mesmo, uma chama a se acender no meio do inverno.

No manuscrito da Segunda Batalha de Moytura conta-se que Bríd casa-se, a exemplo do pai de Lugh, com um filho dos inimigos Fomorianos, Bres o Belo. Ele deve tornar-se rei pois o rei anterior, Nuada, perdeu um braço e pela lei irlandesa não pode mais governar, mas é provável, como com outros reis irlandeses, que ele tenha precisado casar-se com ela para poder tornar-se rei, o que evidenciaria um aspecto de Bríd como Deusa da Soberania. Não por coincidência considera-se que a palavra galesa para rei, brenin, é derivada da forma hipotética brigantīnos, significando "consorte da deusa Briganti". Bres então casa-se com Bríd e torna-se rei dos Tuatha unindo as tribos rivais, mas não é um bom rei. Ele é por consequência deposto e corre para junto dos Fomorianos, sua tribo de origem, declarando guerra contra os Tuatha e é essa batalha que é travada na planície de Moytura e dá nome ao conto.

O  filho que Bríd tem com Bres chama-se Ruadan, um jovem guerreiro. Aproveitando-se de sua origem dupla, durante a batalha ele é enviado pelos Fomorianos para espionar a tribo materna, e para matar o ferreiro dos Tuatha, Goibhniu. Ele aproxima-se como aliado e pede uma lança a Goibhniu, que a entrega ao jovem. Nesse momento, Ruadan trai a família da mãe e fere Goibhniu mortalmente. Mas o ferreiro é muito forte e habilidoso, e usa a mesma lança para matar Ruadan com um só golpe. Ao ficar sabendo da morte de seu filho Bríd solta um lamento tão alto que é ouvido por toda a Irlanda e por esse lamento ela é especialmente lembrada, pois este episódio dá a ela atribuições de unificadora e de deusa da maternidade e da paz sob a visão de alguns.

O culto a Bríd na Irlanda era amplo e muito forte. Em Kildare conta-se que havia um templo em sua homenagem, onde 19 sacerdotisas alternavam-se dia após dia para manter permanentemente acesa uma chama. Diz a lenda que no vigésimo dia a própria deusa vinha olhar pelo fogo. Com a chegada do Cristianismo na ilha, o culto a Bríd era tão forte que não conseguiram erradicá-lo, então ela foi transformada em santa e adotada pelos cristãos irlandeses. No século VI foi erguido um monastério em Kildare no mesmo lugar do antigo templo, e as freiras do monastério mantiveram essa tradição de manter aceso um fogo para a Santa. No século XIII foi construída uma enorme catedral no lugar do monastério, e as freiras continuaram seu trabalho de manutenção do fogo até que no século XVI o Rei Henrique VIII fechou e destruiu muitos monastérios, igrejas e congregações católicas. No dia de Imbolc, em 1º de Fevereiro de 1807, Daniel Delany, Bispo de Kildare, restaurou a Irmandade de Santa Brígida, com o objetivo de retomar o legado e o espírito da santa. Em 1993, a chama perpétua foi finalmente reacendida por Mary Teresa Cullen, que era a líder na época das Irmãs de Santa Brígida.

Hoje é possível visitar em Kildare a praça central onde há uma imagem da santa, a imensa e imponente catedral, e também a fundação do antigo monastério, onde os fiéis concentram suas oferendas à santa-deusa, de velas, objetos pessoais, fotos, fitas e crosoga. Mais afastado do centro da cidadezinha é possível visitar também um dos poços dedicados a ela, um recanto muito bonito em meio a trigais, onde há um poço sob uma árvore e também um pequeno riacho e uma pequena capela, tudo sob o olhar de uma Santa Brígida de pedra em tamanho real. Caminhando por esses lugares é fácil sentir que, como deusa e como santa (pois as duas se misturam), o culto a Bríd é muito profundo e move muitas pessoas.

O Imbolc, data sagrada de Bríd, é o meio do inverno e é também o primeiro toque de primavera deste inverno, a primeira chama que se acende, quando nos climas temperados, onde o inverno é branco e intenso, os primeiros ramos verdes começam a insinuar-se na terra congelada. Aqui no nosso tropical RJ não é isso o que acontece, pois nosso inverno é suave e, na maior parte do tempo, bastante quente. O frio, quando vem, é revigorante e um bom momento para comer um fondue e assistir filmes enrolados num edredom. Mas há no ar uma energia, uma sensação de recolhimento maior. Essa é sempre uma época para mim de pausar, refletir, reagrupar, bolar estratégias. Nessa época, entre o Solstício de Inverno e o Imbolc calha de ser sempre quando eu revejo conceitos, modifico rumos, ou simplesmente paro e penso. Tradicionalmente essa é mesmo a época da faxina da primavera, de jogar fora tudo aquilo o que não serve mais, para estarmos prontos para a chegada de tempos mais quentes, e essa faxina é física e também espiritual, imaterial. É um momento de transição, como Cailleach virando Bríd.

Oimelc, usado por alguns pagãos como nome deste festival, significa "leite de ovelha" (pois este é o tempo em que as ovelhas parem seus filhotes e portanto seu leite torna-se disponível em abundância), reforçando a relação com a maternidade. Leite é um símbolo comum do Imbolc, sendo comumente bebido nesta data, e também ofertado à terra. Leite é um grande símbolo de nutrição, proteção, continuidade e reafirmação da vida, e imortalidade. A mulher que amamenta sustenta seu filho com apenas seu corpo, e por isso antigas culturas mostraram reverência a este ato (o contrário do que é feito em nossa sociedade hoje em dia, em que muitas vezes mães amamentando são constrangidas em locais públicos ou são razão de piada em programas de humor duvidoso na TV).

Nos momentos mais tempestuosos do puerpério, em que meu bebê chorava e eu chorava junto, e em que tudo o que mais queríamos e precisávamos era muito leitinho, tranquilidade, revigoramento e cura, foi por Bríd que chamei incessantemente, agarrada à minha crosóg pingente, pedindo que ela pusesse suas mãos sobre mim, sobre minha filha e sobre a minha casa, e permitisse que essa novíssima relação fosse abençoada e, a exemplo da primavera vindoura, crescesse com viço e força para um dia dar bons frutos. E tive meu pedido atendido, pois a primavera sempre chega.


E é por essa mão que abençoa e acalenta que podemos chamar a qualquer momento, para abençoar nossos novos projetos, novas empreitadas, e novos eus. Isso porque tradicionalmente o Imbolc é sim relacionado a um momento de limpeza, de preparação para o que está por vir, mas é também um momento de acender uma chama e ter fé. 

domingo, 13 de julho de 2014

Deusa do verde crescente: Airmid da Irlanda


Saudações aos leitores do Corrente!
Como minha primeira contribuição a este projeto, gostaria de disponibilizar uma tradução que fiz acerca de uma Deusa pouco difundida dentro do politeísmo Celta, o que não é de causar estranheza, por haver muito pouco existente sobre a mesma, talvez duas ou três citações dentro de todos os documentos mitológicos existentes. A referida Deusa é Airmid, senhora das ervas e poços relacionados a cura. Airmid é uma Deusa a quem devoto parte de meus dias, pois tenho muita gratidão. É notório que ela é parte de meu culto particular. Possuo um altar que ergui em sua homenagem em meu quintal, de mármore branco com verde, que me remete a pureza das águas de seu poço e o verde de suas poderosas ervas, que por sinal foi erguido ao lado do canteiro que é dedicado a ela, com muitas ervas que utilizamos no nosso caminho. O cultivo das mesmas não deixa de ser uma forma de reverenciá-la. Airmid é filha de Dian Cecht, irmã de Miach, vindo a ser também em algumas versões prima de Brigith. Mas sobre esses outros Deuses, falarei posteriormente ou um dos integrantes aqui com certeza falarão em breve. A paixão que adquiri pela mesma se deve ao meu amor pelas ervas e a manutenção de minha saúde. Airmid nos ensina como lidar com os mais variados tipos de ervas existentes, fala conosco através delas, através do reflexo das águas, através do cheiro das flores e do vibrar emanado do verde poder. Existem Alguns relatos de tradição oral, de mitos de Airmid e Miach, e de alguns constumes de pedidos de cura, como amarrar pedaços das roupas de um doente em um lugar consagrado a ela para obter a cura desejada, mas disso também podemos falar mais tarde, para que não se torne desgastante essa leitura. No maravilhoso texto de Erynn Rowan Laurie, a mesma fala com paixão e alegria desta maravilhosa Deusa, disponibilizando até algumas dicas para quem pretende cultuá-la
.

Espero que gostem do material, pois quem a busca de verdadeiro coração, a encontrará, no verde, Airmid sempre viverá.


Altar de Airmid, Solstício de Verão 2013, Tradição Antiga Essência.


Deusa do verde crescente: Airmid da Irlanda
 
Os celtas honravam centenas de divindades ao longo das ilhas britânicas e da Europa ocidental. Alguns são conhecidos através de contos e poesias, mas a maioria, pouco se sabe além dos nomes, tirados de inscrições em pedra. Ao pensar em Deusas de cura irlandesas, a maioria das mentes imediatamente volta-se para Brigith, mas ela não é a única Deusa de cura Celta. As histórias de Airmid são poucas. Ela é mencionada apenas duas vezes ou três vezes em todos os contos irlandeses traduzidos. Airmid é uma curandeira de ervas, que faz parte de uma família de curadores entre os Tuatha de Danann, um dos grupos de Deuses e Deusas da Irlanda pagã. Juntamente com seu pai, Dian Cecht e seu irmão Miach, um Deus de cirurgia, ela guardava a fonte sagrada que trazia os mortos de volta à vida. Os contos nos dizem:


“O morto e o ferido de morte foram lançados em uma cura superior a Dian Cecht, seus filhos, Octriuil Miach e Airmid cantaram encantamentos, e todos foram restaurados em pleno vigor.”


Como curandeira, Airmid superaria seu pai no poder, pois enquanto Dian Cecht substituiria o braço decepado do rei de Danann, Nuadha, com um de prata, ela e Miach regenerariam o braço de carne para a saúde perfeita. O encanto de cura que recitavam, permaneceu no uso popular Celta até hoje.
 
Osso para* osso,
Veia para veia,
Bálsamo para bálsamo
Fluido para fluido
Pele para pele
Tecido para tecido
Sangue para sangue
Carne para carne
Tendão para tendão
Medula para medula
Âmago para âmago
Gordura para gordura
Membrana para membrana
Fibra para fibra
Umidade para umidade.

* - “para” com sentido de “se ligando à”

A Tradição popular é poderosa, permanecendo na memória das pessoas para as gerações futuras, o que explica ela não desaparecer. Não há nenhuma explicação, apenas “este é o jeito que sempre foi feito.” Esse é o poder do crescimento verde. Corte uma sorveira, e uma dúzia de mudas jovens surgirão do tronco para tomar seu lugar.
Como a origem do encanto se perdeu a partir da memória, então o segredo das ervas curativas foi perdido para as pessoas também. Dian Cecht, com ciúmes porque ele não poderia competir com as habilidades cirúrgicas de Miach ou com os poderes de regeneração de Airmid, matou seu filho e espalhou e confundiu as ervas que cresceram a partir de seu túmulo para que os seres humanos mortais não pudessem compartilhar o poder e a imortalidade dos Deuses.
Depois disso, Miach foi enterrado por Dian Cecht e 365 ervas cresceram através do túmulo, correspondente ao número de suas articulações e tendões. Então Airmid espalhou seu manto e arrancou as ervas de acordo com suas propriedades. Dian Cecht veio até ela e misturou as ervas, a fim de que ninguém soubesse sobre suas qualidades curativas adequadas, a menos que ela ensinasse-os depois. E Dian Cecht disse: “Apesar de Miach já não viver, Airmid permanecerá.”
As ervas de Airmid, distribuídas em sua capa, estavam espalhadas por seu pai. No entanto, Airmid ainda se lembrava dos poderes das ervas, e pode ensinar-nos os seus segredos. Através dela, podemos aprender a usar e apreciar o poder sagrado de plantas e águas curativas. Suas ervas medicinais eram poderosas, oferecendo a cura para todas as partes do corpo. O número simbólico 365 nos diz que, com o tempo, as ervas de Airmid podem curar todas as feridas. As ervas de Airmid têm poder durante todo o ano solar, sejam em sementes, raízes, caules, flores ou folhas. Frescas na primavera ou secas no auge do inverno, as ervas têm efeito. Elas funcionam por ciclos da natureza, e através da energia que conecta as articulações e tendões do corpo em linhas de energia.
É Airmid, a Deusa das plantas medicinais, apenas uma curadora do corpo? A resposta simples é não, o poder de cura de cada lugar verde aparece visivelmente dentro dele. Temos apenas que ficar em um bosque de árvores ou ouvir a o escoar de uma cachoeira circulada por samambaias para sentir o peso de nossas feridas espirituais e emocionais começarem a levantar de nossos ombros. O poder de cura das plantas vai muito além de seu efeito físico sobre a bioquímica humana. Quando nos deliciamos com as cores e aromas de flores desabrochando, o cheiro inebriante verde dos pinheiros e cedros, o poder de cura de Airmid estará lá. Em nossas xícaras de chá com mel, ela reside. Ela habita em florestas e campos, e para aqueles de nós que vivem nas cidades, ela habita nos vasos de ervas aromáticas de lojas de jardinagem, canteiros de janelas de apartamentos, e no dente de leão amarelo teimoso empurrado para fora de uma rachadura na calçada. A essência da religião celta é encontrada nos estados contraditórios, e não na margem limiar. Airmid é o equilíbrio céltico ímpar de resistência e delicadeza, que se manifesta na amora silvestre – brilhante, de flor frágil e com emaranhados de espinhos. Ela cria a vida da morte, trazendo a cura da sepultura de Miach. Três tipos de medicina eram reconhecidos pelos sábios de direito, a cirurgia, o controle da dieta e a cura pelas ervas. A “mulher-médica do tuath ou tribo (banliaig túaithe) foi considerada independente de seu marido e ordenou o seu próprio preço de honra, ao contrário de muitas outras mulheres na sociedade celta.
A banliaig túaithe era muito provavelmente uma curandeira de ervas e parteira. O herbalismo foi considerado uma parte muito importante da medicina irlandesa, e isso teria feito de Airmid uma deusa de muita estatura, apesar de poucas menções a ela nos textos mitológicos irlandeses.

As sagas e textos considerados/aceitos concordam em ressaltar a importância das ervas medicinais. Tain Bo Cualigne descreve um cataplasma de ervas curativas que foi colocado nas feridas de CuChulainn. Bretha Crolige afirma que o propósito das ervas do jardim é cuidar dos doentes, e refere-se ao grande serviço prestado pelas ervas medicinais.
Nossas jardineiras (as que penduramos nas janelas, e plantamos ervas e/ou flores) e canteiros de ervas no quintal podem ser santuários de Airmid. Os bosques e todos os lugares silvestres, onde crescem plantas são seus templos naturais. Ritos de cura, indução ao transe e meditação são trabalhos devocionais apropriados para esta Deusa do verde. Trabalhar para preservar áreas naturais é uma forma de devoção a ela, porque muitas espécies de plantas medicinais são encontradas apenas na natureza e/ou não podem ser cultivadas.

Um altar em casa para Airmid pode ser coberto com um pano, simbolizando o manto em que ela colocou as ervas de cura. Pode-se espalhar plantas secas ou frescas de todos os tipos. Vasos de flores, ramos de ervas, vasos de plantas, coroas de ramos ou pilhas de frutas podem ser colocados em sua superfície. Uma tigela ou caldeirão com água da fonte ou água da chuva podem simbolizar o seu poço de cura e regeneração. Incensos para ela devem ser aromas florais ou “terrosos”, com ar de crescimento e verdes campos, as resinas de pinheiro ou abeto, ou a doçura elegante do âmbar. Se você for usar velas, elas podem ser de cera de abelha para simbolizar o trabalho de fertilização das abelhas e os poderes curativos do mel. Se você sentir a necessidade de uma lâmina sobre o altar, considere usar uma foice para sua estreita associação ao trabalho agrícola, ao invés de um athame. Bronze, prata, pedra ou madeira são preferíveis às de ferro, pois o folclore nos diz que os dé Danann não gostam desse metal. O seu templo interior pode ser decorado com cachos de ervas secas penduradas no teto, guirlandas de ervas nas paredes, cestos com flores secas, jardins interiores de ervas em vasos sob lâmpadas solares daquelas feitas com garrafas, cheias com ervas secas, e almofarizes e pilões para a sua preparação.
Se você tiver espaço no seu quintal para fazer um jardim, seria muito apropriado você dedicar uma área para ser seu santuário especial e pedir suas bênçãos para o crescimento e preparação de suas ervas. Divindades celtas eram freqüentemente representadas por figuras simplórias esculpidas em um tronco ou em uma pequena pedra em pé. Com um pouco de inspiração e alguns cuidados você pode criar em uma pedra ou tronco um ícone que simbolize a divindade para si mesmo. Uma tigela ou banheira para pássaros perante a imagem pode servir como sua fonte de cura. Vidência e meditação de cura podem ser realizadas olhando para a superfície refletiva da água. Para aqueles que possuem algum dinheiro disponível e um gosto para coisas incomuns, pequenas fontes de pedra natural áspera podem ser encontradas em lojas de jardinagem e empregadas no culto. O custo para isso pode ser alto, mas a bomba da fonte precisa de menos eletricidade do que é preciso para executar um purificador de ar de tanque de peixes. O som musical da água em movimento pode aprofundar a meditação e fornecer um refúgio contra a distração das atividades cotidianas. Se você não tem a sorte de morar perto de um rio ou cachoeira, esta pode ser uma alternativa útil. A inspiração é uma das raízes do culto celta. Não há roteiros necessários para adoração desses deuses. A poesia é a sua forma preferida de invocação. Algum tempo gasto em um jardim de ervas ou entre as flores silvestres poderá facilmente inspirá-lo, como tem inspirado muitos poetas ao longo dos séculos. Mesmo se você não estiver se sentindo particularmente inspirado, há uma série de livros disponíveis com amostras de poesia celta, que podem ser usadas ou modificadas para seus rituais.

“Eu vou arrancar corretamente o milefólio, que mais benigno será o meu rosto, que mais quente sejam meus lábios, que mais puro será meu discurso, sejam minhas palavras como os raios de sol, sejam meus lábios como a seiva do morango” 


“I will pluck the yarrow fair, That more benign shall be my face, That more warm shall be my lips, That more chaste shall be my speech, Be my speech the beams of the sun, Be my lips the sap of the strawberry."


Existem muitos poemas celtas que são centrados em torno da colheita de ervas que são específicas para a cura ou para fins mágicos. A Carmina Gadelica, originalmente uma compilação com materiais poéticos em ambas as traduções do inglês e gaélico escocês, foi recentemente relançado em formato “All-english”, e é uma rica fonte que contém muitos encantos e crenças folclóricas sobre plantas, da Escócia do final do século 19. Outros poemas populares usam ervas e plantas como parte de seus simbolismos, mesmo que eles não estejam diretamente relacionados com o uso e cultivo das plantas medicinais. Estes também podem ser modificados para usar em rituais. As tríades são uma forma tradicional de textos sábios da Irlanda Céltica. Uma das tríades irlandesas fala sobre atributos de um curandeiro, dizendo: “Três coisas constituem um médico: A cura completa, não deixar defeitos para trás, e realizar um exame sem dor”. Através do nosso trabalho em rituais com Airmid, podemos nos esforçar para cumprir essas condições. Em devoção a ela, podemos trabalhar para curar a nós mesmos, e através do conhecimento de suas ervas, as pessoas próximas a nós também. Através dos nossos jardins e nossa devoção ao mundo verde das plantas, podemos mover o círculo exterior e trabalhar para curar o nosso planeta.

Texto Erynn Rowan Laurie
Traduzido e adaptado por Belenus Brigante

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Dian Cecht, uma pesquisa, e algumas percepções pessoais

(Por Laise Ayres)

Gaudenzi-DianCechtEra Bealtaine, e eu estava dando as boas vindas aos Tuatha De Danann. De olhos fechados eu via as embarcações se aproximando, imensas contra a espuma branca do mar, e cada uma delas levava um deus. Na minha mão havia um barquinho de papel com a imagem do deus que eu deveria receber, mas, de olhos fechados, eu ainda não sabia qual era. Eu via ao invés a grande embarcação de madeira atracando lentamente na areia, a ponte descendo, uma expectativa para ver quem sairia, para quem eu daria as boas vindas ao nosso mundo. Abri os olhos e um grande sorriso caloroso e encarei o barquinho entre meus dedos, e o olhar grave de Dian Cecht encarou-me de volta. Minha reação imediata, automática, incontrolável, foi meu sorriso falhar, foi meu peito se fechar, foi um pensamento súbito, “Logo você?!?!?”
Horrorizada com a minha própria reação, pedi desculpas compulsivamente, respirei fundo, me recompus, reforcei o sorriso, e dei as boas vindas mais sinceras que consegui, com o sentimento mais verdadeiro que pude montar às pressas dentro de mim.
De lá para cá, conversei com muitas pessoas, e vi que esse é um sentimento comum, essa rejeição a esse deus. Os motivos estão na mitologia, pois um dos seus atos mais conhecidos é o de matar o próprio filho por inveja de suas habilidades. Mas, motivada pelo ocorrido em Bealtaine e também (principalmente, pois sou meio teimosa e tive que praticamente ser forçada, rs) pela tarefa que recebi no mesmo dia, me vi determinada a me aprofundar, encontrar outro ângulo, outra percepção. Esse texto é resultado direto dessa jornada.
Gostaria de incluir alguns dados pessoais que tornam esse grande aprofundamento ainda mais relevante, na atual conjuntura da minha vida: um dos fatos é que estou grávida, apaixonada pela ideia do parto natural e muitíssimo revoltada com o índice de cesarianas desnecessárias no nosso país, e também com os relatos de violência obstétrica sofrida por mulheres. Tenho visto relatos de (e também presenciado ocasionalmente) práticas médicas absolutamente condenáveis, que simplesmente não visam o bem estar do paciente e resultam em consequências deploráveis. O outro fato é que meu pai está com melanoma, uma espécie de câncer, e encontra-se na quarta tentativa de tratamento, uma quimioterapia tão violenta que é quase tão ruim quanto a própria doença. É, portanto, um momento de profundas conjecturas e percepções a respeito da vida, do nascimento, da morte, da doença e da cura: tanto a ideal, que prevê, como na tríade irlandesa, “um exame sem dor, cura completa e nenhuma cicatriz”, quanto a inconsequente, malfeita, destrutiva que é praticada todos os dias por profissionais irresponsáveis.
A minha pesquisa está dividida em duas partes: na primeira coloco tudo aquilo que encontrei em fontes originais, de manuscritos medievais a relatos de folcloristas, passando por determinados paralelos que encontrei em sites de fitoterapia e numa extensa pesquisa a respeito da medicina tradicional chinesa.  Na segunda, assinalada como “Comentários”, estão minhas percepções pessoais, interligando pontos da pesquisa com outros conhecimentos obtidos de forma mais incerta e minhas próprias conjecturas.
Espero que o conteúdo aqui apresentado seja útil a todo aquele que o ler, e que lance alguma luz sobre essa divindade tão controversa, que é Dian Cecht.
Significado do nome: [do Dindshenchas] Dian-cecht o nome do médico sábio de Erin, ‘o deus dos poderes’, porque cecht significa ‘poder’.
Outros nomes: Diancecht, Dian Cécht, Dian-cecht, Mac Cécht.
Atribuições: medicina, cura, recuperação, regeneração.
Árvore genealógica:
1) Filho de Danu e Bilé, irmão de Dagda e Nuada
Pai de Airmid, Miach e Etan (esposa de Ogma), Sawan, Cian e Goibhniu
Avô de Turenn (o mesmo cujos filhos mataram Cian)
Avô de Lugh
2) Filho de Esarg, irmão de Goibhniu, Credné e Luchta
Pai de Cian, Étan (esposa de Ogma), Ochttriuil, Miach e Airmid
Avô de Turenn (o mesmo cujos filhos mataram Cian)
Avô de Lugh
3) Filho de Ethliu, irmão de Dagda, Nuada, Goibhniu, Credné, Luchta e Lug Mac Cein
4) Em algumas versões é considerado filho de Dagda.
Obs: Em alguns lugares o pai de Cian, Cu e Céthe é chamado de Cainte, como por exemplo no relato da Primeira Batalha de Moytura ou no conto O Destino dos Filhos de Turenn. Li que Cainte poderia ser outro nome de Dian Cecht, quer dizer “discurso, fala”.
Locais associados: Heapstown Cairn (O Poço de Sláine), Planície de Moytura, Lough Arrow – Co. Sligo; Rio Barrow, cuja nascente fica em Co. Laois, mas ele passa por Kildare, Kilkenny, Carlow, Wexford e Waterford.
Árvore associada: aveleira (Coll, no ogham)
Ervas associadas: trevo de jardim (azedinha), dente-de-leão e morrião-dos-passarinhos
1) Azedinha ou trevo de jardim (Oxalis acetosella) – Propriedades e usos: Febrífuga, diurética, refrescante, depurativa, expectorante, adstringente, desopilante, descongestionante. Inflamações intestinais e da bexiga, constipação, feridas, gengivite, febre.
2) Dente-de-leão (Taraxacum officinale) – Propriedades e usos: Alcalinizante, anódina, anti-anêmica, anti-colesterol, anti-diarréica,antiescorbútica, antiflogística, anti-hemorrágica, anti-hemorroidária, anti-hipertensiva, antiinflamatória, antilítica biliar, anti-oxidante. Ácido úrico; acidose, acnes, afecções biliares, afecções hepáticas, afecções ósseas, afecções renais, afecções vesicais, aliviar escamações da pele, aliviar irritações da pele, aliviar vermelhidões na pele, anemias; arteriosclerose, astenia.
3) Morrião-dos-passarinhos ou Morugem (Stellraia media) – Propriedades e usos: Eczemas, picadas e ferradas de insetos, asma, indigestão e doenças de pele. Hemorragias nasais, inflamações como a cistite, e diabetes. Favorece as vias respiratórias, cura as inflamações dos brônquios, alivia cansaço e debilidade.
Obs.: há um “mingau de Dian Cecht” que é usado folcloricamente para curar várias doenças, como resfriado, garganta inflamada, congestionamento das vias aéreas, ou vermes. Ele é feito com avelãs, dente-de-leão, trevo de jardim (azedinha), morrião-dos-passarinhos e aveia.
Fontes na literatura medieval:
1) Livro das Invasões:
Agora Nuadu Airgetlam era rei dos Tuatha De Danann por sete anos antes deles chegarem à Irlanda, até que seu braço foi cortado na primeira batalha de Mag Tuired. (…) Bress filho de Elada assumiu o trono da Irlanda, por sete anos, até que o braço de Nuadu foi curado: um braço de prata com atividade em cada dedo e cada junta que Dian Cecht colocou nele, com a ajuda de Credne.
(…)
Agora de dolorosa praga morreu
Dian Cecht e Goibnenn o ferreiro:
Liughne o artífice também caiu
com eles por um forte dardo de fogo.
2) Primeira Batalha de Moytura:
(…) Os quatro filhos de Gann entraram na disputa. Contra eles avançaram Goibnenn o Ferreiro, Lucraid o Carpinteiro, Dian Cecht e Aengaba da Noruega.
3) Segunda Batalha de Moytura:
Naquela batalha, apesar de tudo, a mão de Nuada foi arrancada – foi Sreng filho de Sengann que a arrancou – então Dian-cecht o médico pôs nele uma mão de prata com movimento em cada junta; e Credne o ourives ajudou o médico.
(…)
Agora Nuada estava doente, e Dian-cecht colocou nele uma mão de prata com movimento em cada junta. Isso pareceu maligno para seu filho Miach. Ele foi até a mão que foi arrancada, e disse “junta a junta, tendão a tendão” e ele curou Nuada no triplo de três dias e noites. Nas primeiras setenta e duas horas ele colocou a mão contra o lado de Nuada, e ela cobriu-se de carne. Nas segundas setenta e duas horas ele colocou no seu peito. Nas terceiras setenta e duas horas ele colocou uma tala com junco negro quando eles enegreceram ao fogo.
Esta cura pareceu maligna a Dian-cecht. Ele lançou uma espada contra o topo da cabeça de seu filho e cortou a pele e a carne. O rapaz curou a ferida com sua habilidade. Dian-cecht o atingiu novamente e cortou a pele e a carne até alcançar o osso. O rapaz curou-se da mesma forma. Ele o atingiu com um terceiro golpe e foi até a membrana de seu cérebro. O rapaz mais uma vez cu0rou-se da mesma forma. Então ele lançou o quarto golpe e cortou o cérebro fora, e então Miach morreu e Dian-cecht disse que nenhum curandeiro poderia curá-lo daquele golpe.
Depois disso Miach foi enterrado por Dian-cecht, e 365 ervas, o mesmo número de juntas e tendões de Miach, cresceram do seu túmulo. Então Airmed abriu seu manto e separou essas ervas de acordo com suas propriedades. Mas Dian-cecht veio até ela e bagunçou as ervas para que mais ninguém saiba seus usos adequados. E Dian-cecht disse “Se Miach não existe, Airmed deve permanecer”.
(…)
“E tu, Dian-cecht”, disse Lugh, “que poder podes nos oferecer?”
“Não é difícil dizer”, disse ele. “Todo homem que seja ferido lá, contanto que sua cabeça não seja cortada fora ou a membrana do seu cérebro ou sua medula espinhal cortadas, eu o farei inteiro para a batalha na manhã seguinte.”
(…)
Heapstown Cairn - Co. Sligo
Heapstown Cairn – Co. Sligo
Isso punha fogo nos guerreiros que eram mortos lá, pois eles tornavam-se mais hábeis pela manhã. Porque Dian-cecht e seus dois filhos, Octriuil e Miach, e sua filha Airmed estavam cantando feitiços sobre o poço chamado Sláine. Agora seus homens mortalmente feridos eram lançados nele assim que eram massacrados. Eles saíam vivos. Seus ferimentos mortais tornavam-se inteiros através do poder do encantamento dos quatro curandeiros que estavam em torno do poço.
Agora isso era um problema para os Fomorians, então eles pediram que um de seus homens inspecionasse a batalha e os hábitos dos Tuatha De, Ruadán filho de Bres e Brígh filha de Dagda. Ele era filho e neto dos Tuatha De. Então ele contou aos Fomorians do trabalho do Ferreiro, do Carpinteiro e do Bronzista e dos quatro Curandeiros que estavam em torno do poço. Ele foi enviado de volta para matar um dos artífices, Goibniu. Ruadán implorou por uma lança, do Bronzista os rebites e o cabo do Carpinteiro. Então tudo foi dado a ele conforme ele pedia. (…) Após a lança ter sido dada a ele, Ruadá virou-se e feriu Goibniu. Mas ele arrancou a lança e a lançou contra Ruadán, de modo que ela o atravessou e ele morreu na presença de seu pai na reunião de Fomorians. ( …) Então Goibniu entrou no poço e saiu inteiro.
Havia um guerreiro com os Fomorians, Octriallach filho de Indech filho de Dé Domnann, filho do rei Fomorian. Ele disse aos Fomorians que cada homem deveria trazer uma pedra de Drowes para lançá-la no poço de Slaine em Achad Abla a oeste de Moytura, a leste do Loch Arboch. Então eles foram, e uma pedra para cada homem foi trazida até o poço. Por isso o cairn erguido nesta ocasião é chamado de Octriallach Cairn. Mas outro nome para esse poço é Loch Luibe, pois Dian-cecht colocou nele cada uma das ervas que cresciam em Erin.
River Barrow - Co. Carlow
River Barrow – Co. Carlow
4)  Bodleian Dinnshenchas
Berba, dentro dele foram lançadas as três víboras que habitavam os coraçõs de Méche, filho de Morrígain, após sua morte Mac Cecht em Mag Méchi (na época essa planície chamava-se Mag Fertaigi). O formato das cabeças das três víboras era o dos três corações que estavam em Méche, e, a menos que sua morte ocorresse, as víboras teriam crescido em sua barriga até que não sobrasse animal vivo na Irlanda. Então após matá-lo em Mag Luadat, Mac Cecht queimou os corações e lançou suas cinzas na correnteza, e ela ferveu, e dissolveu cada um dos animais que estavam lá dentro. (…) Como disse o poeta:
“Os corações de Méche, ferida dura,
Foram afogados no Barrow;
Suas cinzas, após terem sido queimadas por você,
Mac Cecht, assassino de uma centena, as lançou.”
5) Dindshenchas Métricas
O Barrow, aguentando seu silêncio,
que flui através do povo do velho Ailbe;
um parto é saber o motivo pelo qual é chamado
Barrow, flor de todos os nomes famosos.
Nenhum movimento elas fizeram
as cinzas de Mechi fortemente afetadas:
a correnteza empapou e silenciou além da recuperação
a sujeira caída da velha serpente.
Três voltas fez a serpente;
ela lançou-se ao soldado para consumí-lo;
ela teria arruinado por sua natureza toda espécie
de hostes indolentes da antiga Erin.
Então Diancecht a destruiu:
havia uma razão simples para destruí-la de forma limpa,
para evitar que ela trouxesse ruína
além de qualquer conserto, que consumisse completamente.
É conhecido para mim o túmulo onde ele a lançou,
um túmulo sem paredes ou teto;
suas cinzas malignas, -sem ornamentos na região
encontraram enterramento silencioso no nobre Barrow.
6) O Cortejo de Étain
(…) Então Midir veio naquele dia para o Brug para visitar seu filho adotivo, e ele encontrou Mac Oc no monte (…) com dois jovens acompanhantes (…) uma briga começou entre os dois jovens no Brug. “Não se mova”, disse Midir para Mac Oc, “(…) Eu vou eu mesmo fazer as pazes entre eles.” Então Midir foi, e não foi fácil apartá-los. Um galho de azevinho foi lançado em Midir enquanto ele intervinha, e ele arrancou um dos seus olhos. Midir veio para o Mac Oc com um dos olhos em sua mão (…).
(…) Disse Mac Oc, “Eu vou até Dian Cecht para que ele venha e cure a ti, e tua própria terra será tua, e essa terra será tua, e seu olho estará inteiro novamente sem vergonha ou mácula por causa disso.” O Mac Oc foi até Dian Cecht (…) Dian Cecht veio e curou Midir, deixando-o inteiro novamente. “Boa é minha jornada agora,” disse Midir, “já que estou curado.”
7) Os Julgamentos de Dian Cecht
Há um tratado médico atribuido a Dian Cecht encontrado no manuscrito Phillipps 10297 (agora G 11) na National Library of Ireland. O manuscrito é do século XV, mas linguisticamente o tratado parece ser bem mais antigo. Além de vários julgamentos a respeito do pagamento a procedimentos médicos baseando-se na classe social, há no tratado um parágrafo interessante sobre o que é denominado “As Doze Portas da Alma”, às vezes traduzidas como “Os Doze Portais da Vida”:
“Há doze portas para a alma no corpo humano: (1) o topo da cabeça, ou seja, a coroa ou moleira, (2) côndilos do occipital, (3) a fossa temporal, (4) a maçã da garganta (pomo de Adão), (5) a colher do peito (fossa supra esternal, no topo do esterno), (6) a axila, (7) osso do peito (esterno), (8) o umbigo, (9) a lateral do (?), (10) a curva do cotovelo (fossa cubital), (11) a fossa do joelho, ou seja, por trás (fossa poplítea, atrás do joelho), (12) a saliência da virilha, ou seja, o tendão do touro (trígono femoral), (13) a sola do pé.”
Sim, eles dizem doze, mas listam treze (sendo que o item número 9 está quase ilegível, vi em algumas traduções ser interpretado como “lateral dos rins”). O motivo é desconhecido. Por um lado, essa pode ser uma lista de pontos vulneráveis no corpo, lugares onde é mais fácil ferir, e para os quais um médico deve dar atenção. Por outro lado, pode ter um significado mais esotérico, por esse ser um tratado atribuído a um deus da medicina que possui um poço do renascimento; soa quase como um sistema de chakras irlandês. O termo “portas da alma” pode ter um significado dúbio, tanto pode significar áreas vulneráveis como pode significar áreas do corpo com atributos especiais.
Obs: Todos os pontos supracitados figuram na medicina tradicional chinesa como pontos importantes de acupuntura. A observar:
1) Topo da cabeça/coroa/moleira: VG20, portal da mente/espírito, indicado para desmaio, hipertensão, dores no topo da cabeça, convulsões.
2) Côndilos do ocipital: B10, acalma a mente, nutre o cérebro, interrompe a dor e relaxa os músculos. Beneficia o olfato.
3) Fossa temporal: VB1, clareia a visão, indicado para dor ocular, inflamação nos olhos, visão turva.
4) Cartilagem da tireóide/pomo-de-Adão: VC23, língua, paladar, garganta, fala. Indicado para afonia, sede excessiva, dificuldades da fala, rouquidão, aquela sensação de “nó na garganta”, de quando a pessoa queria ter dito algo mas não disse.
5) Fossa supra esternal: VC22, dores no coração, nos pulmões, enjôo. Faz com que energias agitadas do estômago se acalmem e descendam como deveriam.
6) Axilas: C1, principal ponto do coração, responde na circulação do sangue, indicado contra paralisia, auxilia na amamentação.
7) Esterno: VC17, é uma grande concentração e confluência de diversos canais de energia, libera emoções presas no peito, protege o coração. Indicado para tratar esquizofrenia.
8) Umbigo: VC8, indicado para fraqueza, falta de energia, trata rins, intestinos, dores abdominais.
9)  Lateral do ? (rins?): (talvez) VB25, usado para afecções renais, é o ponto de alarme dos rins, que indica quando há algo de errado com esse órgão. Harmoniza o corpo, e é indicado contra febre, problemas menstruais, nefrite.
10) Fossa cubital/dobra do cotovelo: CS3, refresca o sangue quando está muito quente, é calmante. Indicado contra ansiedade, medo, tristeza, febre, bronquite, palpitação.
11) Fossa poplítea/dobra do joelho: B54, relaxa o corpo e desobstrui o aparelho digestivo. Usado contra cólicas menstruais, também faz a menstruação presa descer.
12) Trígono femoral: BP12, usado para problemas urinários e do aparelho reprodutor. Trata de problemas do endométrio e dos testículos.
13) Sola do pé: R1, acalma a mente, trata de dores no topo da cabeça, convulsões, desmaios, insônia e epilepsia.
É interessante notar que o ponto nas solas dos pés tem efeitos muito semelhantes ao do topo da cabeça, e que basicamente todas as funções do organismo são contempladas por esses 13 pontos. A maioria deles é tão poderosa que acupunturistas usam constantemente, para tratar doenças bem diversas entre si.
Há também relação desses pontos com chakras (o topo da cabeça corresponde ao coronário, o pomo-de-adão ao laríngeo, o do centro do esterno ao cardíaco, o umbigo ao plexo solar/umbilical, e as solas dos pés são constantemente consideradas extensões do chakra raiz – apenas dois chakras não possuem relação direta, o chakra frontal, que se encontra na testa, e o chakra sacro, que se encontra na altura da virilha).
Encontrei também uma observação de um artista marcial, que apontou que todos esses pontos são muito vulneráveis numa luta corpo-a-corpo, sendo alguns deles muito adequados para neutralizar o oponente de forma imediata, e outros absolutamente fatais.
No mesmo texto também são citadas as sete fraturas do corpo:
1) Dentes
2) Braço
3) Antebraço
4) Coxa
5) Perna
6) Ponto do ombro
7) Ponto do calcanhar
O texto dá a entender que tanto essas fraturas quanto os Portais da Alma podem ser utilizados por um médico para determinar a gravidade da situação do paciente.
Também há uma teoria de que tanto os Portais da Alma quanto as fraturas do corpo poderiam estar relacionados ao valor da compensação monetária que o responsável pelo ferimento poderia ser obrigado a pagar ao ferido ou à sua família.
Observações a respeito da medicina na antiga Irlanda:
DianCechtMédicos parecem ter sido conhecidos pelo termo fáithliaig, que pode ser traduzido como vidente-sanguessuga (provavelmente relacionando-se à prática de usar sanguessugas como ferramentas de cura, ou à ideia de que o médico “suga” a doença para fora do paciente). Eles tinham uma posição prestigiosa na sociedade, com um meticuloso esquema legal os regendo.
Por exemplo, diferentemente dos gregos ou romanos que muitas vezes matavam pessoas doentes ou frágeis, a Lei Irlandesa obrigava que o melhor cuidado possível fosse dispensado aos doentes, feridos, frágeis e idosos. Médicos eram responsabilizados por seus atos. Uma tríade afirma que um médico deve oferecer “um exame sem dor, cura completa e nenhuma cicatriz”. É claro que isso é muito difícil de obter, mas essa tríade parece ser o grande objetivo dos médicos na antiga Irlanda, algo que eles almejavam conseguir.
Para a prática da medicina, o profissional devia ser qualificado e reconhecido publicamente, caso contrário poderia ser punido pela Lei. Caso um ferimento ou doença de um paciente fosse piorada por negligência ou falta de habilidade do médico, este era responsabilizado por isso através de leis muito similares às leis atuais de prática indevida da medicina. Um médico negligente ou sem habilidade que tenha causado prejuízo a um paciente deveria pagar tributos caros, baseados na natureza do dano, e também no status social do paciente na sociedade.
Eram permitidas licenças sabáticas aos médicos, para que eles pudessem se retirar e aprender novas práticas, ou estudar novamente conceitos que já conhecem de modo a manter-se aptos para praticar a medicina. Eles também eram obrigados a assumir até quatro aprendizes, que ao mesmo tempo em que aprendiam a medicina na prática, também verificavam o trabalho do mestre, para garantir que cada decisão era a mais adequada. A Lei Irlandesa obrigava que toda pessoa, independentemente do seu status ou classe social, tinha direito a tratamento de saúde.
Há registro de que médicos na antiga Irlanda realizavam certos procedimentos cirúrgicos (por exemplo, abrir um furo no crânio para drenar excesso de fluido ou tecido cerebral danificado), e utilizavam-se de banhos ou saunas terapêuticas, além de medicamentos fitoterápicos utilizando ervas medicinais.
Comentários:
Dian Cecht era o médico dos Tuatha De Danann, tratado com grande respeito e gratidão pelos demais. Todo problema de saúde, pequeno ou grande, é sempre levado a ele, e ele é descrito como extremamente competente, seja ao curar o olho de Midir, seja para com efeito abrir o peito de uma criança monstruosa e remover e destruir as víboras que estão lá dentro em lugar das entranhas.
Seus aprendizes são seus filhos, Miach, Airmid e, mencionado mais superficialmente, Octriuil. Deste último sabe-se praticamente nada, apenas que ele estava também cuidando do poço de Sláine durante a Segunda Batalha de Moytura, de modo que os guerreiros feridos em combate pudessem ser nele banhados e com isso renovados para a batalha no dia seguinte, mas os outros dois possuem determinadas características muito próprias. Parece seguro dizer, por exemplo, que o método de cura deles é diferente do de seu pai, conforme fica claro na passagem a respeito da mão perdida de Nuada. Dian Cecht parece preferir métodos cirúrgicos e protéticos, enquanto Miach e Airmid parecem preferir encantamentos, toques e ervas medicinais.
Conforme se sabe, Nuada perdeu a mão na Primeira Batalha de Moytura, e por isso perdeu seu posto de Rei (já que para ser rei era obrigatório que se tivesse o corpo e a mente completos e inteiros). Em seu lugar assumiu Bress, um Fomorian, e ele em pouco tempo provou-se um rei tirano. Isso fez com que houvesse uma grande necessidade de que Nuada retornasse ao seu cargo, e numa tentativa de resolver o problema Dian Cécht faz para ele, com a ajuda de Credne, uma mão de prata perfeitamente funcional como prótese. No geral isso parece ter resolvido o problema, mas há uma versão em que a princípio a mão funciona muito bem, mas depois o punho na junção com a prótese apodrece e Nuada mais uma vez torna-se impossibilitado de reinar.
Nuada retira-se então para um castelo, tendo como carregador de bagagens um homem sem um olho. Vendo a necessidade de Nuada receber uma mão adequada, Miach e Airmid vão vê-lo nesse castelo. O carregador de bagagens queixa-se da sua falta de um olho, pedindo que os dois curandeiros o ajudem. Miach e Airmid então pegam um olho de um gato e colocam-no na órbita vazia do homem. Ele fica muito feliz, apesar dos inconvenientes de não conseguir dormir direito à noite pois o olho do gato permanece aberto, e do olho do gato estar sempre em busca de ratos. O criado conta a Nuada do feito de Airmid e Miach e o antigo rei aceita recebê-los. É então que Miach pergunta a Nuada onde sua mão decepada fora enterrada, a desenterra, e através de encantamentos, faz com que ela primeiro se cubra de carne novamente, depois ganhe vida, e depois prenda-se perfeitamente no punho de Nuada, sem cicatriz visível. E assim, ele pode voltar a ser rei.
Dian Cécht, ao saber da cura realizada por seu filho, a reprova completamente. Ele atinge a cabeça de Miach com uma espada quatro vezes: na primeira, corta a pele e a carne, e Miach se regenera. Depois, ele corta até o osso e o mesmo ocorre. Na terceira vez, ele corta até a membrana do cérebro, e Miach mais uma vez consegue se curar. No fim, Dian Cécht corta o cérebro do filho por completo, e Miach morre. Dian Cécht então enterra seu filho e de seu túmulo nascem 365 ervas medicinais (em uma das versões, as ervas nascem das lágrimas de Airmid, que chora sobre o túmulo do irmão). Airmid as organiza em seu manto e cataloga por uso, mas quando Dian Cécht fica sabendo disso, ele vai lá e as espalha completamente.
Os dois atos, o de matar o filho e o de espalhar as ervas da filha, são muitas vezes citados como atos de inveja e orgulho, por não admitir que eles sejam melhores curandeiros do que ele próprio. Em muitas versões ele é visto como um pai ciumento e um profissional arrogante, que não admite ser superado em suas habilidades nem mesmo pelos próprios filhos. Mas existem outras versões possíveis.
Em uma delas, Dian Cecht reprova a mão que Miach devolve à vida como sendo algo maligno, algo inaceitável e desrespeitoso, como se Miach tivesse feito algo que subverte regras básicas que deveriam ser seguidas. Como se Miach tivesse sido antiético do ponto de vista da prática da medicina, ou pervertido as próprias leis da natureza. Li um comentário que comparava a cura feita por Miach a uma espécie de necromancia, algo antinatural que não obedece aos ciclos, algo perigoso e inadequado.
Lendo sobre as leis meticulosas que regiam a prática da medicina na antiga Irlanda (por exemplo as complexas relações de compensação monetária que um médico deveria oferecer ao paciente ou à família em caso de erro por negligência ou inabilidade, que tornavam-se agravadas por extensão e gravidade do dano efetuado, bem como por área do corpo e classe social), não é difícil imaginar que a discordância de Dian Cecht quanto aos métodos de seu filho poderia ser fundamentada em ética profissional. Talvez ele tenha considerado as práticas de Miach experimentais, incertas, com algum potencial para causar dano a médio ou longo prazo, perigosas por serem novas e ainda não comprovadamente eficazes. Há na lei descrita no manuscrito Os Julgamentos de Dian Cecht uma forte preocupação com a boa prática da medicina, já renomada, comprovada, tradicional e revisada que parece corroborar com essa possibilidade. Quando conversei a respeito disso com um amigo ele levantou uma questão que me deixou muito pensativa e, na impossibilidade de chegar a uma conclusão, resolvi compartilhá-la: será que Dian Cecht aprova a ética da medicina praticada atualmente?
Quanto ao espalhar das ervas catalogadas por Airmid, infelizmente o monge que copiou este conto incluiu uma visão Cristã de que Dian Cecht justificaria seu ato dizendo que aquele conhecimento só deveria ser obtido através do Espírito Santo. Mas também é possível interpretá-lo de forma mais simbólica: a de que, para obter o conhecimento do uso de todas as ervas, é necessária uma grande dedicação e um longo estudo, e esse conhecimento não deve ser obtido de mão beijada, e sim por merecimento. Uma outra interpretação sugeria que o conhecimento do uso das ervas deveria ser reservado à profissão, não devendo ser divulgado, e que era esse privilegio que Dian Cecht buscava preservar.
Também li uma interpretação interessante, de que os atos de censura de Dian Cecht aos métodos de cura dos filhos visariam manter o equilíbrio da natureza, pois caso as pessoas pudessem ser curadas de qualquer mal de forma tão perfeita e exata, sabendo qual erva cura o que, e tendo partes do corpo revividas impunemente, seria um poder grande demais para a humanidade, a morte deixaria de existir, e o equilíbrio da natureza seria posto em risco.
Se levarmos isso em consideração, podemos dizer que ele possui um senso de retidão, de causa e consequência, de responsabilidade, e que ele não permite que emoções ou preferências pessoais interfiram com suas decisões. Um deus austero e severo, criterioso, que não se deixa abalar e faz o que considera adequado. Doa a quem doer, pois a morte também é uma solução.
Isso também se torna flagrante no episódio das víboras que habitavam o corpo de Méche, o filho de Morrigu. Dian Cecht no momento em que olha para a criança percebe sua malignidade e não hesita em abrir seu peito. A princípio parece que o menino possui três corações, mas logo fica revelado que seus corações são as cabeças de três serpentes venenosas. Dian Cecht imediatamente as mata, queima e joga suas cinzas no Rio Barrow, que ferve matando toda a vida que se encontrava nele. Fica revelado então que, se isso não tivesse sido feito, as víboras dentro do corpo de Méche teriam crescido e devorado tudo o que é vivo na Irlanda.
Esse episódio é testemunho da eficiência e objetividade do médico, que consegue ver o mal oculto dentro de algo aparentemente inocente – o corpo de uma criança – e trabalha rapidamente para cortar esse mal pela raiz.
A morte de Miach pelas mãos de Dian Cecht também pode ser vista de forma simbólica, considerando que a espada – um instrumento de ação, de vontade – é repetidas vezes lançada contra o topo da cabeça – que é um dos Portais da Alma – até que penetre no cérebro. O motivo pelo qual tendo a considerá-la simbólica é que ela é descrita no texto da Segunda Batalha de Moytura, poucos parágrafos antes de Miach reaparecer vivo e com saúde, ao lado do pai, de Airmid e de Octriuil, cuidando do poço de Sláine e curando os Tuatha De Danann durante a batalha.
A impressão que dá é que esse momento, dos quatro reunidos em torno do poço de Sláine, ao qual foram adicionadas todas as ervas da Irlanda (supostamente as mesmas que Dian Cecht espalhou do manto de Airmid), cantando encantamentos e guiando os guerreiros feridos para dentro e os curados para fora, é o momento em que todos os estilos de cura são unidos em prol de uma causa maior. As diferenças de método são esquecidas, e todos os talentos se unem com apenas um objetivo, e assim milagres ocorrem.
Uma curiosidade a respeito desse poço é que conta-se que os Fomorians, descobrindo-o como chave do sucesso dos Tuatha De Danann (que num dia estavam à beira da morte, mas no dia seguinte apareciam para a batalha em perfeita forma e saúde, e mais habilidosos do que antes) juntam-se e recolhem pedras do rio Drowes, e cada Fomorian joga uma pedra no poço, até que o cobrem completamente e formam uma montanha de pedras. Em County Sligo há um cairn chamado Heapstown Cairn, que dizem ser essa montanha de pedras feita pelos Fomorians para neutralizar o poço de Sláine.
Dian Cecht é sempre descrito ao lado dos três deuses artífices (Goibhniu o Ferreiro, Luchta o Carpinteiro, Credne o Ourives), quase como se o ofício dele fosse da mesma natureza que o dos outros três. Em muitas versões os quatro são irmãos, e na Segunda Batalha de Moytura é mencionado que Credne auxilia Dian Cecht a fazer a mão de prata para Nuada, e mais adiante na história Goibhniu utiliza-se do poço de Sláine de Dian Cecht para curar-se de um ferimento mortal de lança.
Essa associação entre o trabalho com metais e a cura não é incomum. Na antiga Escócia há indícios de que ferreiros poderiam ser vistos como curandeiros, e de que a água usada para resfriar o ferro seria considerada mágica,  tendo absorvido as propriedades de cura inerentes do metal, e por isso seria usada para curar qualquer tipo de doença. O trabalho do ferreiro e do ourives no nosso imaginário remete facilmente à alquimia, em que um material bruto passa por agentes místicos, transformadores, para tornar-se algo novo. Essa associação também é encontrada na deusa Bríd, que possui relação tanto com o fogo da forja quanto com o poço de cura.
A morte de Dian Cecht, mencionada muito rapidamente no Livro das Invasões, se deveu a um dardo venenoso, assim como Goibhniu e Luchta. É descrita como muito dolorosa. Eu particularmente considero essa morte um grande mistério. Como um médico tão habilidoso morre de um dardo envenenado? Deixando minha mente voar um pouco, me pergunto se isso não demonstra mais uma vez o modo como Dian Cecht parece “curvar-se” aos ciclos e às leis de causa e efeito da natureza, reconhecendo a hora de ir e não fazendo nada para impedi-la.
Mesmo assim, Dian Cecht é reverenciado e relembrado por suas habilidades e seus feitos como médico, uma divindade da cura, e há registros de que seus poderes eram invocados na Irlanda para auxiliar doentes e feridos até o século VIII.
Há uma observação interessante que relaciona Dian Cecht a Lugh: sendo pai de Cian, o médico é avô de Lugh. O outro avô de Lugh parece praticamente uma antítese de Dian Cecht por tratar-se de Balor, cujo olho é venenoso e seu principal atributo é ser capaz de matar de forma rápida e eficaz um grande número de pessoas ao abri-lo. Balor também é facilmente associável ao caos, enquanto Dian Cecht parece mais relacionado à estrutura organizada, à razão e à retidão.