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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Prece a Bríd pela humanidade

Por Laise Ayres, livremente inspirada na Prece de Cáritas.

Sagrada Bríd, senhora da forja luminosa e do poço escuro,
Mãe querida.
Acende sua chama nos lares, nas mentes e nos corações de todos nós.
Que na sua luz aqueles que passam pela provação encontrem forças,
Que a verdade seja mostrada para aqueles que a buscam,
Que sua inspiração guie aqueles que criam.
Encha de razão as mentes confusas,
E de sabedoria as perdidas.
Que seu colo console aqueles que sofrem,
Dê paz aos que estão em conflito,
E suas mãos calorosas toquem aqueles que sentem dor,
Que por todo lugar sua voz amorosa possa se ouvir.
E que todos os órfãos encontrem um lar,
Todas as crianças encontrem proteção,
Todas as mães tenham seus filhos em segurança,
E tenham como alimentá-los.
Que os viajantes encontrem repouso,
Os doentes a cura,
E os sofredores, esperança.
Que sua bonevolência e proteção estendam-se sobre todos os lares,
E que todos encontrem calor e luminosidade para atravessar a noite escura.
Traga a primavera para todas as nossas vidas, fazendo crescer e frutificar nossas sementes,
Nos auxilie em nossos projetos,
Proteja nossos familiares,
E permita que,
À medida em que trazemos sua calorosa chama para nossas vidas
Nos tornemos faróis na escuridão.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

As Várias Árvores da Floresta IV - Fê Peretti

A próxima entrevista é especial para mim, pois foi alguém que me ensinou muito quando ingressei no que na época era Druidismo, a Fê Peretti. A conheci no falecido grupo do Yahoo Creideamh, organizado pelo Bob Kaucher para auxiliar na construção da Ordem Druídica do Brasil. A Fê era - sempre foi - uma grande compartilhadora de conhecimento. Pessoa generosa, sempre fez questão de traduzir e publicar gratuitamente todo tipo de material relacionado aos Celtas - fossem ritualísticas do Apple Branch, fossem lições de Irlandês, fossem contos mitológicos.

Quando ela morava no Rio fazíamos rituais juntas, ela era minha Tuath, mas atualmente ela vive em SP e anda um tanto afastada da internet. Consegui essa entrevista pelo Whatsapp, em que ela falou da forma simples e coloquial com que ela sempre se comunicou, transbordando humildade. Na hora de transcrever dei uma revisada no internetês e conectando melhor uma ideia à outra, mas a essência das respostas está aí. Obrigada, Fê, mais uma vez, pela sua generosidade!

(Parte I)

1 . Identidade. Como você se intitula, como chama sua prática religiosa? Na sua opinião, o que distingue sua prática de outras dentro do Paganismo Celta?

Eu chamo minha prática religiosa de Reconstrucionismo Celta, apesar de não ser puro. Talvez o fato de tentar ser o mais próximo do que a gente tem de conhecimento sobre os celtas seja o que distingue minha prática das outras.

2. Coletividade. Você pratica sozinho ou em grupo? Pertence a alguma tribo, ordem, coven, clã? Como se dá a entrada de novas pessoas no seu grupo? Há títulos ou hierarquia de algum tipo em seu grupo? / 3. Devoção. Você é pan-céltico ou exclusivo de alguma nação (irlandesa, escocesa, ibérica, galesa, etc)? Como você escolheu seu panteão? Há divindades específicas pelas quais você tenha devoção? Há algo que você possa acrescentar a respeito dessa devoção?

Eu trabalho sozinha. Sigo uma nação específica - a Irlandesa - porque me senti melhor com ela. Tenho divindades específicas pelas quais tenho devoção, mas não sei o que acrescentar.

4. Prática. Que elementos compõem sua prática? Há ritos? Orações? Oferendas? Roda do Ano Norte, Sul ou Mista? Datas destinadas a determinadas divindades? Há uso de altares, objetos mágicos ou simbólicos, ervas, flores, alimentos ou cristais?

Na minha prática há oferendas (um presente por outro presente), ritos, orações. Rodo pela Roda Sul mas não faço ritos para solstícios e equinócios, apesar de celebrá-los de maneira simples. Tenho um altarzão com alimentos e bebidas, estátuas, objetos mágicos e afins.

5. Ancestrais e Espíritos da Terra. Na sua prática há algum culto a Ancestrais, sejam eles culturais, físicos ou locais? Há introdução de elementos negros ou indígenas? Há oferendas? Orações? Símbolos? Datas específicas?

Para os ancestrais há oração, há o culto de forma simplória, mas não há oferendas e sim somente orações. Não há introdução de elementos negros ou indígenas.

(Parte II)

1. Como se dá isso de um presente por outro presente?

Um presente por outro é quando você oferece algo em agradecimento por ter conseguido uma coisa que você queria. Por exemplo, eu ofereço uma cerveja por ter conseguido achar uma diferença de caixa, ou ofereço uma vela pela operação da minha mãe ter ido bem (eu pedi com antecedência). É como se fosse uma promessa, mas é um presente na realidade, porque eu ofereço mesmo quando não pedi antes, pode ser uma fruta, uma refeição... sempre retiro do meu parto um pedaço de tudo o que tem nele e ofereço em agradecimento ao que recebi, tem até um pratinho e um copinho na minha pia só deles, onde coloco a comida e a bebida.


2. O que você considera um Reconstrucionismo Celta puro?

Recon puro até onde sei é aquele que segue estritamente as coisas que são encontradas em textos históricos, manuscritos medievais e achados arqueológicos sobre os celtas e criticam adaptações emprestadas de outras culturas. Tem muitos deles no meio celta, eles usam argumentos acadêmicos para nortear as crenças e as práticas, mas muitas vezes não se lembram que os tempos mudaram... povo esquece isso.

3. Eu conheço um pouco da sua trajetória, aprendi muito contigo. Sei que você começou muito jovem e prestou um grande serviço à comunidade, principalmente com suas traduções, sendo uma das suas principais características para a comunidade de pagãos celtas brasileiros a enorme generosidade em compartilhar conhecimento que você sempre demonstrou. Que materiais você indicaria para quem está começando, e que conhecimentos você considera cruciais para seguir o caminho que você segue?

Para seguir o Reconstrucionismo Celta eu recomendo em primeiro lugar ler o CR FAQ que está traduzido na internet. Sugiro ler o Mitos e Lendas Celtas da Angélica Varandas, a tradução deste livro está muito boa. É crucial para o caminho que sigo, na minha opinião, conhecer a mitologia e a história. Não precisa se tornar historiador, mas os mitos precisam ser estudados com afinco. Para saber como seguir um caminho você precisa conhecê-lo, né? Infelizmente a maioria dos mitos está disponível apenas em inglês, mas tem um povo realizando um trabalho bem legal de tradução para o português. [Nota da Entrevistadora: A Fê Peretti é a tradutora da única versão que temos atualmente em português do Lebor Gabála Errén, o Livro das Invasões da Irlanda, uma leitura crucial para quem quer estudar mitologia irlandesa e pode ser encontrada aqui: parte I e parte II.] Em inglês eu indico o Ancient Irish Tales (Tom Peete Cross), The Celtic Heroic Age (John T. Koch), The Tain (Ciaran Carson), Celtic Heritage (Alwyn Rees), Myths and Legends of the Celts (James MacKillop) e The Apple Branch (Alexei Kondratiev). Acho bom ler qualquer coisa escrita pela Erynn Rowan Laurie, não importa o que, ela é ótima. O The Apple Branch uso muito pelos rituais, eu adapto de um modo que dê para fazer sozinha, aí sento e conto os mitos e celebro.

4. Como nos conhecemos há muito tempo, também sei que você esteve afiliada à ADF. Como funciona o trabalho lá? Você ainda está envolvida com eles? Na sua opinião, quais são os aspectos positivos de afiliar-se a eles? E os negativos?

Eu amo a ADF. O trabalho deles é muito bom. Eu vou voltar a me afiliar agora no mês que vem e fazer o trabalho anual deles. A apostila iniciática deles é ótima, e a lista de livros que eles mandam ler é muito boa, li quase todos. O material deles é bastante light, te manda dar uma estudada na história mas o enfoque é bem maior na parte religiosa.

5. Há algo mais que você gostaria de acrescentar? :)
Achei essa entrevista tão bacana, me deu um up sabia? Não conhecia o Corrente RJ, porque passei a usar pouquíssimo o FB e estou por fora de tudo. Estou numa fase de "me deixa aqui no meu canto com meus Deuses que tô mo feliz assim". Se eu ainda morasse no Rio participaria do Corrente porque é com você. :)

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

As Várias Árvores da Floresta III: Jéferson Matthes Vedoy

A terceira entrevista da nossa série está imperdível, é com o Jéferson Matthes Vedoy, da ordem Walonom (RS). Com muita generosidade e riqueza de detalhes, Jéf nos explica melhor a respeito de como é essa Tradição Druídica que nasceu bem aqui em terras tupiniquins.

Jéf, muito obrigada de coração pela visível dedicação com que respondeu nossas perguntas. Vida longa e próspera à Ordem Walonom! Que a chama de Bríd o abençoe e a todos os seus!

Visitem a página da Ordem Walonom clicando aqui!

Parte I (perguntas genéricas) 

Identidade

1. Como você se intitula, como chama sua prática religiosa?

Me intitulo Waloniano, o caminho que sigo é o da Tradição Druídica Waloniana.

2. Na sua opinião, o que distingue sua prática de outras dentro do Paganismo Celta?

Quando a Tradição foi pensada não havia muito movimento céltico no Brasil, isso em 2001, redes sociais não existiam e até mesmo o acesso à internet era bastante limitado. Toda informação era obtida através de pouquissímos livros e revistas ( nem sempre confiáveis) e através de pessoas que estivessem dispostas a compartilhar aquilo que sabiam, e nossa posição geográfica ( Rio Grande do Sul) não ajudou na interação com outras pessoas, estamos distantes do centro cultural brasileiro. Dentro deste cenário nós buscamos tudo que pudemos para construir as bases do que hoje chamamos Tradição Druídica Waloniana, unindo a busca da informação com um forte sentimento clânico, já que dependíamos basicamente uns dos outros. Por anos ficamos completamente à parte do “cenário céltico brasileiro” trabalhando internamente diferentes questões e construindo instintivamente nosso estilo de religiosidade.

Após o início da interação com caminhos já estabelecidos como o Druidismo e o Reconstrucionismo percebemos que não nos enquadrávamos completamente em nenhum deles e tínhamos criado uma forma alternativa, um reconstrucionista nos achará druidistas demais e um druidista vai nos achar reconstrucionistas demais. Como o Druidismo e o Reconstrucionismo um dia foram pensados, criados e organizados, assim fizemos com nosso caminho.

Não tenho experiência com nenhum outro caminho para seguramente apontar distinções, no entanto posso afirmar que somos permeados de um forte sentimento clânico nos comportando como uma família, entendemos que a espiritualidade deva ser uma prioridade para aqueles que buscam este caminho bem como seu trabalho enquanto membro de uma micro e macro comunidade, temos posicionamento frente a debates sócio culturais, não achamos que o sacerdócio seja o único caminho disponível para viver a religiosidade mas entendemos que qualquer caminho escolhido deva ser cumprido com serenidade, honra e sabedoria e principalmente, achamos que qualquer pessoa possa praticar nossa espiritualidade, pregamos acima de tudo a acessibilidade imediata, sem exigir curriculum ou formação acadêmica.

Temos como principal proposta a popularização da religião de inspiração céltica assim como foi feito com o espiritismo quando chegou aqui no Brasil.


Coletividade

3. Você pratica sozinho ou em grupo?

As duas coisas, tenho minhas práticas de culto doméstico onde tenho minhas irmã como companheiras e o culto mais formal com o Bosque que faço parte, o Feth Fiada. Mas também tenho um bom culto devocional, este pratico sozinho.

4. Pertence a alguma tribo, ordem, coven, clã?
Sim, sou membro da Ordem Walonom e do Bosque Feth Fiada.

5. Como se dá a entrada de novas pessoas no seu grupo?

Na Ordem: existe um processo inicial através de um curso básico ( na versão on line ou presencial) e após o curso a pessoa que desejar participar efetivamente deverá fazer uma entrevista com um tutor, sendo aceito, já constará como membro ativo.

No Bosque: deve ser membro ativo da Ordem Walonom. Deve solicitar participação e após um período de adaptação frequentando nossos encontros e ritos poderá passar pelas iniciações adequadas.

6. Há títulos ou hierarquia de algum tipo em seu grupo?

Sim, a Tradição Druídica Waloniana estabelece uma hierarquia padrão:

Os Doer Nemed : Dedicantes >>>>> Devotos >>>> Laoch ( guerreiros)

Os Nemed : Faith / Draoi/ Fili ( são os sacerdotes) >>>> Cenfinne ( são um casal, onde a mulher representa a soberania e o homem a força da tribo, são o poder temporal e não necessariamente preenchido por sacerdotes).

Anualmente são escolhidos o Gamo e a Donzela ( servem como indicações para ocuparem o cargo de Cenfinne na ausência deles )


Devoção

7. Você é pan-céltico ou exclusivo de alguma nação ( irlandesa, escocesa, ibérica, galesa, etc)?

Embora meu mais antigo alvo de devoção seja Cernunnos meu foco é gaélico.

8. Como você escolheu seu panteão?

O ritual base, a estrutura social e espiritual da tribo são baseados nos registros irlandeses, buscar este panteão foi automático e natural no meu trabalho em grupo, e os Deuses gaélicos falam diretamente ao meu coração, ouço, vejo e interajo com eles de forma orgânica e muito poderosa.


9. Há divindades específicas pelas quais você tenha devoção?

Sim, em ordem de oficialização da devoção: Cernunnos, Brighid e Morrighan. Tenho íntima ligação com mais uma dúzia e amo mais outras, mas oficialmente sou devoto somente destes três.

10. Há algo que você possa acrescentar a respeito dessa devoção?

Acho que quando se torna devoto de uma divindade é necessário além de estudar e conhecer sua mitologia, força e personalidade para elaborar culto, oferendas e orações, é necessário trazer todos estes elementos para a realidade, tirar o culto da virtualidade. Para Cernunnos eu me dedico de forma mais intimista ainda, sempre foi assim, mas dentro da minha devoção à Brighid eu criei o trabalho das vigílias e faço procissões frequentes ao poço que dedicamos à ela e sempre me disponho a ajudar com meus conhecimentos técnicos na área da saúde, já sobre Morrighan criei um projeto chamado Grasnar onde escrevo músicas devocionais, não somente em sua honra mas usando sua força de inspiração principalmente. Para Morrighan ainda guardo um projeto futuro e mais ousado.

Prática

11. Que elementos compoem sua prática? Há ritos? Orações? Oferendas?

Sim, há todos estes elementos associados a uma forte presença comunitária. Além disso tenho meditações, visualizações e outros elementos inspirados como o Toque, nossa versão da incorporação.

12. Roda do Ano Norte, Sul ou Mista?

Dentro da TDW chamamos Grande Espiral a roda do ano solar e Pequeno Espiral a roda do ano lunar, ambas são flexíveis no sentido que praticantes do HS celebram pelo sul e praticantes do HN praticam pelo norte, eu e meu grupo especificamente praticamos a sulista.

13. Datas destinadas a determinadas divindades?

Sim, temos algumas datas específicas para determinadas divindades como por exemplo o culto a Crom Cruaigh celebrada em janeiro.

14. Há uso de altares, objetos mágicos ou simbólicos, ervas, flores, alimentos ou cristais?

Nossa Tradição está em plena construção em diversos elementos isso inclui o uso de cristais e correspondências de ervas e flores, no entanto não erguemos altar, usamos oratórios ( que não são obrigatórios) e nenhum objeto mágico. Como cremos que nosso corpo seja a versão microcósmica da Terra, entendemos que assim como a natureza precisamos somente aprender a usar as partes que nos compõem, nosso corpo é nosso maior e único instrumento.

Em alguns ritos usamos símbolos como os Quatro Tesouros dos Tuatha, mas eles não cumprem o papel de instrumento mágico como é o caso do Athame para os Wiccanos.

Ancestrais e Espíritos

15. Na sua prática há algum culto a Ancestrais, sejam eles culturais, físicos ou locais?

Há sim, aliás é fortíssimo este elemento na prática, sempre, em qualquer rito são chamados e ofertados os Ancestrais, bem como os Espíritos e Deuses.

16. Há introdução de elementos negros ou indígenas?

Não especificamente. A religião Yorubá mantém muitos elementos similares e até idênticos aos nossos como a sacralidade do número nove e sua visão divina, mas optamos por não mesclar elementos de nenhuma religião de forma direta, ou seja, mesmo que possamos nos debruçar sobre uma ou outra prática para estudo e comparação, não trazemos para nossos ritos e cosmovisão qualquer pedaço religioso que não céltico, até mesmo em respeito a essas culturas.

17. Há oferendas? Orações? Símbolos? Datas específicas?


Há oferendas, há orações, há símbolos e lembrança e como associamos os festivais do fogo com as luas, prestamos culto aos Ancestrais sempre na lua nova, ela para nós está ligada às energias do Samhain, principalmente dentro do trimestre após o primeiro de maio.


Parte II (perguntas específicas)

1. Um dos seus trabalhos mais bonitos, na minha opinião que olho de fora, é o da Vigília Brighidiana. Fiquei feliz que você mencionou. Você pode me dizer um pouco mais a respeito de como surgiu essa prática e como ela foi estabelecida e, se possível, os resultados que você tem observado?

Este é o trabalho que mais tem me deixado feliz e satisfeito, é deveras algo muito bonito.

Eu buscava meios de atender minhas necessidades de culto, era agosto, eu estava iniciando minha guarda da chama perpétua de Brighid ( que mantenho desde 2012 juntamento com minha irmã) mas  sentia que faltava algo de efetivo diferencial, tenho formação na área da saúde e sou acostumado com ações que levam ao efetivo impacto na vida dos meus pacientes, diante de alguém com dor não adianta muito pegar em sua mão e dizer “que pena”, é preciso buscar meios de aliviar seu mal, seja através de remédios ou até mesmo de massagem, mas algo de efetivo é preciso ser feito. Muitas pessoas vinham me solicitar ajuda e orientação, no entanto nunca pude oferecer nada palpável, salvo rituais e magias bastante virtuais, as pessoas não me viam agindo e não sentiam grandes efeitos.

Inspirado pelo trabalho da Ord Brighideach International comecei e elaborar o que hoje temos nos trabalhos das Vigílias, abrindo para participação de todos e iniciando guardiões oficiais, como um clero alternativo e independente. O projeto ainda está em sua fase inicial, breve teremos mais elementos compondo ele, como é o caso do Santuário Brigidiano Virtual que criamos após vermos os resultados práticos dos Naoiche e Trioiche.

Quanto aos resultados, bom, testei por quase um ano em minha vida e de conhecidos, sempre faço isso, e percebi que obtive resultados para mim e para os outros, assim abri ao mundo o projeto e temos recebido de diferentes lugares apoio, pedidos e muitos relatos de resultados, curas inesperadas, alívios imediatos, presenças sentidas por aqueles que deram seus nomes para as preces, sei de crianças que encontraram causas para moléstias até então desconhecidas e portanto não tinham tratamento eficaz, idosos que curaram de dores crônicas, enfim, temos tido muitos resultados, e tem nos dado forças para levarmos para outro patamar este projeto em específico. Quando uma mãe me ligou e disse que seu filho sorriu após semanas de internação médica com convulsões misteriosas sem causa aparente e teve alta depois de 3 dias do início do Naoiche, eu soube que era um devoto de verdade e que tinha encontrado um modo de fazer o bem.

2. Me chamou bastante a atenção sua menção sobre o Toque, uma versão de incorporação. Como isso se dá? Pode falar mais um pouco a respeito? Parece muito interessante.

O Toque aconteceu de maneira bastante experimental, aliás a experimentação é um dos nossos fortes.  Percebemos em nossos primeiros ritos que uma parte de nós nos deixava e outra tomava espaço, estávamos ali mas de alguma maneira nossa consciência se modificava, eu entrava Jéferson e no meio do rito virava o Morgan ( demos nomes para nossas “versões rituais”) e meus colegas sentiam o mesmo, mudava a voz, o olhar e principalmente a energia. Tínhamos pouca idade e nenhuma experiência, mas com o passar do tempo fomos pesquisar e estudar os processos de extase religioso nas religiões pelo mundo, observamos que cumpríamos as etapas da construção básica do êxtase, e também vimos que a espiritualidade céltica moderna não fazia uso de tais etapas e querendo ou não havia abandonado os processos mais essenciais para se obter uma conexão nevrálgica com o divino. Resolvemos elaborar uma técnica para o despertar do que chamamos Toque, porque não somos tomados pelo espírito divino como é o caso da Umbanda ou Candomblé, mas sim, somos aproximados ao máximo e tocados pelas energias divinas sem perder a consciência, mas permitindo que ela deixe de lado suas amarras e limitações.

Assim definimos os meios para se obter o Toque e somente ensinamos pessoalmente, dadas as delicadas linhas que precisamos cortar e outras que precisamos criar.

De longe é o mais curioso e polêmico tópico relacionado à Tradição Druídica Waloniana e sua metodologia é nosso legado mais importante e mais bem guardado ( ha pessoas que estão conosco há mais de 7 anos e nunca foram treinadas para isso).

3. A Walonom nasceu no RS e espalhou-se, figurando como a Ordem com maior número de membros que responderam a um censo sobre Druidismo e RC realizado recentemente. Em que outros estados vivem membros da Ordem hoje? Há membros fora do Brasil?

Há membros espalhados em todas as regiões do país, ainda não contemplamos todos os estados, mas isso é um projeto para logo, somente em janeiro deste ano de 2014 é que iniciamos as movimentações para a expansão do nosso trabalho, com cursos on line gratuitos estamos atingindo boa parte do Brasil, nem todos são ou viram membros efetivos, mas tudo ainda em fase beta. Quanto ao exterior, bom, nenhum membro ainda, somente parcerias, mas já estamos pensando nisso.

4. Todos os Bosques seguem uma liturgia pré-proposta da Ordem ou há liberdade criativa dentro dos Bosques?

Há uma estrutura, regras e liturgia pré definidas no entanto aceitamos e debatemos adaptações e mudanças. Algumas práticas são adaptáveis, como por exemplo a Espiral do ano que para praticantes do HS são sulistas e do HN são nortistas ( zonas mediais ficam para debate quando houver grupos nesta linha equatorial).

5. Recentemente vi fotos de um casamento celebrado por você. Vocês realizam cerimônias de outros ritos de passagem, como batizados ou funerais? Sendo a Ordem Walonom algo construído coletivamente desde 2001, como vocês chegaram aos elementos para a elaboração de um ritual de casamento? Foi similar ao processo de elaboração dos demais rituais anuais da Ordem?

Sim, realizamos todos os ritos de passagem, inclusive ano passado divulguei uma imagem do ritual de Menarca da minha irmã, realizado por toda a tribo no exato dia de seu primeiro sangramento, comemorado com um jantar após a celebração que realizamos às margens do lago Guaiba em mata fechada. O primeiro rito de passagem que realizamos foi o de morte, perdemos uma membro menina em nosso segundo ano de funcionamento, em silêncio, unidos pela dor e pela fé ajudamos ela em sua entrada na barca que a levaria para além da nona onda. O céu respondeu com chuva.

Quanto ao casamento, eu e Viviane ( Faith do Bosque Feth Fiada) nos reunimos por um ano inteiro, pesquisando, buscando referencias elementos para erigir um casamento ritual cuja cerimônia fosse eficaz. Eu e ela juntos criamos a liturgia ritual .

6. Há mais alguma coisa que você gostaria de divulgar a respeito da sua prática, ou da prática da sua Ordem?

Sim. Walonom foi criada e se mantém independente das ordens internacionais porque antes de mais  queremos estabelecer um modelo de prática que seja inspirado pelo espírito Celta mas praticado pela alma brasileira.  Temos desafios, cometemos erros, temos um objetivo e vamos alcançá-lo, facilitar o acesso à informação prática, promover nossa espiritualidade, popularizar o contato com os Deuses e nunca elitizar aquilo que todos os antigos Celtas tinham no quintal de casa. Para,  nós o a tribo é que importa.

Que os Deuses abençoem a todos e que o Corrente seja próspero.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

As Várias Árvores da Floresta II: José Paulo Gaesum

Nosso segundo entrevistado, José Paulo Gaesum, de Curitiba (PR), das Clareiras Coré-Tyba e Caer Ynis, está entre os organizadores do próximo EBDRC, que será de 4 a 7 de Junho de 2015 em Curitiba. Ele também é integrante do Conselho Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta e nos brindou compartilhando um pouco de sua experiência e vivência dentro da espiritualidade céltica.

Obrigada pela generosidade, JP! É uma honra tê-lo na nossa Floresta!

Povo, não deixem de visitar os sites do CBDRC e do EBDRC.

Espero que gostem da entrevista tanto quanto eu! :D


Parte I (perguntas genéricas) 

1. Identidade. Como você se intitula, como chama sua prática religiosa? Na sua opinião, o que distingue sua prática de outras dentro do Paganismo Celta?

Eu pratico o que chamamos de Tradição Druídica ou druidaria, conforme os moldes da Druid Order/Ordre des Druides. Alguns chamam isso de mesodruidismo, mas este termo não faz sentido para minha prática, então não o adoto exceto para fins comparativos.

Esta é a vertente que surgiu com o renascimento druídico em 1717 quando John Toland reuniu membros de bosques e clareiras da Inglaterra, Gales, Escócia, Irlanda, Man, Cornuália e Bretanha Francesa e que se mantém viva até hoje, quase 300 anos depois.


2. Coletividade. Você pratica sozinho ou em grupo? Pertence a alguma tribo, ordem, coven, clã? Como se dá a entrada de novas pessoas no seu grupo? Há títulos ou hierarquia de algum tipo em seu grupo?

Praticar a Tradição Druídica sozinho é muito válido, mas praticar em grupo é uma experiência muito engrandecedora. Sou membro das Clareiras Coré-Tyba e Caer Ynis e ambas são parte da Assembleia da União Druídica do Brasil (UDB), o braço brasileiro da Ordre des Druides. Por ser uma ordem muito tradicional, temos posições bem definidas em relação aos cargos e aos graus, que vão desde credimacos (aquele que vive a fé druídica) até uerdrui (o grande druida).

Porém além disso, considero que minha família druídica extrapola os limites da minha Ordem e abraça diversos irmãos e irmãs que tenho espalhados pelo Brasil em grupos das mais diversas vertentes e com quem tenho a oportunidade de aprender muito.


3. Devoção. Você é pan-céltico ou exclusivo de alguma nação (irlandesa, escocesa, ibérica, galesa, etc)? Como você escolheu seu panteão? Há divindades específicas pelas quais você tenha devoção? Há algo que você possa acrescentar a respeito dessa devoção?

Considero-me um pancéltico de orientação continental gaulesa. Devotar-me diretamente aos deuses da Gália nunca me impediu te manter contato também com deuses insulares quando necessário. Não creio que os deuses preocupem-se muito com as barreiras geográficas e culturais e que esses limites são muito mais uma imposição dos próprios humanos.


4. Prática. Que elementos compõem sua prática? Há ritos? Orações? Oferendas? Roda do Ano Norte, Sul ou Mista? Datas destinadas a determinadas divindades? Há uso de altares, objetos mágicos ou simbólicos, ervas, flores, alimentos ou cristais? 

Divido minhas práticas em dois momentos: druidaria e politeísmo céltico.

Na druidaria (o ofício do druida) sigo os preceitos que me foram ensinados pelos meus instrutores, seus ritos e orações específicas, assim como o uso de altares e objetos sagrados. Tudo isso faz, ao meu ver, parte da Tradição Druídica e tem como objetivo meu crescimento e o auxílio no crescimento da comunidade que me permeia.

Porém por fora disso tenho também práticas devocionais que são muito particulares, como oferendas e orações e que tem muito a ver com meu lado religioso. Para essas práticas, que chamo de politeísmo céltico, busco inspiração na história e na arqueologia, da mesma forma que os reconstrucionistas o fazem.


5. Ancestrais e Espíritos da Terra. Na sua prática há algum culto a Ancestrais, sejam eles culturais, físicos ou locais? Há introdução de elementos negros ou indígenas? Há oferendas? Orações? Símbolos? Datas específicas?

O respeito à ancestralidade é um dos pilares básicos da maioria das espiritualidades célticas e talvez seja um dos poucos pontos unânimes.

Em nossa Tradição mantemos o respeito aos nossos antepassados em todos os ritos, mas especialmente em Samonios e Beloptenia, quando acreditamos que este contato é mais forte.

Além disso honramos muito nossa ancestralidade druídica, mantendo sempre viva nossa linhagem iniciatória e procurando respeitar o nome daqueles que seguiram por este caminho antes de nós.
Em nossas clareiras não utilizamos elementos indígenas ou negros, porque acho que isso não faz muito sentido para nossas práticas. Honramos sim nossos antepassados, mas não acreditamos que seja necessário trazer elementos de culturas não-célticas para dentro dos ritos, porque em nossas oração aos ancestrais nos referimos aos seus espíritos e não à sua carne, suas nacionalidades ou etnias.



Parte II (perguntas específicas)

1. A Clareira Coré-Tyba será anfitriã do VI EBDRC, um Encontro anual que tem feito um maravilhoso trabalho de união entre os celtas de todo o Brasil (e que ano que vem se os Deuses permitirem, IREI! rs). Como foi o processo de criação desse evento, que você está à frente desde o nascimento, e como é para você organizá-lo novamente? O que mudou de lá pra cá, e o que podemos esperar para o futuro?

O Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta é a realização de um sonho que foi sonhado por muitas pessoas. O ano era 2009 e as clareiras druídicas eram muito fechadas e mesmo grupos localizados na mesma cidade, muitas vezes não se conheciam. Toda a comunicação era através das listas de e-mail e a gente sentia necessidade de um contato mais próximo. E foi assim que em 2010 a primeira edição aconteceu em Florianópolis com a organização do Caer Ynis.

De lá para cá muita coisa mudou: ano após ano os anfitriões se esforçam cada vez mais e o evento tem tomado uma proporção muito bacana, desentocando cada vez mais druidistas e aproximando as pessoas. As únicas coisas que não mudaram foram a amizade e o respeito, pois como costumamos dizer: devemos sempre perceber quão grandes são as semelhanças que nos aproximam e quão pequenas são as diferenças que nos separam.

O que conseguimos com o EBDRC é algo praticamente único no druidismo mundial: reunir em um evento membros das mais diversas vertentes do druidismo e da Espiritualidade celta e proporcionar a troca entre eles. Existem na Europa e nos EUA alguns grandes eventos que reúnem várias pessoas, mas geralmente eles são todos membros da mesma Ordem Druídica. Aqui a gente vai além e enxerga a fé celta como uma grande família.

Esse nosso esforço é inclusive reconhecido lá fora. Phillip Carr-Gomm, Chefe Eleito da OBOD, é um dos que já elogiaram nossa iniciativa e assim como ele, outros druidas franceses e mesmo portugueses já tem as nosso Encontro em vista.

Para 2015 estamos preparando várias novidades, mas ainda são surpresa.


2. Em 2010 você foi um dos idealizadores do que hoje é conhecido como Conselho Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta (CBDRC). Muitas pessoas ainda desconhecem o Conselho, suas atribuições atuais e planejadas, e seus projetos. Se puder, gostaria que falasse um pouco sobre o Conselho, como forma de divulgá-lo e esclarecer suas atribuições e funções principais. (:

O Conselho Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta (CBDRC) é outro sonho destes coletivos.

A ideia é termos uma entidade que represente o druidismo brasileiro e todas suas vertentes. É ser uma organização que possa brigar pela nossa comunidade, que possa nos defender e que possa nos unir ainda mais. O Conselho servirá também para fomentar novos eventos, a espelho do EBDRC, por todo o país, abrindo as portas para aqueles que procuram a fé dos antigos.

Inclusive no mês de setembro de 2014 abrimos o processo para que os grupos possam se filiar e ter assim voz ativa no Conselho, votando nos projetos e mesmo apresentando novas ideias. No site www.cbdrc.wordpress.com tem todas as informações sobre como se filiar.


3. Quais são, na sua opinião, as principais diferenças do chamado Mesodruidismo para outras formas de espiritualidade céltica?

O termo mesodruidismo deriva de um artigo de Isaac Bonewits, fundador da ADF, que falava do mesopaganismo como sendo os movimentos pagãos que renasceram a partir do século XVIII, os diferenciando assim dos paleopaganismos (os paganismos antigos originais) e os neopaganismos (os movimentos mais modernos).

Pessoalmente não compartilho deste termo porque acredito que o que praticamos é druídico, não mesodruídico e muito menos neodruídico. A Tradição Druídica de hoje é a mesma dos nossos antepassados, apenas evoluindo com o passar dos anos. As liturgias mudaram porque os tempos mudaram, mas apesar das diferenças na Forma, mantemos a mesma Essência.
Hoje tentar colocar no mesmo saco todas as ordens druídicas surgidas nos séculos XVIII e XIX é ser extremamente simplista, porque elas tem origens diversas, culturas diferentes e costumes variados. Há aquelas de cunho espiritual, outras tem um foco cultural e outras são mutualistas. É por isso que repudio esse tipo de distinção e procuro enxergar todos os grupos druídicos como árvores distintas de um mesmo bosque, da mesma forma como vocês estão fazendo com essas entrevistas.


4. Você menciona o culto aos Ancestrais como um dos poucos pontos unânimes entre as diversas espiritualidades célticas. Você pode falar um pouco mais sobre isso?

Se eu tivesse que resumir a fé celta em uma palavra, eu diria "ancestralidade".

Esse termo engloba além dos nossos antepassados, nossos deuses antigos e mesmo a natureza sagrada. E quando falo em antepassados não me refiro apenas à nossa família, nossos pais, avós, bisavós e bisavós das bisavós. Falo também daqueles que viveram nesta terra antes de nós, que plantaram, colheram e criaram suas famílias e ainda sobre aqueles que viveram a Tradição antes de nós: os druidas clássicos do passado e aqueles druidas mais próximos, nossos iniciadores e os iniciadores deles.

Hoje honramos nossos ancestrais, mas no futuro serão nossos descendentes que nos honrarão.


5. Gostaria de acrescentar algo mais?

Quero agradecer a iniciativa da Corrente RJ de mostrar várias formas de nossa Fé. Esse tipo de ação é importante para nos unirmos e sermos cada vez mais fortes. Devemos aprender com nossos erros: nossos antepassados eram desunidos e por isso sucumbiram ao Império Romano, mas nós devemos os vencer. Reflitam: quem são os "romanos" de hoje?

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

As Várias Árvores da Floresta I: Mayra Ní Brighid

Começa agora uma série de entrevistas, realizada pela Corrente RJ com praticantes dos diversos Paganismos Celtas. Resolvemos chamar essa série de As Várias Árvores da Floresta, relembrando que uma floresta é feita de várias árvores diferentes, ou seja, somos todos diferentes entre nós, mas fazemos parte de um mesmo organismo.

Começamos muito bem, com as bênçãos amazônicas de Mayra Ní Brighid, residente do Acre, que com muita simplicidade e perceptível sabedoria compartilha conosco um pouco da sua visão e da sua prática. Obrigada pela generosidade, Mayra! Que as Boas Gentes deixem presentes em seu caminho em nome da gente aqui do nosso Rio de Janeiro! :D

A entrevista é em duas partes: na primeira, Mayra respondeu a perguntas genéricas a respeito de suas práticas. Na segunda, fiz perguntas específicas para ela, baseada nas suas respostas da primeira parte. Foi lindo <3 espero que gostem tanto quanto eu!

Parte I (perguntas genéricas)

1. Identidade. Como você se intitula, como chama sua prática religiosa? Na sua opinião, o que distingue sua prática de outras dentro do Paganismo Celta?

Intitulo minha prática religiosa como “Druidismo”, apesar de saber que esse termo não seja o melhor para definir o que os celtas antigos praticavam, mas creio que seja o melhor termo para definir uma religião moderna que se inspira nesse antigo povo. E também por toda a história do movimento, renascimento druídico etc.

Acho que cada região brasileira apresenta características únicas, e essas características se refletem na prática do paganismo. Da mesma forma que cada pessoa tem suas características e essência, cada pessoa pratica e vivencia o paganismo de uma forma única. E isso não é ruim, pelo contrário.


2. Coletividade. Você pratica sozinho ou em grupo? Pertence a alguma tribo, ordem, coven, clã? Como se dá a entrada de novas pessoas no seu grupo? Há títulos ou hierarquia de algum tipo em seu grupo?

No momento pratico sozinha E em grupo (rs). Faço parte de um grupo, Clann an Samaúma, que nasceu em Belém/PA, minha cidade natal, e onde a maioria dos membros está. Estamos mantendo o grupo de estudos e nos reunindo por meio da internet, é um pouco difícil, mas entendo que faz parte do processo. Em breve, nos reuniremos presencialmente, se os deuses quiserem.

Por hora não estão entrando novos membros, pois estamos em fase de estruturação do grupo. Mas no futuro abriremos para novos membros, e ainda não sei ao certo como se dará esse processo, mas acho que passará por uma etapa de estudos iniciais, participação em encontros abertos, consulta a oráculos (para saber o que os deuses acham da pessoa no grupo), um período de “teste” como membro, etc.

Não há hierarquia definida no grupo, pois ainda somos poucos. Mas a ideia que vamos trabalhar será de tribo e suas várias funções, ou seja, haverá bardo, druida, guerreiro, músico, artesão, curador, devoto, “semente” e convidados.


3. Devoção. Você é pan-céltico ou exclusivo de alguma nação (irlandesa, escocesa, ibérica, galesa, etc)? Como você escolheu seu panteão? Há divindades específicas pelas quais você tenha devoção? Há algo que você possa acrescentar a respeito dessa devoção?

Tenho muita afinidade com a cultura gaélica (Irlanda e Escócia), e portanto cultuo mais os deuses desses locais. Mas estudo e reverencio também os deuses da cultura galesa, ibérica, gaulesa...

Os deuses que tenho mais afinidade e devoção são Brighid, Dagda, Lugh, Aengus, Danú/Anann, Manánnan e Cailleach.

Tenho afinidade com alguns deuses de outras culturas também, embora eu não dedique um culto a eles. Mas Shiva, por exemplo, tem um lugar especial no meu coração, e vez ou outra escuto ou canto o seu mantra. Estou ficando próxima de Pachamama também, devido à proximidade com a Bolívia e Peru (estou morando no Acre). E também a Jiboia e a Borboleta Encantadas, forças ancestrais dos povos indígenas do Acre, que nutro um carinho e respeito muito grande.
Não os cultuo em minha prática pagã celta, mas os reverencio e dedico um pouco de amor a eles em minha prática religiosa. Em meu coração vibra a espiritualidade celta, mas não posso ignorá-los quando esses outros deuses simplesmente cantam e dançam na natureza à minha volta.


4. Prática. Que elementos compõem sua prática? Há ritos? Orações? Oferendas? Roda do Ano Norte, Sul ou Mista? Datas destinadas a determinadas divindades? Há uso de altares, objetos mágicos ou simbólicos, ervas, flores, alimentos ou cristais?

Sigo pela Roda Norte, pois na região onde moro nosso inverno (época das chuvas) coincide com o inverno no norte, e o verão (época da seca ou pouca chuva) coincide com o verão de lá.
Além dos 8 festivais celebro também a lua cheia e a lua nova, e mantenho algumas práticas devocionais diárias, como orar ao acordar, ao ir dormir, ao almoçar, ao preparar uma comida, ao tomar banho, ao acender uma chama, enfim.

Ah sim, tenho altares (algumas pessoas preferem o termo “centros devocionais”, pra mim tanto faz rs, a essência é a mesma) em casa. No altar principal tenho representações dos Três Reinos e das Três Famílias, e é onde realizo os ritos.


5. Ancestrais e Espíritos da Terra. Na sua prática há algum culto a Ancestrais, sejam eles culturais, físicos ou locais? Há introdução de elementos negros ou indígenas? Há oferendas? Orações? Símbolos? Datas específicas?

Em toda a minha prática há o culto aos ancestrais. As religiões antigas, inclusive às célticas, são centradas nos ancestrais. Não há porque ser diferente hoje. Em todos os ritos eu os honro.
Não introduzo elementos negros ou indígenas brasileiros em meus rituais, por exemplo, não canto uma canção da Jiboia num rito de Samhain, mas tenho sim em meu altar símbolos da cultura indígena e brasileira, pois fazem parte de minha ancestralidade e os mantenho lá para me lembrar disso e fortalecer minha ligação e meu respeito com eles.
Precisamos conhecer mais a cultura tradicional dos povos daqui (Brasil), pois elas são tão ricas e maravilhosas quanto as célticas. Não deixo nunca de me encantar com a sabedoria dos indígenas e das comunidades tradicionais do Brasil... Há tanto para nos ensinar, há tanta beleza e sabedoria... Pena que só alguns percebam isso.


Quando sinto necessidade, celebro um rito que honre os ancestrais da terra e espíritos locais, mas no caso é um rito específico e não num “molde” ou liturgia druídica, entende? Difícil de explicar... Mas enfim, sou druidista, pagã celta, e também sou brasileira e amazônida, com muito amor e orgulho :) .


Parte II (perguntas específicas)

1. Você mencionou o uso de oráculos para verificar uma possível entrada em seu grupo. Quais meios oraculares você pratica? Todos no seu grupo o praticam?

Comecei estudando o Tarot e depois divinação pela água e fogo, mas não me aprofundei muito nesses últimos. Estudei Runas por um tempo também, mas depois parei, não bateu a afinidade. Há dois anos mais ou menos comecei a estudar o Ogham, e tenho gostado muito. Recentemente, iniciei um processo de estudo em um oráculo desenvolvido pela Caitlin Matthews, chamado “Celtic wisdow oracle”, baseado numa ideia de clãs e ancestralidade. E estou adorando! Tenho afinidade também com o oráculo baseado no voo dos pássaros, mas esse tem sido mais intuitivo e espontâneo para mim. Então, atualmente trabalho mais com esses três últimos oráculos que mencionei (ogham, “oráculo dos ancestrais” – da Caitlin – e o voo dos pássaros).

Nem todos no grupo usam oráculos, a maioria conhece um pouco sobre o Tarot e o Ogham, mas não no sentido prático e aprofundado.


2. Na sua prática você usa uma língua gaélica? Ou usa apenas o português?

Até que gostaria de usar mais o gaélico, mas não dá... Ô linguinha difícil de estudar... rsrs. No máximo falo três ou quatro expressões em gaélico durante um rito. Então, usamos mais o português mesmo. Mas entendo que isso não minimiza a força do ritual... ou a sinceridade da vivência espiritual. Os Ancestrais e os espíritos se comunicam pela linguagem do coração, e não da fala...


3. Há uma liturgia em particular que seu grupo usa? Vocês a desenvolveram ou basearam-se em alguma outra? Pode falar um pouco sobre isso?

Sim, elaborei uma liturgia baseada em algumas que conheci de grupos brasileiros e não brasileiros. Ainda estamos experimentando essa liturgia, então ela ainda não está fechada. Nem sei se um dia estará, pois acho importante a mudarmos ou adaptarmos de vez em quando ou sempre que sentirmos necessidade. A gente muda, o grupo muda, o ciclo muda, então a liturgia tem que mudar também.

Resumindo a liturgia que estamos seguindo, nossos ritos se baseiam nos seguintes passos:

Limpeza e organização do espaço; limpeza dos participantes e acolhida; concentração e meditação; conexão com os Três Mundos; chamado das Três Famílias; pedido de bençãos das sagradas direções (leste, sul, oeste, norte e centro); honra e pedido de bençãos à Erin, ao sagrado carvalho e à sagrada samaúma; chamado às divindades honradas na ocasião; passagem da tradição (varia de acordo com o rito ou festival); leitura de oráculos; agradecimentos; encerramento; confraternização (banquete, música, danças, conversas).


4. Na sua opinião, quais similaridades podem ser vistas entre as tribos celtas de outrora e as culturas tradicionais do Brasil? E algumas diferenças?

Ambas veem a Terra como sagrada, honram os ancestrais, celebram os ciclos da natureza e entendem que o universo todo está interligado.

Além disso, os indígenas brasileiros estão enfrentando o que os celtas antigos enfrentaram: a invasão de suas terras, a destruição de sua cultura e valores sagrados. Os indígenas brasileiros são guerreiros, resistentes e lutam pelas suas terras, sua comunidade, sua cultura e ideais. Assim como os celtas antigos lutaram em tempos idos...

As diferenças existem claro, vivem em mundos diferentes, caminham sobre outras terras, reverenciam outros deuses, contam outras histórias e mitos, se vestem de forma diferente, falam outras línguas...


5. Há algo que você gostaria de acrescentar?

Só agradecer por terem me convidado a participar desse projeto de entrevistas, e desejar a “Corrente RJ” sucesso, luz, alegria, honra e sabedoria em sua jornada! =)  

terça-feira, 16 de setembro de 2014

ESP®BR: Palestra "Comunicação com os Três Mundos - um olhar Reconstrucionista Irlandês" por Laise Ayres

Esta palestra, realizada dia 13/09/2014 no Templo de Apolo (Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, Rio de Janeiro/RJ), foi criada especialmente para o Encontro Social Pagão®, organizado pelo Projeto Gaia Paganus®. O objetivo era apresentar aos participantes do Encontro um olhar Reconstrucionista Irlandês sobre como se dá a comunicação com os Três Mundos ou Três Reinos Celtas - Céu, Terra e Mar -, e com os Deuses, Ancestrais e Boas Gentes que os compartilham conosco.

1. Sobre a autora

 Laise Ayres, elo da Corrente RJ, 15 anos de paganismo. Não gosta do termo 'druida', ou 'druidismo' para definir suas práticas, afinando-se mais com o título Reconstrucionista Irlandesa, ou simplesmente Pagã Irlandesa. Usa como base para suas práticas os mitos, registros literários, costumes folclóricos, e características arqueológicas e geográficas da Ilha Esmeralda, mas tem como espinha dorsal de sua vivência religiosa gnoses pessoais, meditações e insights. É há 6 anos integrante de um clã privado, sem nome, na cidade do Rio de Janeiro.


 2. O que é Reconstrucionismo Celta

 É um movimento politeísta, animista, religioso e cultural cujo objetivo é reconstruir - reconstituir - aspectos religiosos e culturais das tradições célticas pré-cristãs através de elementos sobreviventes nos registros históricos, literários, nas evidências arqueológicas e nas práticas folclóricas nos países que descendem daqueles povos, além de, é claro, da língua. Nesse contexto, a língua acaba sendo uma das fontes preciosas de insight a respeito da cultura e, consequentemente, do modo de ser, sentir e crer do povo celta. Na Irlanda, os elementos célticos sobrevivem principalmente através da língua, o Irlandês, do registro dos monges cristãos em diversos manuscritos, e através das práticas folclóricas tradicionais.

A ideia do Reconstrucionismo é de certo modo reconstruir como os diferentes paganismos celtas se pareceriam hoje em dia se não tivessem sido interrompidos pelo cristianismo - a exemplo do Hinduismo, que evoluiu e mudou, mas manteve sua essência. É um caminho de muita pesquisa e estudo, e muito debate entre praticantes, embora muitos pontos atualmente já tenham sido definidos coletivamente, e mais ou menos estabelecidos.

3. Os Três Mundos ou Três Reinos

O conceito de Três Mundos (ou Três Reinos) é muito marcante na cosmologia irlandesa. Esses Três Mundos são um esquema dentro do qual está tudo o que existe - Céu, Terra e Mar. O maior símbolo dos Três Mundos é o An Thríbhís Mhór, o Grande Triskel, as três espirais unidas por um ponto central.

Os Três Mundos aparecem em vários pontos na cultura irlandesa - a Invocação de Blathmac mac Cú Brettan diz “Neamh nglas, muir más, talamh cé.” - “Céu azul, belo Mar, Terra presente.” Também há um juramento irlandês que diz: “Que o céu caia e me esmague, que o mar se erga e me afogue, que a terra se abra e me engula se eu quebrar esse juramento.”

Ver o mundo como uma junção de Céu, Terra e Mar faz muito sentido se consideramos que a Irlanda é uma ilha. Então o céu sobre suas cabeças, a terra sob seus pés e o mar circundante como ligação com o resto do mundo (e com todos os outros) podem de fato ser veículo para o próprio modo como o irlandês vivenciava sua realidade.

Há muitas relações simbólicas vistas entre o Céu, a Terra e o Mar. Em nossos corpos, o Céu é o fôlego, a Terra os ossos, e o Mar, o sangue. Na árvore, os galhos tocam o Céu, as raízes ligam-na ao Mar sob a Terra, que depois preenche a árvore através dos veios como seiva, e o Tronco que surge sobre a Terra cria toda a conexão entre o que está em cima e embaixo. No tempo, o Mar é o passado, aquilo o que sempre foi, o Céu é o futuro, pressagiando o que está por vir e trazendo a mudança, e a Terra é o presente a ser desfrutado.

O equilíbrio, a harmonia, brotam da união desses Três Reinos, representado, no Triskel, pelo triângulo ou círculo no ponto em que unem-se as espirais.

É comum, na prática Reconstrucionista, manter-se um altar para cada Reino, ou áreas para os Três Reinos no altar (meu caso).

Eu tenho no altar três árvores que uso para representar os Três Reinos. Uma verdinha representando a Terra, uma dourada representando o Céu e uma roxa e preta representando o Mar.

4. O Mar, a Terra e o Céu

O Além-Mar é o Outro Mundo para a Irlanda (e para a cultura celta em geral). É cruzando o Mar que heróis irlandeses encontram Tir na nOg, a Terra da Juventude, o país das fadas, dos Antigos, dos Ancestrais. Há uma série de contos na literatura irlandesa chamada Immrama, viagens mágicas, em que o herói parte com seu barco em uma viagem de autodescobrimento, que não raro envolve criaturas fantásticas e encontros com Deuses.

Oisín, filho do herói Fionn Mac Cumhaill e célebre guerreiro e poeta dos Fianna, certa vez foi convidado pela filha do deus do mar Manannán, Níamh Chinn Óir, para ir com ela a Tir na nÓg, a Terra da Juventude. Após ficar lá com Níamh por três anos, Oisín resolveu retornar à Irlanda. O problema é que o tempo em Tir na nÓg passa diferente, e na verdade passaram-se 300 anos na Irlanda. Então Níamh avisou Oisín que, se ele tocasse com os pés o solo da Irlanda, ele sentiria os efeitos dos 300 anos e ficaria murcho e velho. Ele retornou à Irlanda mesmo assim, cavalgando Énbarr, o cavalo branco de Níamh que corre igualmente bem sobre a terra e sobre o mar.

Ao chegar à Irlanda, Oisín descobriu que muitas coisas mudaram nesses 300 anos. O antigo lar de seu pai encontrava-se em ruínas, e todos os que ele um dia conheceu estavam mortos há muito. Mas os próprios homens daquela terra estavam diferentes, menores, mais fracos e menos sábios, parecia, e ele compadeceu-se ao ver a dificuldade com que eles moviam pedras para criar uma estrada, o que o motivou a ajudá-los. Ao mover a pedra, que era pesada, a correia da sela de Énbarr não aguentou a pressão e partiu-se, fazendo com que Oisín desequilibrasse-se e caísse no chão, transformando-se em um velho imediatamente conforme previsto por Níamh. O cavalo retornou a Tír na nÓg, e Oisín, agora um ancião cuja vida aproximava-se do fim, permaneceu na Irlanda, e em algumas versões desse conto ele encontrou ninguém menos que São Patrício e com ele teve uma longa conversa antes de morrer.

O Mar nos transforma, nos revela, nos põe à prova. Nos faz entender quem somos e o que nos compõe.

É no local destinado ao Mar que normalmente coloco os objetos relacionados aos Ancestrais no meu altar: terra das casas onde morei, pequenos objetos simbólicos da minha ascendência e da minha história - o De Onde Eu Vim.

Existem três tipos de Ancestrais honrados no Reconstrucionismo - os culturais, os "carnais" e os locais. Por exemplo, meus antepassados incluem os Fianna - culturais, por adoção - meus avós, bisavós, etc - “carnais”, biológicos - e os brancos, negros e indígenas que viveram nesta terra antes de mim. Mantenho símbolos que os representem, fotografias e objetos pessoais de familiares já mortos, uma figa representando meu lado negro e umbandista, um muiraquitã representando a cultura indígena que habitou este solo antes de mim, Eu os honro, homenageio e realizo oferendas, além de rezar para eles.

Quando falamos em Céu, Terra e Mar assim arrumadinho, parece que há uma distinção toda organizadinha entre eles, mas a verdade é que eles se misturam bastante, pois há Mar dentro da Terra (lençóis d'água, fontes, poços), Terra sob o Mar (cavernas submarinas, fundo do mar), Terra tocando o Céu (montanhas), Céu tocando o Mar (linha do horizonte). Do mesmo modo, os Ancestrais, os Deuses e as Boas Gentes (também chamados de Sídhe, Povo das Fadas, Bom Povo ou Espíritos da Terra) misturam-se bastante.

Por exemplo, conta-se que os Deuses, as Tuatha Dé Danann, com a chegada dos Milesians, correu para as colinas, reduzindo e transformando-se nas Fadas, em Sídhe. Essas colinas mencionadas, são na verdade os cairns, tumbas neolíticas espalhadas por toda a ilha, construções feitas de pedra que se parecem bastante com colinas quando vistas de fora, mas que possuem entradas e câmaras internas. Esses cairns, construídos por um povo que viveu na Irlanda antes dos celtas, aparecem muito na mitologia, pois pontos geográficos são mencionados em todos os contos que falam dos Deuses: rios, planícies, montanhas, pedras - e cairns.

O cairn mais famoso é Newgrange, cujo nome irlandês é Brugh na Boinne, o Palácio do rio Boyne. Esse cairn figura no mito como lar da deusa Boann (que deu nome ao rio) e seu marido Elcmar - e, mais tarde, do filho de Boann com Dagda, o deus Aengus. Aengus, usando de um ardil linguístico (em que pede a Elcmar para que o Brugh pertença a ele dia e noite - ao que ele concede, entendendo, num equívoco compreensível dada a estrutura da língua irlandesa, que não possui artigo indefinido, que Aengus o queria por um dia e uma noite, quando na verdade Aengus queria dizer para sempre) toma para si o Palácio, tornando-se o novo senhor do Brugh. Mas há outros cairns famosos, considerados como "a última morada" dos Deuses, como o cairn de Morrighan em Keshcorran, e o de Medb em Knockarea.

Contudo, esses cairns, bem como dos dolmens (as portal tombs), são túmulos. Lá dentro eram depositadas as cinzas dos mortos após serem cremados, e lá os Ancestrais eram reverenciados. Em tempos mais recentes, bebês que morriam antes de serem batizados, que por esse motivo não podiam ser enterrados no cemitério cristão, eram depositados por seus pais nessas estruturas, por entendê-las como solo sagrado. Deuses, Sídhe e Ancestrais. Tudo em uma mesma estrutura. Representação física dos Três Mundos.

Para se relacionar com as Boas Gentes (que sempre chamamos assim porque, caso estejam nos ouvindo, é considerado bom augúrio que os consideremos bons), é comum que oferendas sejam feitas nessas construções (cairns, dolmens), de leite, manteiga, pão, mel ou cerveja, que são considerados itens difíceis para as Boas Gentes obterem normalmente na natureza.

Se o Mar e, principalmente, a Terra, são constantes, o Céu pode representar o inalcançável. Toda mudança parece vir do Céu - o sol, o vento, a chuva, a neve, a mudança do clima, o claro e o escuro, as aves migratórias, os augúrios. O Céu é inalcançável e incontrolável, pelo contrário, ele é que nos rege. As forças celestiais eram reverenciadas pelos celtas e pelo povo que veio antes na Irlanda, basta ver como muitos cairns são posicionados de forma que o sol adentra a câmara interna apenas numa data e numa hora específica - sendo o mais famoso nesse fenômeno Newgrange, cuja câmara interna permanece às escuras por todo o ano exceto no dia do solstício de inverno, quando o sol entra e ilumina o altar central sob o grande Triskel gravado na pedra.

Em um dos mais importantes (se não O mais importante) manuscrito irlandês, A Segunda Batalha de Moytura (Cath Magh Tuired), conta-se a seguinte passagem:

1. Os Tuatha De Danann estavam nas ilhas no norte do mundo, estudando conhecimentos ocultos e feitiçaria, artes druídicas e bruxaria e ofícios mágicos, até que eles sobrepujaram os sábios nas artes pagãs.
2. Eles estudaram o oculto e conhecimentos secretos e artes diabólicas em quatro cidades: Falia, Gorias, Murias e Findias.
3. De Falias foi trazida a pedra de Fal, que foi depositada em Tara. Ela costumava berrar sob cada rei destinado a conquistar a Irlanda.
4. De Gorias foi trazida a lança que Lug tinha. Nenhuma batalha jamais perdurou diante dela, ou do homem que a segurava em sua mão.
5. De Findias foi trazida a espada de Nuadu. Ninguém jamais escapou de seu golpe, tendo sido ela tirada de sua bainha mortífera, e ninguém pôde resistir a ela.

6. De Murias foi trazido o caldeirão do Dagda. Nenhuma companhia que foi até ele jamais o deixou insatisfeita.

Eu tenho como gnose pessoal pensar que os Deuses, antes de vir à Terra pelo Mar em suas célebres embarcações, quando estudavam conhecimentos ocultos e feitiçaria nas "ilhas no norte do mundo", estavam no domínio do Céu, no inalcançável, no místico. Então, no meu altar, no canto relacionado ao Céu, eu coloco representações dos Quatro Tesouros, pensando nas suas cidades de origem (Falias, Gorias, Murias e Findias) como os quatro pontos cardeais que mapeiam a Terra quando vista do Céu.

Quando as Tuatha Dé Danann vieram à Irlanda, foi como parte de uma série de invasões sofridas pela ilha, que incluem vários outros povos, como os Fir Bolg, os Milesians, a Companhia de Cessair, entre outros. Há um povo, no entanto, que sempre esteve lá, os Fomorians. Os Fomorians são descritos como gigantes, desfigurados, com poderes mágicos, violentos, rudes e belicosos. Descreve-se que eles vivem sob o Mar. Ao passo que os Deuses, das Tuatha, possuem atribuições eminentemente humanas (Goibhniu é Ferreiro, Dian Cecht é Médico, Oghma é associado à Eloquência, e Lugh tem todas as habilidades existentes no mundo e mais algumas). Quando as Tuatha vencem a batalha contra os Fomorians, o dom concedido pelos perdedores é ensinar aos vencedores o uso da Terra, a agricultura. Diante disso, pode-se pensar que esse processo de luta, dominação e compreensão do homem pela Terra é imensamente simbólica. A figura de Lugh Senhor de Todas as Habilidades, filho de pai Tuatha e mãe Fomorian, que é também quem vence a guerra ao matar seu avô Fomorian, pode ser vista como unificadora, pois no conto é a pessoa dele que faz Bres, o Fomorian, revelar os segredos da agricultura.

Lugh, embora não seja um Deus Sol, é ainda um Deus eminentemente Solar - no conto O Cortejo de Étain (Tochmarc Étaine), o povo pensa que o Sol está nascendo do Oeste, mas na verdade é Lugh que chega daquela direção e seu rosto brilha tanto quanto o Sol. Sua ligação com o Céu, para mim, é inegável. Ele é como o Céu que desce e domina Terra e Mar (lembrando que Manánnan, Deus do Mar, é pai adotivo de Lugh).

No Reconstrucionismo - bem como em todas as vertentes pagãs - não somos nós que escolhemos os Deuses, eles é que nos escolhem. Para o meu altar fiz, por gnose pessoal, intuição súbita e execução um tanto obsessiva, uma série de símbolos para os Deuses que me escolheram, usando itens que tivessem relação estreita com esses Deuses, fosse na forma, fosse no uso, fosse no material. Há, por exemplo, um rechaud em forma de panela de barro sobre uma lareira, para Bríd - e optei pelo uso do barro por haver nele a Terra umidificada pela água (Mar), que é moldada por mãos humanas (Arte, Inspiração, setores de Bríd) e depois é modificada pelo fogo (Céu). A panela representa o poço, pois ponho água e essência ali dentro, enquanto a lareira é um símbolo comum de Bríd em sua face protetora do lar e mantenedora da chama. Tenho também um candelabro dourado para Lugh, com ramos de trigo, uma lança e uma funda decorando - e lá acendo velas para esse Deus. Tenho um caldeirão cheio de grãos, e uma folha de carvalho em homenagem ao Dagda, uma pequena caixa de prata com um crânio de corvo, algumas pedras e algumas penas negras para Morrighan, uma ânfora de louça decorada com ervas curativas tendo dentro água da fonte dedicada a Airmid, uma pequena garrafinha feita de concha e cheia de água do mar entre outros objetos para Manánnan... entre outros. Uso esses símbolos para me sentir mais próxima dos Deuses de minha devoção.

Para nos sentirmos próximos dos nossos Deuses nós fazemos orações, canções, rituais, oferendas. As oferendas podem ser materiais (por exemplo mingau de aveia com cerveja preta para o Dagda) ou imateriais (horas de treinamento de violino dedicadas a Bríd, ou oferecer água a animais de rua em nome de Flidais). Há também pactos que podem ser firmados. Por exemplo, dediquei a Macha um geis (uma espécie de tabu, em que abstém-se de algo para conseguir alguma outra coisa, como Cu Chulainn possui o geis de não poder comer carne de cão, ou Cruinniuc recebeu de sua mulher Macha o geis de não contar a ninguém quem ela é ou do que ela é capaz. Por sinal, é claro que, nos dois casos, os geasa foram quebrados, trazendo grave prejuízo). Eu pedi a Macha para engravidar, e firmei com ela o geis de que eu não brigaria, com ninguém, em situação nenhuma, até conseguir meu intento. Ela, como padroeira da gravidez e do parto, concedeu meu desejo. Foi mais de um ano sem brigar, e foi bem difícil. Mas acho que me fez muito bem (o geis tem como uma de suas características trazer algum crescimento pessoal para quem compromete-se com ele).

Os Deuses, também, são vistos como Ancestrais. O Livro das Invasões (Lebor Gabala), conta da chegada dos Deuses à Irlanda como quem conta as histórias dos feitos de um antepassado distante. Na Irlanda, nós somos descendentes dos Deuses - como Cu Chulainn é filho de Lugh, como Diarmuit é afilhado de Aengus.

A unidade básica dos celtas é o clã, a família. Um coletivo de clãs é uma tribo. E é essa a relação que temos com nossos Deuses, com nossos Ancestrais, e também com as Boas Gentes. Nós chamamos pelos nossos Deuses da mesma forma que telefonamos pra nossas mães com um problema, e fazemos coisas por eles como quem dá um presente para um filho. É uma relação estreita, de colaboração, apoio, amor, convivência, conhecimento. Nós não invocamos nossos Deuses. Nós não os chantageamos. É uma relação familiar. Pois eles são, também, aqueles que vieram antes de nós, nossos Ancestrais. E eles são aqueles que dividem essa Terra conosco, como as Boas Gentes.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Imbolc e o puerpério

Se o inverno é gestação - um momento de interiorização, silêncio e escuridão para criar nova vida, novos projetos, novas ideias e de descanso e preparação para o plantio -, o Imbolc é o puerpério. 

Puerpério é o nome que se dá ao período logo após o parto, em que o bebê recém nascido começa a adaptar-se ao mundo aqui fora e a mãe, também recém nascida, aprende (muitas vezes a duras penas) sobre como exercer sua nova condição. É um período delicado, muito emocional, em que normalmente a nova mãe enfrenta noites mal dormidas ou sem dormir, tem poucas oportunidades para ir ao banheiro ou tomar banho, e raramente tem uma refeição não interrompida ou pulada. A plenitude silenciosa da gravidez dá lugar a um bebê que chora e que não sabemos ainda como acalentar. Amamentar no começo é difícil e até doloroso, pois nenhum dos envolvidos sabe ainda como fazer. É um período de perda de identidade, em que a mulher deixa de ser aquela que costumava ser, com suas individualidades, talentos, liberdades e tarefas, mas ainda não estabilizou sua nova eu - a mãe.

É uma grande mudança e, como todas as mudanças, exige esforço e assusta um pouco.

O bebê humano nasce antes de estar completamente pronto, e é muito defendida a visão de que é necessária uma exterogestação após o parto, em que a mãe e o bebê, ainda mergulhados na sombra, encontram-se um ao outro, e através desse encontro é que estabelecem as fundações do relacionamento que construirão juntos ao longo dos anos.

Não tem nada melhor nesse momento do que quando uma mulher experiente, que já foi mãe antes, vem na casa da puérpera. Pode ser a mãe ou a sogra, uma irmã mais velha ou uma amiga verdadeira. Ela passa um pano nos móveis, varre o chão, lava a louça, enfia roupa dentro da máquina e depois pendura para secar, faz comida para a semana e congela em porções individuais e fáceis de aquecer no forno. Ela segura no colo o bebê para que a mãe possa ir ao banheiro, tomar banho, comer, tirar um cochilo. Ela ajuda com a pega certa na amamentação, tranquiliza as inseguranças da mãe, reforça nela a fé de que ela é capaz e está fazendo tudo certo.

Quando iniciamos um novo projeto, precisamos dessa voz amiga. Quando o inverno parece perdurar para sempre é que precisamos acender uma chama e confiar que o verão virá pela frente, com todas as suas possibilidades. Vejo a deusa Bríd, neste momento do Imbolc, assumir esse papel.

Bríd é normalmente representada como tríplice, patrona das artes, poesia e inspiração, da cura, da família e do lar. Ela é associada ao fogo, seja da forja ou da lareira, e é representada com chamas saindo do topo da cabeça. Ela também é associada com parto e amamentação, pois é conhecido o hábito de se colocar uma crosog (Cruz de Brigid, ou de Santa Brígida), uma cruz característica feita de junco ou de trigo, na cabeceira da parturiente para ajudá-la a dar à luz e proteger a díade mãe-bebê. É uma deusa polivalente e considerada por alguns contraditória, pois apesar de toda a sua associação com fogo, há poços sagrados a Bríd por toda a Irlanda, e normalmente esses poços possuem tradição de suas águas serem curativas.

Bríd possui muitos nomes: Brigid, Brighid, Brigit, Briggidda, Brigantia, ou ainda Santa Brigida, uma figura religiosa poderosíssima na Irlanda, e a principal santa deste país. É uma deusa celebrada em muitos países europeus, O nome Brigit vem provavelmente do antigo Brigantī, "A Alta", "A Sublime", e em sua homenagem foram nomeados vários rios: Braint (Anglesey) e Brent (Middlesex), e também possivelmente Bregenz na Áustria e Brechin na Escócia. O manuscrito Glossário de Cormac oferece uma etimologia improvável para o nome da deusa: "Breo Saighead"--"flecha flamejante."

No Glossário de Cormac a deusa Bríd, uma dos Tuatha De Danann, é descrita como trigêmeas, filhas do Daghda, todas com o mesmo nome. Uma era a deusa da poesia, outra da forja, e uma terceira da cura. A poesia a relaciona naturalmente aos bardos, e à sabedoria. A forja e o ofício do ferreiro eram relacionados à magia, assim como a cura. No Livro das Invasões é dito que ela possuía dois bois poderosos chamados Fea e Men, e também Torc Triath o rei dos javalis, o que indica que ela poderia estar associada à fartura, ao sustento e à alimentação.

A data sagrada de Bríd é justamente o Imbolc, celebrado no hemisfério norte no começo de fevereiro, e aqui no começo de agosto. Há uma deusa chamada Cailleach, a megera do inverno, de cabelos brancos e pele azul, que traz o frio, a neve e a tempestade no inverno, e diz a lenda que nessa época do Imbolc ela derrete e transforma-se em Bríd, trazendo o calor da primavera porvir. É, mesmo, uma chama a se acender no meio do inverno.

No manuscrito da Segunda Batalha de Moytura conta-se que Bríd casa-se, a exemplo do pai de Lugh, com um filho dos inimigos Fomorianos, Bres o Belo. Ele deve tornar-se rei pois o rei anterior, Nuada, perdeu um braço e pela lei irlandesa não pode mais governar, mas é provável, como com outros reis irlandeses, que ele tenha precisado casar-se com ela para poder tornar-se rei, o que evidenciaria um aspecto de Bríd como Deusa da Soberania. Não por coincidência considera-se que a palavra galesa para rei, brenin, é derivada da forma hipotética brigantīnos, significando "consorte da deusa Briganti". Bres então casa-se com Bríd e torna-se rei dos Tuatha unindo as tribos rivais, mas não é um bom rei. Ele é por consequência deposto e corre para junto dos Fomorianos, sua tribo de origem, declarando guerra contra os Tuatha e é essa batalha que é travada na planície de Moytura e dá nome ao conto.

O  filho que Bríd tem com Bres chama-se Ruadan, um jovem guerreiro. Aproveitando-se de sua origem dupla, durante a batalha ele é enviado pelos Fomorianos para espionar a tribo materna, e para matar o ferreiro dos Tuatha, Goibhniu. Ele aproxima-se como aliado e pede uma lança a Goibhniu, que a entrega ao jovem. Nesse momento, Ruadan trai a família da mãe e fere Goibhniu mortalmente. Mas o ferreiro é muito forte e habilidoso, e usa a mesma lança para matar Ruadan com um só golpe. Ao ficar sabendo da morte de seu filho Bríd solta um lamento tão alto que é ouvido por toda a Irlanda e por esse lamento ela é especialmente lembrada, pois este episódio dá a ela atribuições de unificadora e de deusa da maternidade e da paz sob a visão de alguns.

O culto a Bríd na Irlanda era amplo e muito forte. Em Kildare conta-se que havia um templo em sua homenagem, onde 19 sacerdotisas alternavam-se dia após dia para manter permanentemente acesa uma chama. Diz a lenda que no vigésimo dia a própria deusa vinha olhar pelo fogo. Com a chegada do Cristianismo na ilha, o culto a Bríd era tão forte que não conseguiram erradicá-lo, então ela foi transformada em santa e adotada pelos cristãos irlandeses. No século VI foi erguido um monastério em Kildare no mesmo lugar do antigo templo, e as freiras do monastério mantiveram essa tradição de manter aceso um fogo para a Santa. No século XIII foi construída uma enorme catedral no lugar do monastério, e as freiras continuaram seu trabalho de manutenção do fogo até que no século XVI o Rei Henrique VIII fechou e destruiu muitos monastérios, igrejas e congregações católicas. No dia de Imbolc, em 1º de Fevereiro de 1807, Daniel Delany, Bispo de Kildare, restaurou a Irmandade de Santa Brígida, com o objetivo de retomar o legado e o espírito da santa. Em 1993, a chama perpétua foi finalmente reacendida por Mary Teresa Cullen, que era a líder na época das Irmãs de Santa Brígida.

Hoje é possível visitar em Kildare a praça central onde há uma imagem da santa, a imensa e imponente catedral, e também a fundação do antigo monastério, onde os fiéis concentram suas oferendas à santa-deusa, de velas, objetos pessoais, fotos, fitas e crosoga. Mais afastado do centro da cidadezinha é possível visitar também um dos poços dedicados a ela, um recanto muito bonito em meio a trigais, onde há um poço sob uma árvore e também um pequeno riacho e uma pequena capela, tudo sob o olhar de uma Santa Brígida de pedra em tamanho real. Caminhando por esses lugares é fácil sentir que, como deusa e como santa (pois as duas se misturam), o culto a Bríd é muito profundo e move muitas pessoas.

O Imbolc, data sagrada de Bríd, é o meio do inverno e é também o primeiro toque de primavera deste inverno, a primeira chama que se acende, quando nos climas temperados, onde o inverno é branco e intenso, os primeiros ramos verdes começam a insinuar-se na terra congelada. Aqui no nosso tropical RJ não é isso o que acontece, pois nosso inverno é suave e, na maior parte do tempo, bastante quente. O frio, quando vem, é revigorante e um bom momento para comer um fondue e assistir filmes enrolados num edredom. Mas há no ar uma energia, uma sensação de recolhimento maior. Essa é sempre uma época para mim de pausar, refletir, reagrupar, bolar estratégias. Nessa época, entre o Solstício de Inverno e o Imbolc calha de ser sempre quando eu revejo conceitos, modifico rumos, ou simplesmente paro e penso. Tradicionalmente essa é mesmo a época da faxina da primavera, de jogar fora tudo aquilo o que não serve mais, para estarmos prontos para a chegada de tempos mais quentes, e essa faxina é física e também espiritual, imaterial. É um momento de transição, como Cailleach virando Bríd.

Oimelc, usado por alguns pagãos como nome deste festival, significa "leite de ovelha" (pois este é o tempo em que as ovelhas parem seus filhotes e portanto seu leite torna-se disponível em abundância), reforçando a relação com a maternidade. Leite é um símbolo comum do Imbolc, sendo comumente bebido nesta data, e também ofertado à terra. Leite é um grande símbolo de nutrição, proteção, continuidade e reafirmação da vida, e imortalidade. A mulher que amamenta sustenta seu filho com apenas seu corpo, e por isso antigas culturas mostraram reverência a este ato (o contrário do que é feito em nossa sociedade hoje em dia, em que muitas vezes mães amamentando são constrangidas em locais públicos ou são razão de piada em programas de humor duvidoso na TV).

Nos momentos mais tempestuosos do puerpério, em que meu bebê chorava e eu chorava junto, e em que tudo o que mais queríamos e precisávamos era muito leitinho, tranquilidade, revigoramento e cura, foi por Bríd que chamei incessantemente, agarrada à minha crosóg pingente, pedindo que ela pusesse suas mãos sobre mim, sobre minha filha e sobre a minha casa, e permitisse que essa novíssima relação fosse abençoada e, a exemplo da primavera vindoura, crescesse com viço e força para um dia dar bons frutos. E tive meu pedido atendido, pois a primavera sempre chega.


E é por essa mão que abençoa e acalenta que podemos chamar a qualquer momento, para abençoar nossos novos projetos, novas empreitadas, e novos eus. Isso porque tradicionalmente o Imbolc é sim relacionado a um momento de limpeza, de preparação para o que está por vir, mas é também um momento de acender uma chama e ter fé.