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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Prece a Bríd pela humanidade

Por Laise Ayres, livremente inspirada na Prece de Cáritas.

Sagrada Bríd, senhora da forja luminosa e do poço escuro,
Mãe querida.
Acende sua chama nos lares, nas mentes e nos corações de todos nós.
Que na sua luz aqueles que passam pela provação encontrem forças,
Que a verdade seja mostrada para aqueles que a buscam,
Que sua inspiração guie aqueles que criam.
Encha de razão as mentes confusas,
E de sabedoria as perdidas.
Que seu colo console aqueles que sofrem,
Dê paz aos que estão em conflito,
E suas mãos calorosas toquem aqueles que sentem dor,
Que por todo lugar sua voz amorosa possa se ouvir.
E que todos os órfãos encontrem um lar,
Todas as crianças encontrem proteção,
Todas as mães tenham seus filhos em segurança,
E tenham como alimentá-los.
Que os viajantes encontrem repouso,
Os doentes a cura,
E os sofredores, esperança.
Que sua bonevolência e proteção estendam-se sobre todos os lares,
E que todos encontrem calor e luminosidade para atravessar a noite escura.
Traga a primavera para todas as nossas vidas, fazendo crescer e frutificar nossas sementes,
Nos auxilie em nossos projetos,
Proteja nossos familiares,
E permita que,
À medida em que trazemos sua calorosa chama para nossas vidas
Nos tornemos faróis na escuridão.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

ESP®BR: Palestra "Comunicação com os Três Mundos - um olhar Reconstrucionista Irlandês" por Laise Ayres

Esta palestra, realizada dia 13/09/2014 no Templo de Apolo (Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, Rio de Janeiro/RJ), foi criada especialmente para o Encontro Social Pagão®, organizado pelo Projeto Gaia Paganus®. O objetivo era apresentar aos participantes do Encontro um olhar Reconstrucionista Irlandês sobre como se dá a comunicação com os Três Mundos ou Três Reinos Celtas - Céu, Terra e Mar -, e com os Deuses, Ancestrais e Boas Gentes que os compartilham conosco.

1. Sobre a autora

 Laise Ayres, elo da Corrente RJ, 15 anos de paganismo. Não gosta do termo 'druida', ou 'druidismo' para definir suas práticas, afinando-se mais com o título Reconstrucionista Irlandesa, ou simplesmente Pagã Irlandesa. Usa como base para suas práticas os mitos, registros literários, costumes folclóricos, e características arqueológicas e geográficas da Ilha Esmeralda, mas tem como espinha dorsal de sua vivência religiosa gnoses pessoais, meditações e insights. É há 6 anos integrante de um clã privado, sem nome, na cidade do Rio de Janeiro.


 2. O que é Reconstrucionismo Celta

 É um movimento politeísta, animista, religioso e cultural cujo objetivo é reconstruir - reconstituir - aspectos religiosos e culturais das tradições célticas pré-cristãs através de elementos sobreviventes nos registros históricos, literários, nas evidências arqueológicas e nas práticas folclóricas nos países que descendem daqueles povos, além de, é claro, da língua. Nesse contexto, a língua acaba sendo uma das fontes preciosas de insight a respeito da cultura e, consequentemente, do modo de ser, sentir e crer do povo celta. Na Irlanda, os elementos célticos sobrevivem principalmente através da língua, o Irlandês, do registro dos monges cristãos em diversos manuscritos, e através das práticas folclóricas tradicionais.

A ideia do Reconstrucionismo é de certo modo reconstruir como os diferentes paganismos celtas se pareceriam hoje em dia se não tivessem sido interrompidos pelo cristianismo - a exemplo do Hinduismo, que evoluiu e mudou, mas manteve sua essência. É um caminho de muita pesquisa e estudo, e muito debate entre praticantes, embora muitos pontos atualmente já tenham sido definidos coletivamente, e mais ou menos estabelecidos.

3. Os Três Mundos ou Três Reinos

O conceito de Três Mundos (ou Três Reinos) é muito marcante na cosmologia irlandesa. Esses Três Mundos são um esquema dentro do qual está tudo o que existe - Céu, Terra e Mar. O maior símbolo dos Três Mundos é o An Thríbhís Mhór, o Grande Triskel, as três espirais unidas por um ponto central.

Os Três Mundos aparecem em vários pontos na cultura irlandesa - a Invocação de Blathmac mac Cú Brettan diz “Neamh nglas, muir más, talamh cé.” - “Céu azul, belo Mar, Terra presente.” Também há um juramento irlandês que diz: “Que o céu caia e me esmague, que o mar se erga e me afogue, que a terra se abra e me engula se eu quebrar esse juramento.”

Ver o mundo como uma junção de Céu, Terra e Mar faz muito sentido se consideramos que a Irlanda é uma ilha. Então o céu sobre suas cabeças, a terra sob seus pés e o mar circundante como ligação com o resto do mundo (e com todos os outros) podem de fato ser veículo para o próprio modo como o irlandês vivenciava sua realidade.

Há muitas relações simbólicas vistas entre o Céu, a Terra e o Mar. Em nossos corpos, o Céu é o fôlego, a Terra os ossos, e o Mar, o sangue. Na árvore, os galhos tocam o Céu, as raízes ligam-na ao Mar sob a Terra, que depois preenche a árvore através dos veios como seiva, e o Tronco que surge sobre a Terra cria toda a conexão entre o que está em cima e embaixo. No tempo, o Mar é o passado, aquilo o que sempre foi, o Céu é o futuro, pressagiando o que está por vir e trazendo a mudança, e a Terra é o presente a ser desfrutado.

O equilíbrio, a harmonia, brotam da união desses Três Reinos, representado, no Triskel, pelo triângulo ou círculo no ponto em que unem-se as espirais.

É comum, na prática Reconstrucionista, manter-se um altar para cada Reino, ou áreas para os Três Reinos no altar (meu caso).

Eu tenho no altar três árvores que uso para representar os Três Reinos. Uma verdinha representando a Terra, uma dourada representando o Céu e uma roxa e preta representando o Mar.

4. O Mar, a Terra e o Céu

O Além-Mar é o Outro Mundo para a Irlanda (e para a cultura celta em geral). É cruzando o Mar que heróis irlandeses encontram Tir na nOg, a Terra da Juventude, o país das fadas, dos Antigos, dos Ancestrais. Há uma série de contos na literatura irlandesa chamada Immrama, viagens mágicas, em que o herói parte com seu barco em uma viagem de autodescobrimento, que não raro envolve criaturas fantásticas e encontros com Deuses.

Oisín, filho do herói Fionn Mac Cumhaill e célebre guerreiro e poeta dos Fianna, certa vez foi convidado pela filha do deus do mar Manannán, Níamh Chinn Óir, para ir com ela a Tir na nÓg, a Terra da Juventude. Após ficar lá com Níamh por três anos, Oisín resolveu retornar à Irlanda. O problema é que o tempo em Tir na nÓg passa diferente, e na verdade passaram-se 300 anos na Irlanda. Então Níamh avisou Oisín que, se ele tocasse com os pés o solo da Irlanda, ele sentiria os efeitos dos 300 anos e ficaria murcho e velho. Ele retornou à Irlanda mesmo assim, cavalgando Énbarr, o cavalo branco de Níamh que corre igualmente bem sobre a terra e sobre o mar.

Ao chegar à Irlanda, Oisín descobriu que muitas coisas mudaram nesses 300 anos. O antigo lar de seu pai encontrava-se em ruínas, e todos os que ele um dia conheceu estavam mortos há muito. Mas os próprios homens daquela terra estavam diferentes, menores, mais fracos e menos sábios, parecia, e ele compadeceu-se ao ver a dificuldade com que eles moviam pedras para criar uma estrada, o que o motivou a ajudá-los. Ao mover a pedra, que era pesada, a correia da sela de Énbarr não aguentou a pressão e partiu-se, fazendo com que Oisín desequilibrasse-se e caísse no chão, transformando-se em um velho imediatamente conforme previsto por Níamh. O cavalo retornou a Tír na nÓg, e Oisín, agora um ancião cuja vida aproximava-se do fim, permaneceu na Irlanda, e em algumas versões desse conto ele encontrou ninguém menos que São Patrício e com ele teve uma longa conversa antes de morrer.

O Mar nos transforma, nos revela, nos põe à prova. Nos faz entender quem somos e o que nos compõe.

É no local destinado ao Mar que normalmente coloco os objetos relacionados aos Ancestrais no meu altar: terra das casas onde morei, pequenos objetos simbólicos da minha ascendência e da minha história - o De Onde Eu Vim.

Existem três tipos de Ancestrais honrados no Reconstrucionismo - os culturais, os "carnais" e os locais. Por exemplo, meus antepassados incluem os Fianna - culturais, por adoção - meus avós, bisavós, etc - “carnais”, biológicos - e os brancos, negros e indígenas que viveram nesta terra antes de mim. Mantenho símbolos que os representem, fotografias e objetos pessoais de familiares já mortos, uma figa representando meu lado negro e umbandista, um muiraquitã representando a cultura indígena que habitou este solo antes de mim, Eu os honro, homenageio e realizo oferendas, além de rezar para eles.

Quando falamos em Céu, Terra e Mar assim arrumadinho, parece que há uma distinção toda organizadinha entre eles, mas a verdade é que eles se misturam bastante, pois há Mar dentro da Terra (lençóis d'água, fontes, poços), Terra sob o Mar (cavernas submarinas, fundo do mar), Terra tocando o Céu (montanhas), Céu tocando o Mar (linha do horizonte). Do mesmo modo, os Ancestrais, os Deuses e as Boas Gentes (também chamados de Sídhe, Povo das Fadas, Bom Povo ou Espíritos da Terra) misturam-se bastante.

Por exemplo, conta-se que os Deuses, as Tuatha Dé Danann, com a chegada dos Milesians, correu para as colinas, reduzindo e transformando-se nas Fadas, em Sídhe. Essas colinas mencionadas, são na verdade os cairns, tumbas neolíticas espalhadas por toda a ilha, construções feitas de pedra que se parecem bastante com colinas quando vistas de fora, mas que possuem entradas e câmaras internas. Esses cairns, construídos por um povo que viveu na Irlanda antes dos celtas, aparecem muito na mitologia, pois pontos geográficos são mencionados em todos os contos que falam dos Deuses: rios, planícies, montanhas, pedras - e cairns.

O cairn mais famoso é Newgrange, cujo nome irlandês é Brugh na Boinne, o Palácio do rio Boyne. Esse cairn figura no mito como lar da deusa Boann (que deu nome ao rio) e seu marido Elcmar - e, mais tarde, do filho de Boann com Dagda, o deus Aengus. Aengus, usando de um ardil linguístico (em que pede a Elcmar para que o Brugh pertença a ele dia e noite - ao que ele concede, entendendo, num equívoco compreensível dada a estrutura da língua irlandesa, que não possui artigo indefinido, que Aengus o queria por um dia e uma noite, quando na verdade Aengus queria dizer para sempre) toma para si o Palácio, tornando-se o novo senhor do Brugh. Mas há outros cairns famosos, considerados como "a última morada" dos Deuses, como o cairn de Morrighan em Keshcorran, e o de Medb em Knockarea.

Contudo, esses cairns, bem como dos dolmens (as portal tombs), são túmulos. Lá dentro eram depositadas as cinzas dos mortos após serem cremados, e lá os Ancestrais eram reverenciados. Em tempos mais recentes, bebês que morriam antes de serem batizados, que por esse motivo não podiam ser enterrados no cemitério cristão, eram depositados por seus pais nessas estruturas, por entendê-las como solo sagrado. Deuses, Sídhe e Ancestrais. Tudo em uma mesma estrutura. Representação física dos Três Mundos.

Para se relacionar com as Boas Gentes (que sempre chamamos assim porque, caso estejam nos ouvindo, é considerado bom augúrio que os consideremos bons), é comum que oferendas sejam feitas nessas construções (cairns, dolmens), de leite, manteiga, pão, mel ou cerveja, que são considerados itens difíceis para as Boas Gentes obterem normalmente na natureza.

Se o Mar e, principalmente, a Terra, são constantes, o Céu pode representar o inalcançável. Toda mudança parece vir do Céu - o sol, o vento, a chuva, a neve, a mudança do clima, o claro e o escuro, as aves migratórias, os augúrios. O Céu é inalcançável e incontrolável, pelo contrário, ele é que nos rege. As forças celestiais eram reverenciadas pelos celtas e pelo povo que veio antes na Irlanda, basta ver como muitos cairns são posicionados de forma que o sol adentra a câmara interna apenas numa data e numa hora específica - sendo o mais famoso nesse fenômeno Newgrange, cuja câmara interna permanece às escuras por todo o ano exceto no dia do solstício de inverno, quando o sol entra e ilumina o altar central sob o grande Triskel gravado na pedra.

Em um dos mais importantes (se não O mais importante) manuscrito irlandês, A Segunda Batalha de Moytura (Cath Magh Tuired), conta-se a seguinte passagem:

1. Os Tuatha De Danann estavam nas ilhas no norte do mundo, estudando conhecimentos ocultos e feitiçaria, artes druídicas e bruxaria e ofícios mágicos, até que eles sobrepujaram os sábios nas artes pagãs.
2. Eles estudaram o oculto e conhecimentos secretos e artes diabólicas em quatro cidades: Falia, Gorias, Murias e Findias.
3. De Falias foi trazida a pedra de Fal, que foi depositada em Tara. Ela costumava berrar sob cada rei destinado a conquistar a Irlanda.
4. De Gorias foi trazida a lança que Lug tinha. Nenhuma batalha jamais perdurou diante dela, ou do homem que a segurava em sua mão.
5. De Findias foi trazida a espada de Nuadu. Ninguém jamais escapou de seu golpe, tendo sido ela tirada de sua bainha mortífera, e ninguém pôde resistir a ela.

6. De Murias foi trazido o caldeirão do Dagda. Nenhuma companhia que foi até ele jamais o deixou insatisfeita.

Eu tenho como gnose pessoal pensar que os Deuses, antes de vir à Terra pelo Mar em suas célebres embarcações, quando estudavam conhecimentos ocultos e feitiçaria nas "ilhas no norte do mundo", estavam no domínio do Céu, no inalcançável, no místico. Então, no meu altar, no canto relacionado ao Céu, eu coloco representações dos Quatro Tesouros, pensando nas suas cidades de origem (Falias, Gorias, Murias e Findias) como os quatro pontos cardeais que mapeiam a Terra quando vista do Céu.

Quando as Tuatha Dé Danann vieram à Irlanda, foi como parte de uma série de invasões sofridas pela ilha, que incluem vários outros povos, como os Fir Bolg, os Milesians, a Companhia de Cessair, entre outros. Há um povo, no entanto, que sempre esteve lá, os Fomorians. Os Fomorians são descritos como gigantes, desfigurados, com poderes mágicos, violentos, rudes e belicosos. Descreve-se que eles vivem sob o Mar. Ao passo que os Deuses, das Tuatha, possuem atribuições eminentemente humanas (Goibhniu é Ferreiro, Dian Cecht é Médico, Oghma é associado à Eloquência, e Lugh tem todas as habilidades existentes no mundo e mais algumas). Quando as Tuatha vencem a batalha contra os Fomorians, o dom concedido pelos perdedores é ensinar aos vencedores o uso da Terra, a agricultura. Diante disso, pode-se pensar que esse processo de luta, dominação e compreensão do homem pela Terra é imensamente simbólica. A figura de Lugh Senhor de Todas as Habilidades, filho de pai Tuatha e mãe Fomorian, que é também quem vence a guerra ao matar seu avô Fomorian, pode ser vista como unificadora, pois no conto é a pessoa dele que faz Bres, o Fomorian, revelar os segredos da agricultura.

Lugh, embora não seja um Deus Sol, é ainda um Deus eminentemente Solar - no conto O Cortejo de Étain (Tochmarc Étaine), o povo pensa que o Sol está nascendo do Oeste, mas na verdade é Lugh que chega daquela direção e seu rosto brilha tanto quanto o Sol. Sua ligação com o Céu, para mim, é inegável. Ele é como o Céu que desce e domina Terra e Mar (lembrando que Manánnan, Deus do Mar, é pai adotivo de Lugh).

No Reconstrucionismo - bem como em todas as vertentes pagãs - não somos nós que escolhemos os Deuses, eles é que nos escolhem. Para o meu altar fiz, por gnose pessoal, intuição súbita e execução um tanto obsessiva, uma série de símbolos para os Deuses que me escolheram, usando itens que tivessem relação estreita com esses Deuses, fosse na forma, fosse no uso, fosse no material. Há, por exemplo, um rechaud em forma de panela de barro sobre uma lareira, para Bríd - e optei pelo uso do barro por haver nele a Terra umidificada pela água (Mar), que é moldada por mãos humanas (Arte, Inspiração, setores de Bríd) e depois é modificada pelo fogo (Céu). A panela representa o poço, pois ponho água e essência ali dentro, enquanto a lareira é um símbolo comum de Bríd em sua face protetora do lar e mantenedora da chama. Tenho também um candelabro dourado para Lugh, com ramos de trigo, uma lança e uma funda decorando - e lá acendo velas para esse Deus. Tenho um caldeirão cheio de grãos, e uma folha de carvalho em homenagem ao Dagda, uma pequena caixa de prata com um crânio de corvo, algumas pedras e algumas penas negras para Morrighan, uma ânfora de louça decorada com ervas curativas tendo dentro água da fonte dedicada a Airmid, uma pequena garrafinha feita de concha e cheia de água do mar entre outros objetos para Manánnan... entre outros. Uso esses símbolos para me sentir mais próxima dos Deuses de minha devoção.

Para nos sentirmos próximos dos nossos Deuses nós fazemos orações, canções, rituais, oferendas. As oferendas podem ser materiais (por exemplo mingau de aveia com cerveja preta para o Dagda) ou imateriais (horas de treinamento de violino dedicadas a Bríd, ou oferecer água a animais de rua em nome de Flidais). Há também pactos que podem ser firmados. Por exemplo, dediquei a Macha um geis (uma espécie de tabu, em que abstém-se de algo para conseguir alguma outra coisa, como Cu Chulainn possui o geis de não poder comer carne de cão, ou Cruinniuc recebeu de sua mulher Macha o geis de não contar a ninguém quem ela é ou do que ela é capaz. Por sinal, é claro que, nos dois casos, os geasa foram quebrados, trazendo grave prejuízo). Eu pedi a Macha para engravidar, e firmei com ela o geis de que eu não brigaria, com ninguém, em situação nenhuma, até conseguir meu intento. Ela, como padroeira da gravidez e do parto, concedeu meu desejo. Foi mais de um ano sem brigar, e foi bem difícil. Mas acho que me fez muito bem (o geis tem como uma de suas características trazer algum crescimento pessoal para quem compromete-se com ele).

Os Deuses, também, são vistos como Ancestrais. O Livro das Invasões (Lebor Gabala), conta da chegada dos Deuses à Irlanda como quem conta as histórias dos feitos de um antepassado distante. Na Irlanda, nós somos descendentes dos Deuses - como Cu Chulainn é filho de Lugh, como Diarmuit é afilhado de Aengus.

A unidade básica dos celtas é o clã, a família. Um coletivo de clãs é uma tribo. E é essa a relação que temos com nossos Deuses, com nossos Ancestrais, e também com as Boas Gentes. Nós chamamos pelos nossos Deuses da mesma forma que telefonamos pra nossas mães com um problema, e fazemos coisas por eles como quem dá um presente para um filho. É uma relação estreita, de colaboração, apoio, amor, convivência, conhecimento. Nós não invocamos nossos Deuses. Nós não os chantageamos. É uma relação familiar. Pois eles são, também, aqueles que vieram antes de nós, nossos Ancestrais. E eles são aqueles que dividem essa Terra conosco, como as Boas Gentes.

domingo, 3 de agosto de 2014

Receita de perna de ovelha para Imbolc

Olá a todos os leitores do corrente, no vídeo abaixo, mostro como fazer uma receita simples de perna de ovelha para oferta ou ceia de Imbolc. Na minha casa, usamos apenas como oferta, mas cada um tem a liberdade de escolher como será usada a receita e para que propósito servirá. Espero que gostem, um grande abraço a todos e viva a grande Deusa da chama sagrada!


Morrighan Schleier der Samhain Brigante

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Imbolc e o puerpério

Se o inverno é gestação - um momento de interiorização, silêncio e escuridão para criar nova vida, novos projetos, novas ideias e de descanso e preparação para o plantio -, o Imbolc é o puerpério. 

Puerpério é o nome que se dá ao período logo após o parto, em que o bebê recém nascido começa a adaptar-se ao mundo aqui fora e a mãe, também recém nascida, aprende (muitas vezes a duras penas) sobre como exercer sua nova condição. É um período delicado, muito emocional, em que normalmente a nova mãe enfrenta noites mal dormidas ou sem dormir, tem poucas oportunidades para ir ao banheiro ou tomar banho, e raramente tem uma refeição não interrompida ou pulada. A plenitude silenciosa da gravidez dá lugar a um bebê que chora e que não sabemos ainda como acalentar. Amamentar no começo é difícil e até doloroso, pois nenhum dos envolvidos sabe ainda como fazer. É um período de perda de identidade, em que a mulher deixa de ser aquela que costumava ser, com suas individualidades, talentos, liberdades e tarefas, mas ainda não estabilizou sua nova eu - a mãe.

É uma grande mudança e, como todas as mudanças, exige esforço e assusta um pouco.

O bebê humano nasce antes de estar completamente pronto, e é muito defendida a visão de que é necessária uma exterogestação após o parto, em que a mãe e o bebê, ainda mergulhados na sombra, encontram-se um ao outro, e através desse encontro é que estabelecem as fundações do relacionamento que construirão juntos ao longo dos anos.

Não tem nada melhor nesse momento do que quando uma mulher experiente, que já foi mãe antes, vem na casa da puérpera. Pode ser a mãe ou a sogra, uma irmã mais velha ou uma amiga verdadeira. Ela passa um pano nos móveis, varre o chão, lava a louça, enfia roupa dentro da máquina e depois pendura para secar, faz comida para a semana e congela em porções individuais e fáceis de aquecer no forno. Ela segura no colo o bebê para que a mãe possa ir ao banheiro, tomar banho, comer, tirar um cochilo. Ela ajuda com a pega certa na amamentação, tranquiliza as inseguranças da mãe, reforça nela a fé de que ela é capaz e está fazendo tudo certo.

Quando iniciamos um novo projeto, precisamos dessa voz amiga. Quando o inverno parece perdurar para sempre é que precisamos acender uma chama e confiar que o verão virá pela frente, com todas as suas possibilidades. Vejo a deusa Bríd, neste momento do Imbolc, assumir esse papel.

Bríd é normalmente representada como tríplice, patrona das artes, poesia e inspiração, da cura, da família e do lar. Ela é associada ao fogo, seja da forja ou da lareira, e é representada com chamas saindo do topo da cabeça. Ela também é associada com parto e amamentação, pois é conhecido o hábito de se colocar uma crosog (Cruz de Brigid, ou de Santa Brígida), uma cruz característica feita de junco ou de trigo, na cabeceira da parturiente para ajudá-la a dar à luz e proteger a díade mãe-bebê. É uma deusa polivalente e considerada por alguns contraditória, pois apesar de toda a sua associação com fogo, há poços sagrados a Bríd por toda a Irlanda, e normalmente esses poços possuem tradição de suas águas serem curativas.

Bríd possui muitos nomes: Brigid, Brighid, Brigit, Briggidda, Brigantia, ou ainda Santa Brigida, uma figura religiosa poderosíssima na Irlanda, e a principal santa deste país. É uma deusa celebrada em muitos países europeus, O nome Brigit vem provavelmente do antigo Brigantī, "A Alta", "A Sublime", e em sua homenagem foram nomeados vários rios: Braint (Anglesey) e Brent (Middlesex), e também possivelmente Bregenz na Áustria e Brechin na Escócia. O manuscrito Glossário de Cormac oferece uma etimologia improvável para o nome da deusa: "Breo Saighead"--"flecha flamejante."

No Glossário de Cormac a deusa Bríd, uma dos Tuatha De Danann, é descrita como trigêmeas, filhas do Daghda, todas com o mesmo nome. Uma era a deusa da poesia, outra da forja, e uma terceira da cura. A poesia a relaciona naturalmente aos bardos, e à sabedoria. A forja e o ofício do ferreiro eram relacionados à magia, assim como a cura. No Livro das Invasões é dito que ela possuía dois bois poderosos chamados Fea e Men, e também Torc Triath o rei dos javalis, o que indica que ela poderia estar associada à fartura, ao sustento e à alimentação.

A data sagrada de Bríd é justamente o Imbolc, celebrado no hemisfério norte no começo de fevereiro, e aqui no começo de agosto. Há uma deusa chamada Cailleach, a megera do inverno, de cabelos brancos e pele azul, que traz o frio, a neve e a tempestade no inverno, e diz a lenda que nessa época do Imbolc ela derrete e transforma-se em Bríd, trazendo o calor da primavera porvir. É, mesmo, uma chama a se acender no meio do inverno.

No manuscrito da Segunda Batalha de Moytura conta-se que Bríd casa-se, a exemplo do pai de Lugh, com um filho dos inimigos Fomorianos, Bres o Belo. Ele deve tornar-se rei pois o rei anterior, Nuada, perdeu um braço e pela lei irlandesa não pode mais governar, mas é provável, como com outros reis irlandeses, que ele tenha precisado casar-se com ela para poder tornar-se rei, o que evidenciaria um aspecto de Bríd como Deusa da Soberania. Não por coincidência considera-se que a palavra galesa para rei, brenin, é derivada da forma hipotética brigantīnos, significando "consorte da deusa Briganti". Bres então casa-se com Bríd e torna-se rei dos Tuatha unindo as tribos rivais, mas não é um bom rei. Ele é por consequência deposto e corre para junto dos Fomorianos, sua tribo de origem, declarando guerra contra os Tuatha e é essa batalha que é travada na planície de Moytura e dá nome ao conto.

O  filho que Bríd tem com Bres chama-se Ruadan, um jovem guerreiro. Aproveitando-se de sua origem dupla, durante a batalha ele é enviado pelos Fomorianos para espionar a tribo materna, e para matar o ferreiro dos Tuatha, Goibhniu. Ele aproxima-se como aliado e pede uma lança a Goibhniu, que a entrega ao jovem. Nesse momento, Ruadan trai a família da mãe e fere Goibhniu mortalmente. Mas o ferreiro é muito forte e habilidoso, e usa a mesma lança para matar Ruadan com um só golpe. Ao ficar sabendo da morte de seu filho Bríd solta um lamento tão alto que é ouvido por toda a Irlanda e por esse lamento ela é especialmente lembrada, pois este episódio dá a ela atribuições de unificadora e de deusa da maternidade e da paz sob a visão de alguns.

O culto a Bríd na Irlanda era amplo e muito forte. Em Kildare conta-se que havia um templo em sua homenagem, onde 19 sacerdotisas alternavam-se dia após dia para manter permanentemente acesa uma chama. Diz a lenda que no vigésimo dia a própria deusa vinha olhar pelo fogo. Com a chegada do Cristianismo na ilha, o culto a Bríd era tão forte que não conseguiram erradicá-lo, então ela foi transformada em santa e adotada pelos cristãos irlandeses. No século VI foi erguido um monastério em Kildare no mesmo lugar do antigo templo, e as freiras do monastério mantiveram essa tradição de manter aceso um fogo para a Santa. No século XIII foi construída uma enorme catedral no lugar do monastério, e as freiras continuaram seu trabalho de manutenção do fogo até que no século XVI o Rei Henrique VIII fechou e destruiu muitos monastérios, igrejas e congregações católicas. No dia de Imbolc, em 1º de Fevereiro de 1807, Daniel Delany, Bispo de Kildare, restaurou a Irmandade de Santa Brígida, com o objetivo de retomar o legado e o espírito da santa. Em 1993, a chama perpétua foi finalmente reacendida por Mary Teresa Cullen, que era a líder na época das Irmãs de Santa Brígida.

Hoje é possível visitar em Kildare a praça central onde há uma imagem da santa, a imensa e imponente catedral, e também a fundação do antigo monastério, onde os fiéis concentram suas oferendas à santa-deusa, de velas, objetos pessoais, fotos, fitas e crosoga. Mais afastado do centro da cidadezinha é possível visitar também um dos poços dedicados a ela, um recanto muito bonito em meio a trigais, onde há um poço sob uma árvore e também um pequeno riacho e uma pequena capela, tudo sob o olhar de uma Santa Brígida de pedra em tamanho real. Caminhando por esses lugares é fácil sentir que, como deusa e como santa (pois as duas se misturam), o culto a Bríd é muito profundo e move muitas pessoas.

O Imbolc, data sagrada de Bríd, é o meio do inverno e é também o primeiro toque de primavera deste inverno, a primeira chama que se acende, quando nos climas temperados, onde o inverno é branco e intenso, os primeiros ramos verdes começam a insinuar-se na terra congelada. Aqui no nosso tropical RJ não é isso o que acontece, pois nosso inverno é suave e, na maior parte do tempo, bastante quente. O frio, quando vem, é revigorante e um bom momento para comer um fondue e assistir filmes enrolados num edredom. Mas há no ar uma energia, uma sensação de recolhimento maior. Essa é sempre uma época para mim de pausar, refletir, reagrupar, bolar estratégias. Nessa época, entre o Solstício de Inverno e o Imbolc calha de ser sempre quando eu revejo conceitos, modifico rumos, ou simplesmente paro e penso. Tradicionalmente essa é mesmo a época da faxina da primavera, de jogar fora tudo aquilo o que não serve mais, para estarmos prontos para a chegada de tempos mais quentes, e essa faxina é física e também espiritual, imaterial. É um momento de transição, como Cailleach virando Bríd.

Oimelc, usado por alguns pagãos como nome deste festival, significa "leite de ovelha" (pois este é o tempo em que as ovelhas parem seus filhotes e portanto seu leite torna-se disponível em abundância), reforçando a relação com a maternidade. Leite é um símbolo comum do Imbolc, sendo comumente bebido nesta data, e também ofertado à terra. Leite é um grande símbolo de nutrição, proteção, continuidade e reafirmação da vida, e imortalidade. A mulher que amamenta sustenta seu filho com apenas seu corpo, e por isso antigas culturas mostraram reverência a este ato (o contrário do que é feito em nossa sociedade hoje em dia, em que muitas vezes mães amamentando são constrangidas em locais públicos ou são razão de piada em programas de humor duvidoso na TV).

Nos momentos mais tempestuosos do puerpério, em que meu bebê chorava e eu chorava junto, e em que tudo o que mais queríamos e precisávamos era muito leitinho, tranquilidade, revigoramento e cura, foi por Bríd que chamei incessantemente, agarrada à minha crosóg pingente, pedindo que ela pusesse suas mãos sobre mim, sobre minha filha e sobre a minha casa, e permitisse que essa novíssima relação fosse abençoada e, a exemplo da primavera vindoura, crescesse com viço e força para um dia dar bons frutos. E tive meu pedido atendido, pois a primavera sempre chega.


E é por essa mão que abençoa e acalenta que podemos chamar a qualquer momento, para abençoar nossos novos projetos, novas empreitadas, e novos eus. Isso porque tradicionalmente o Imbolc é sim relacionado a um momento de limpeza, de preparação para o que está por vir, mas é também um momento de acender uma chama e ter fé.