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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Um Rito de Apresentação - Uma nova geração para dar continuidade às Tradições


Semana passada, junto ao evento do ESP®, vivemos a oportunidade e encontrar com os Antigos para a Apresentação de mais um elo da nova geração Celta Brasileira. Como mãe, mulher, celta, me senti feliz e honrada em poder mostrar o fruto de minha própria Divindade.


Isadora tem o espírito antigo, demonstra no olhar que vê através do corpo, que sente a Natureza a sua volta.

Ela nasceu de uma estória de guerra, onde a mãe teve de travar batalhas para somente fazer aquilo que lhe fosse mais saudável, e portanto mais natural. Ela veio com respeito, com dignidade e como mandava sua própria Natureza. Isadora desafiou padrões da sociedade "moderna". Desde a barriga deu lições de perseverança, paciência e força. E como não respeitar tamanho Poder?

E quando finalmente decidiu que viria, ainda travou suas próprias batalhas. Lutou bravamente e venceu cada uma delas. No auge de seus 4 meses e meio, já mostrou seu sangue fianna, sua alma guerreira.

Ela tem o gênio dos Deuses de Danú.

O rito foi especial. Feito sobre a mata em espaço sagrado. Em uma antiga ruína de igreja, que o tempo preservou com o manto da Natureza nativa, aos testemunhos de animais silvestres e árvores gloriosas, sob o sol poente.

Cercada por pessoas, pagãs e não pagãs, mas que em comunhão emanavam suas energias e canalizavam sem reservas suas bênçãos à pequena Isad'Ouro.

Que delícia poder perceber o Manto que divide este e o Outro Mundo ficando cada vez mais tênue. Percebendo o Vento beijando nossas faces, o suspiro dos Antigos em nossas cabeças.

A cada palavra dita durante o rito, lágrimas rolavam de alegria entre os presentes, o arrepio das vibrações foram sentidas por todos sem exceção.

À Isad'Ouro, foram dadas qualidades por seus padrinhos e por todos que ali estavam. Desde Persistência, Coragem e Resiliência, ali foram entregues Saúde, Amor, Honra e outras que não consegui discernir.


Minha guerreira foi consagrada a Lugh. Teve o chamado de sua Divindade interior acordado para que nunca se esquecesse de onde vinha e do que será capaz. E foi abençoada por Manánann que sempre a guiará em seus caminhos e escolhas. Por sinal, foi a Manánnan que sua mãe soube da alegria dos antigos quando ainda grávida, pois dEle recebeu um presente que encontra-se em seu quarto e é um símbolo de sua Alegria.


Ela foi chamada de Alanis. E agora é Isadora Alanis, vulgo Isa - a Bela e Isad'Ouro para os íntimos.

Minha filha recebeu as honras da Tribo, está apresentada e abençoada pelos Deuses.

E eu? Eu só consigo ficar embevecida por tamanha honra, por tamanha felicidade. E agradecida por fazer parte desta comunidade.



Entôo a canção de Amergin para ela toda noite.
Ela sempre sorri, como um reconhecimento antigo.

Os elos presentes: Ninna Pinheiro (eu), Laise Ayres, Luciana Cavalcanti e Rodrigo Morocho.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

ESP®BR: Palestra "Comunicação com os Três Mundos - um olhar Reconstrucionista Irlandês" por Laise Ayres

Esta palestra, realizada dia 13/09/2014 no Templo de Apolo (Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, Rio de Janeiro/RJ), foi criada especialmente para o Encontro Social Pagão®, organizado pelo Projeto Gaia Paganus®. O objetivo era apresentar aos participantes do Encontro um olhar Reconstrucionista Irlandês sobre como se dá a comunicação com os Três Mundos ou Três Reinos Celtas - Céu, Terra e Mar -, e com os Deuses, Ancestrais e Boas Gentes que os compartilham conosco.

1. Sobre a autora

 Laise Ayres, elo da Corrente RJ, 15 anos de paganismo. Não gosta do termo 'druida', ou 'druidismo' para definir suas práticas, afinando-se mais com o título Reconstrucionista Irlandesa, ou simplesmente Pagã Irlandesa. Usa como base para suas práticas os mitos, registros literários, costumes folclóricos, e características arqueológicas e geográficas da Ilha Esmeralda, mas tem como espinha dorsal de sua vivência religiosa gnoses pessoais, meditações e insights. É há 6 anos integrante de um clã privado, sem nome, na cidade do Rio de Janeiro.


 2. O que é Reconstrucionismo Celta

 É um movimento politeísta, animista, religioso e cultural cujo objetivo é reconstruir - reconstituir - aspectos religiosos e culturais das tradições célticas pré-cristãs através de elementos sobreviventes nos registros históricos, literários, nas evidências arqueológicas e nas práticas folclóricas nos países que descendem daqueles povos, além de, é claro, da língua. Nesse contexto, a língua acaba sendo uma das fontes preciosas de insight a respeito da cultura e, consequentemente, do modo de ser, sentir e crer do povo celta. Na Irlanda, os elementos célticos sobrevivem principalmente através da língua, o Irlandês, do registro dos monges cristãos em diversos manuscritos, e através das práticas folclóricas tradicionais.

A ideia do Reconstrucionismo é de certo modo reconstruir como os diferentes paganismos celtas se pareceriam hoje em dia se não tivessem sido interrompidos pelo cristianismo - a exemplo do Hinduismo, que evoluiu e mudou, mas manteve sua essência. É um caminho de muita pesquisa e estudo, e muito debate entre praticantes, embora muitos pontos atualmente já tenham sido definidos coletivamente, e mais ou menos estabelecidos.

3. Os Três Mundos ou Três Reinos

O conceito de Três Mundos (ou Três Reinos) é muito marcante na cosmologia irlandesa. Esses Três Mundos são um esquema dentro do qual está tudo o que existe - Céu, Terra e Mar. O maior símbolo dos Três Mundos é o An Thríbhís Mhór, o Grande Triskel, as três espirais unidas por um ponto central.

Os Três Mundos aparecem em vários pontos na cultura irlandesa - a Invocação de Blathmac mac Cú Brettan diz “Neamh nglas, muir más, talamh cé.” - “Céu azul, belo Mar, Terra presente.” Também há um juramento irlandês que diz: “Que o céu caia e me esmague, que o mar se erga e me afogue, que a terra se abra e me engula se eu quebrar esse juramento.”

Ver o mundo como uma junção de Céu, Terra e Mar faz muito sentido se consideramos que a Irlanda é uma ilha. Então o céu sobre suas cabeças, a terra sob seus pés e o mar circundante como ligação com o resto do mundo (e com todos os outros) podem de fato ser veículo para o próprio modo como o irlandês vivenciava sua realidade.

Há muitas relações simbólicas vistas entre o Céu, a Terra e o Mar. Em nossos corpos, o Céu é o fôlego, a Terra os ossos, e o Mar, o sangue. Na árvore, os galhos tocam o Céu, as raízes ligam-na ao Mar sob a Terra, que depois preenche a árvore através dos veios como seiva, e o Tronco que surge sobre a Terra cria toda a conexão entre o que está em cima e embaixo. No tempo, o Mar é o passado, aquilo o que sempre foi, o Céu é o futuro, pressagiando o que está por vir e trazendo a mudança, e a Terra é o presente a ser desfrutado.

O equilíbrio, a harmonia, brotam da união desses Três Reinos, representado, no Triskel, pelo triângulo ou círculo no ponto em que unem-se as espirais.

É comum, na prática Reconstrucionista, manter-se um altar para cada Reino, ou áreas para os Três Reinos no altar (meu caso).

Eu tenho no altar três árvores que uso para representar os Três Reinos. Uma verdinha representando a Terra, uma dourada representando o Céu e uma roxa e preta representando o Mar.

4. O Mar, a Terra e o Céu

O Além-Mar é o Outro Mundo para a Irlanda (e para a cultura celta em geral). É cruzando o Mar que heróis irlandeses encontram Tir na nOg, a Terra da Juventude, o país das fadas, dos Antigos, dos Ancestrais. Há uma série de contos na literatura irlandesa chamada Immrama, viagens mágicas, em que o herói parte com seu barco em uma viagem de autodescobrimento, que não raro envolve criaturas fantásticas e encontros com Deuses.

Oisín, filho do herói Fionn Mac Cumhaill e célebre guerreiro e poeta dos Fianna, certa vez foi convidado pela filha do deus do mar Manannán, Níamh Chinn Óir, para ir com ela a Tir na nÓg, a Terra da Juventude. Após ficar lá com Níamh por três anos, Oisín resolveu retornar à Irlanda. O problema é que o tempo em Tir na nÓg passa diferente, e na verdade passaram-se 300 anos na Irlanda. Então Níamh avisou Oisín que, se ele tocasse com os pés o solo da Irlanda, ele sentiria os efeitos dos 300 anos e ficaria murcho e velho. Ele retornou à Irlanda mesmo assim, cavalgando Énbarr, o cavalo branco de Níamh que corre igualmente bem sobre a terra e sobre o mar.

Ao chegar à Irlanda, Oisín descobriu que muitas coisas mudaram nesses 300 anos. O antigo lar de seu pai encontrava-se em ruínas, e todos os que ele um dia conheceu estavam mortos há muito. Mas os próprios homens daquela terra estavam diferentes, menores, mais fracos e menos sábios, parecia, e ele compadeceu-se ao ver a dificuldade com que eles moviam pedras para criar uma estrada, o que o motivou a ajudá-los. Ao mover a pedra, que era pesada, a correia da sela de Énbarr não aguentou a pressão e partiu-se, fazendo com que Oisín desequilibrasse-se e caísse no chão, transformando-se em um velho imediatamente conforme previsto por Níamh. O cavalo retornou a Tír na nÓg, e Oisín, agora um ancião cuja vida aproximava-se do fim, permaneceu na Irlanda, e em algumas versões desse conto ele encontrou ninguém menos que São Patrício e com ele teve uma longa conversa antes de morrer.

O Mar nos transforma, nos revela, nos põe à prova. Nos faz entender quem somos e o que nos compõe.

É no local destinado ao Mar que normalmente coloco os objetos relacionados aos Ancestrais no meu altar: terra das casas onde morei, pequenos objetos simbólicos da minha ascendência e da minha história - o De Onde Eu Vim.

Existem três tipos de Ancestrais honrados no Reconstrucionismo - os culturais, os "carnais" e os locais. Por exemplo, meus antepassados incluem os Fianna - culturais, por adoção - meus avós, bisavós, etc - “carnais”, biológicos - e os brancos, negros e indígenas que viveram nesta terra antes de mim. Mantenho símbolos que os representem, fotografias e objetos pessoais de familiares já mortos, uma figa representando meu lado negro e umbandista, um muiraquitã representando a cultura indígena que habitou este solo antes de mim, Eu os honro, homenageio e realizo oferendas, além de rezar para eles.

Quando falamos em Céu, Terra e Mar assim arrumadinho, parece que há uma distinção toda organizadinha entre eles, mas a verdade é que eles se misturam bastante, pois há Mar dentro da Terra (lençóis d'água, fontes, poços), Terra sob o Mar (cavernas submarinas, fundo do mar), Terra tocando o Céu (montanhas), Céu tocando o Mar (linha do horizonte). Do mesmo modo, os Ancestrais, os Deuses e as Boas Gentes (também chamados de Sídhe, Povo das Fadas, Bom Povo ou Espíritos da Terra) misturam-se bastante.

Por exemplo, conta-se que os Deuses, as Tuatha Dé Danann, com a chegada dos Milesians, correu para as colinas, reduzindo e transformando-se nas Fadas, em Sídhe. Essas colinas mencionadas, são na verdade os cairns, tumbas neolíticas espalhadas por toda a ilha, construções feitas de pedra que se parecem bastante com colinas quando vistas de fora, mas que possuem entradas e câmaras internas. Esses cairns, construídos por um povo que viveu na Irlanda antes dos celtas, aparecem muito na mitologia, pois pontos geográficos são mencionados em todos os contos que falam dos Deuses: rios, planícies, montanhas, pedras - e cairns.

O cairn mais famoso é Newgrange, cujo nome irlandês é Brugh na Boinne, o Palácio do rio Boyne. Esse cairn figura no mito como lar da deusa Boann (que deu nome ao rio) e seu marido Elcmar - e, mais tarde, do filho de Boann com Dagda, o deus Aengus. Aengus, usando de um ardil linguístico (em que pede a Elcmar para que o Brugh pertença a ele dia e noite - ao que ele concede, entendendo, num equívoco compreensível dada a estrutura da língua irlandesa, que não possui artigo indefinido, que Aengus o queria por um dia e uma noite, quando na verdade Aengus queria dizer para sempre) toma para si o Palácio, tornando-se o novo senhor do Brugh. Mas há outros cairns famosos, considerados como "a última morada" dos Deuses, como o cairn de Morrighan em Keshcorran, e o de Medb em Knockarea.

Contudo, esses cairns, bem como dos dolmens (as portal tombs), são túmulos. Lá dentro eram depositadas as cinzas dos mortos após serem cremados, e lá os Ancestrais eram reverenciados. Em tempos mais recentes, bebês que morriam antes de serem batizados, que por esse motivo não podiam ser enterrados no cemitério cristão, eram depositados por seus pais nessas estruturas, por entendê-las como solo sagrado. Deuses, Sídhe e Ancestrais. Tudo em uma mesma estrutura. Representação física dos Três Mundos.

Para se relacionar com as Boas Gentes (que sempre chamamos assim porque, caso estejam nos ouvindo, é considerado bom augúrio que os consideremos bons), é comum que oferendas sejam feitas nessas construções (cairns, dolmens), de leite, manteiga, pão, mel ou cerveja, que são considerados itens difíceis para as Boas Gentes obterem normalmente na natureza.

Se o Mar e, principalmente, a Terra, são constantes, o Céu pode representar o inalcançável. Toda mudança parece vir do Céu - o sol, o vento, a chuva, a neve, a mudança do clima, o claro e o escuro, as aves migratórias, os augúrios. O Céu é inalcançável e incontrolável, pelo contrário, ele é que nos rege. As forças celestiais eram reverenciadas pelos celtas e pelo povo que veio antes na Irlanda, basta ver como muitos cairns são posicionados de forma que o sol adentra a câmara interna apenas numa data e numa hora específica - sendo o mais famoso nesse fenômeno Newgrange, cuja câmara interna permanece às escuras por todo o ano exceto no dia do solstício de inverno, quando o sol entra e ilumina o altar central sob o grande Triskel gravado na pedra.

Em um dos mais importantes (se não O mais importante) manuscrito irlandês, A Segunda Batalha de Moytura (Cath Magh Tuired), conta-se a seguinte passagem:

1. Os Tuatha De Danann estavam nas ilhas no norte do mundo, estudando conhecimentos ocultos e feitiçaria, artes druídicas e bruxaria e ofícios mágicos, até que eles sobrepujaram os sábios nas artes pagãs.
2. Eles estudaram o oculto e conhecimentos secretos e artes diabólicas em quatro cidades: Falia, Gorias, Murias e Findias.
3. De Falias foi trazida a pedra de Fal, que foi depositada em Tara. Ela costumava berrar sob cada rei destinado a conquistar a Irlanda.
4. De Gorias foi trazida a lança que Lug tinha. Nenhuma batalha jamais perdurou diante dela, ou do homem que a segurava em sua mão.
5. De Findias foi trazida a espada de Nuadu. Ninguém jamais escapou de seu golpe, tendo sido ela tirada de sua bainha mortífera, e ninguém pôde resistir a ela.

6. De Murias foi trazido o caldeirão do Dagda. Nenhuma companhia que foi até ele jamais o deixou insatisfeita.

Eu tenho como gnose pessoal pensar que os Deuses, antes de vir à Terra pelo Mar em suas célebres embarcações, quando estudavam conhecimentos ocultos e feitiçaria nas "ilhas no norte do mundo", estavam no domínio do Céu, no inalcançável, no místico. Então, no meu altar, no canto relacionado ao Céu, eu coloco representações dos Quatro Tesouros, pensando nas suas cidades de origem (Falias, Gorias, Murias e Findias) como os quatro pontos cardeais que mapeiam a Terra quando vista do Céu.

Quando as Tuatha Dé Danann vieram à Irlanda, foi como parte de uma série de invasões sofridas pela ilha, que incluem vários outros povos, como os Fir Bolg, os Milesians, a Companhia de Cessair, entre outros. Há um povo, no entanto, que sempre esteve lá, os Fomorians. Os Fomorians são descritos como gigantes, desfigurados, com poderes mágicos, violentos, rudes e belicosos. Descreve-se que eles vivem sob o Mar. Ao passo que os Deuses, das Tuatha, possuem atribuições eminentemente humanas (Goibhniu é Ferreiro, Dian Cecht é Médico, Oghma é associado à Eloquência, e Lugh tem todas as habilidades existentes no mundo e mais algumas). Quando as Tuatha vencem a batalha contra os Fomorians, o dom concedido pelos perdedores é ensinar aos vencedores o uso da Terra, a agricultura. Diante disso, pode-se pensar que esse processo de luta, dominação e compreensão do homem pela Terra é imensamente simbólica. A figura de Lugh Senhor de Todas as Habilidades, filho de pai Tuatha e mãe Fomorian, que é também quem vence a guerra ao matar seu avô Fomorian, pode ser vista como unificadora, pois no conto é a pessoa dele que faz Bres, o Fomorian, revelar os segredos da agricultura.

Lugh, embora não seja um Deus Sol, é ainda um Deus eminentemente Solar - no conto O Cortejo de Étain (Tochmarc Étaine), o povo pensa que o Sol está nascendo do Oeste, mas na verdade é Lugh que chega daquela direção e seu rosto brilha tanto quanto o Sol. Sua ligação com o Céu, para mim, é inegável. Ele é como o Céu que desce e domina Terra e Mar (lembrando que Manánnan, Deus do Mar, é pai adotivo de Lugh).

No Reconstrucionismo - bem como em todas as vertentes pagãs - não somos nós que escolhemos os Deuses, eles é que nos escolhem. Para o meu altar fiz, por gnose pessoal, intuição súbita e execução um tanto obsessiva, uma série de símbolos para os Deuses que me escolheram, usando itens que tivessem relação estreita com esses Deuses, fosse na forma, fosse no uso, fosse no material. Há, por exemplo, um rechaud em forma de panela de barro sobre uma lareira, para Bríd - e optei pelo uso do barro por haver nele a Terra umidificada pela água (Mar), que é moldada por mãos humanas (Arte, Inspiração, setores de Bríd) e depois é modificada pelo fogo (Céu). A panela representa o poço, pois ponho água e essência ali dentro, enquanto a lareira é um símbolo comum de Bríd em sua face protetora do lar e mantenedora da chama. Tenho também um candelabro dourado para Lugh, com ramos de trigo, uma lança e uma funda decorando - e lá acendo velas para esse Deus. Tenho um caldeirão cheio de grãos, e uma folha de carvalho em homenagem ao Dagda, uma pequena caixa de prata com um crânio de corvo, algumas pedras e algumas penas negras para Morrighan, uma ânfora de louça decorada com ervas curativas tendo dentro água da fonte dedicada a Airmid, uma pequena garrafinha feita de concha e cheia de água do mar entre outros objetos para Manánnan... entre outros. Uso esses símbolos para me sentir mais próxima dos Deuses de minha devoção.

Para nos sentirmos próximos dos nossos Deuses nós fazemos orações, canções, rituais, oferendas. As oferendas podem ser materiais (por exemplo mingau de aveia com cerveja preta para o Dagda) ou imateriais (horas de treinamento de violino dedicadas a Bríd, ou oferecer água a animais de rua em nome de Flidais). Há também pactos que podem ser firmados. Por exemplo, dediquei a Macha um geis (uma espécie de tabu, em que abstém-se de algo para conseguir alguma outra coisa, como Cu Chulainn possui o geis de não poder comer carne de cão, ou Cruinniuc recebeu de sua mulher Macha o geis de não contar a ninguém quem ela é ou do que ela é capaz. Por sinal, é claro que, nos dois casos, os geasa foram quebrados, trazendo grave prejuízo). Eu pedi a Macha para engravidar, e firmei com ela o geis de que eu não brigaria, com ninguém, em situação nenhuma, até conseguir meu intento. Ela, como padroeira da gravidez e do parto, concedeu meu desejo. Foi mais de um ano sem brigar, e foi bem difícil. Mas acho que me fez muito bem (o geis tem como uma de suas características trazer algum crescimento pessoal para quem compromete-se com ele).

Os Deuses, também, são vistos como Ancestrais. O Livro das Invasões (Lebor Gabala), conta da chegada dos Deuses à Irlanda como quem conta as histórias dos feitos de um antepassado distante. Na Irlanda, nós somos descendentes dos Deuses - como Cu Chulainn é filho de Lugh, como Diarmuit é afilhado de Aengus.

A unidade básica dos celtas é o clã, a família. Um coletivo de clãs é uma tribo. E é essa a relação que temos com nossos Deuses, com nossos Ancestrais, e também com as Boas Gentes. Nós chamamos pelos nossos Deuses da mesma forma que telefonamos pra nossas mães com um problema, e fazemos coisas por eles como quem dá um presente para um filho. É uma relação estreita, de colaboração, apoio, amor, convivência, conhecimento. Nós não invocamos nossos Deuses. Nós não os chantageamos. É uma relação familiar. Pois eles são, também, aqueles que vieram antes de nós, nossos Ancestrais. E eles são aqueles que dividem essa Terra conosco, como as Boas Gentes.

domingo, 6 de julho de 2014

Lughnasadh e suas consequências

(Por Laise Ayres)

tailtiuAproxima-se o Lughnasadh, que inaugura a época das colheitas. A colheita é um momento auspicioso, mas também muito ambíguo, pois o que se colhe depende inevitavelmente do que se plantou.
Quando falamos em colheita, nos vem à mente aquelas paisagens bucólicas do campo, as frutas maduras no pé, mulheres de lenços nos cabelos e cestas nas mãos recolhendo o fruto do seu trabalho. Mesmo aqueles que viveram a vida toda num apartamento e jamais viram esse quadro pessoalmente acabam associando a colheita à noção de fartura, uma cornucópia cheia de frutas, uma mesa cheia de comida. Mas há, é claro, o outro lado da colheita: quando houve uma praga, ou quando houve uma enchente, ou uma seca, ou um acidente, e perde-se todo o fruto de um trabalho.
Atualmente, com fertilizantes, pesticidas, maquinário e sistemas industriais de plantio, é mais raro que se perca uma colheita inteira por um acidente desses, mas no passado isso era comum. Para os nossos Ancestrais, a terra era uma mãe, às vezes generosa, mas às vezes dura também, e precisava ser muito bem cuidada para dar os frutos desejados. Para uma boa colheita, era necessária uma grande dedicação.
Essa época, do Lughnasadh, era portanto a hora da verdade. O momento em que descobriríamos se o nosso trabalho foi suficiente, se nosso plantio foi adequado, se nosso zelo foi o bastante. Às vezes era, e o resultado era uma mesa farta, barrigas cheias, o futuro da tribo assegurado. Às vezes não era, e essa era a maior tragédia possível.
A hora da verdade, do “vamos ver”, das consequências e dos resultados, é isso o que Lughnasadh representa.
E isso aplica-se à nossa vida moderna de muitas formas. Percebo que essa época, de meados de janeiro a meados de fevereiro, é sempre um momento quase que de acerto de contas. Muitos projetos meus culminam nessa época, de forma aparentemente coincidental, e geralmente é nessa época que anuncia-se o tom que o ano inteiro terá. É um momento de consequências, reviravoltas e transformações aparentemente súbitas, mas que sempre refletem atitudes e decisões tomadas meses atrás.
Um dos itens marcantes dessa época do ano, aqui no Brasil, são as chuvas. Chuvas intensas, constantes, devastadoras. Nessa época do ano é que temos enchentes, pessoas que perdem tudo o que tinham, tragédias. Parece um recado da natureza: se tivesse aberto canais de escoamento, jogado o lixo em local apropriado, construído com responsabilidade, isso não teria acontecido.
Se tivesse arado a terra com zelo, plantado com cuidado as melhores sementes e acompanhado o crescimento de perto, a colheita teria sido garantida. É a mesma coisa, com outras palavras.
Esse sentimento, de “a hora da verdade”, a hora da prova, do teste, da concretização, também se reflete em um dos hábitos mais antigos do festival de Lughnasadh, a feira de Tailtiu, onde se realizam jogos fúnebres em que os participantes devem provar o seu valor ao vencer provas de força, habilidade, inteligência ou coragem.
Tailtiu era a mãe adotiva de Lugh, um dos mais célebres deuses da Irlanda. A lenda conta que, para garantir o futuro da tribo, ela realizou um grande sacrifício de limpar a planície central da Irlanda, tornando-a própria para a agricultura. O esforço foi tanto que ela não resistiu, e morreu. O Dindshenchas conta:
“11. Ela lhes disse em meio à sua doença
(fraca ela estava, mas não sem palavras)
que eles deveriam organizar jogos fúnebres em seu lamento
- zelosa havia sido sua façanha.
12. Ao início do mês de agosto ela morreu, em uma segunda-feira,
no Lughnasadh de Lugh;
ao redor de sua sepultura, daquela segunda-feira em diante,
é realizada a Feira Maior da nobre Erin.
13. Tailtiu dos brancos flancos
proferiu em sua terra uma verdadeira profecia,
que enquanto todo príncipe a aceitasse,
Erin não ficaria sem perfeita canção.
14. Uma feira com ouro, com prata, com jogos,
com a música das carruagens,
em que se adornariam o corpo e a alma
através de sabedoria e eloqüência.
15. Uma feira sem ferir ou roubar qualquer homem,
sem confusões, sem discussões,
sem saques, sem disputas de propriedade,
sem acusações, sem julgamentos, sem invasões, sem prisões.”
O tema do sacrifício caminha junto com o tema da colheita, pois não há fruto sem esforço. Não há habilidade sem dedicação.
E Lugh é considerado o senhor de todas as habilidades, o Samildánach. Ele é guerreiro, curandeiro, sábio, marinheiro, mago, ferreiro… Seu nome quer dizer “luz”, e conta-se que, quando ele veio, seu rosto brilhava tanto que todos pensaram que o sol nascia do oeste.
Ele também é filho de duas linhagens rivais da Irlanda, os Tuatha De Danann e os Fomorianos. Ocorreu que Cian, das Tuatha, visitou Ethlin, filha de Balor dos Fomor, e de sua união é que nasceu Lugh. Ele foi criado, entretanto, por Manánnan, senhor do mar, e com ele aprendeu inúmeras habilidades e obteve muitas de suas várias armas e equipamentos. Sua mãe adotiva, Tailtiu, era uma Fir Bolg, um povo que também lutou contra as Tuatha De Danann e perdeu. Ele representa, sob esse aspecto, a unificação da Irlanda. Os Tuatha De Danann são, em geral, deuses de habilidades humanas, artesãos, artífices, curandeiros, poetas, músicos, guerreiros. Os Fomor, por outro lado, são deuses mais fundamentais, das profundezas, relacionados a forças da natureza, indomáveis e selvagens. Lugh seria a síntese e a união de ambas as características, ligando tribo e terra, e após a decisiva guerra entre os dois povos na qual ele foi aclamado rei entre os deuses, os Fomorianos ensinam aos Tuatha a agricultura.
Conta-se que, quando chove na Feira de Tailtiu, seja durante ou depois, é sinal da presença de Lugh. É a chuva que molha as plantações e torna a colheita possível (pois o excesso de sol prejudica mais do que ajuda os frutos), e também a luz do raio que corta o céu.
lughEssa visão de Lugh como um raio é algo que muito me agrada, particularmente, porque vejo nela um sentido muito profundo. O raio é uma luz que conecta, de fato, o céu e a terra ou o céu e o mar. É imprevisível, dinâmico, múltiplo, e espalha-se em todas as direções. Raio também é energia, força e calor, e gera fogo. Foi o raio na árvore, dizem, que gerou o fogo que foi primordial para que os primeiros homens se desenvolvessem, pois o fogo permitiu que a carne fosse cozida, por exemplo, o que foi o principal responsável pelo aumento do nosso telencéfalo.
Tudo, então, desde o cozimento da comida, passando pela cerâmica, a forja, e depois as sucessivas revoluções industriais que nos trouxeram carros, circuitos eletrônicos, aviões e smart phones começaram ali, naquele raio, naquela árvore. O fogo é a mudança, a transformação, o fazer isso virar aquilo, uma coisa tipicamente Aes Dana, mas primordialmente veio do raio, uma força indomável da natureza, que apenas a muito custo o homem conseguiu domesticar.
Também associamos a luz e o brilho às ideias, à criação, à inspiração, ao momento “eureca”. E nossos pensamentos não são tempestades elétricas no nosso cérebro? Cada pensamento é um impulso elétrico disparado de um neurônio para o outro, gerando conexões delicadas e complexas. E cada movimento de cada músculo é provocado por um impulso elétrico, que desencadeia o chamado potencial de ação, responsável pela entrada de cálcio e saída de potássio de dentro da célula, o que gera a contração. Se pensarmos em Lugh como o raio, então ele está presente em cada pensamento, cada movimento, dando impulso, conexão, ligação, e possibilitando o desenvolvimento de inteligências e habilidades.
Lugh integra, une, conecta, estabelece relação. Suas principais armas, a lança Gáe Assail e a funda, são de arremesso, cortando o ar e ligando um ponto ao outro. Tenho a visão de que, quando encontramos Lugh, encontramos essa integração, para o melhor e para o pior. Diante dele, nossas habilidades são testadas, nossa dedicação e capacidade é posta à prova. Às vezes interpreto o Lughnasadh como uma chance de encarar meus próprios demônios internos, me ver como sou de verdade, e tenho a oportunidade de enfrentá-los ou até de fazer as pazes com eles. É aquela noção da colheita novamente, em que tudo aquilo o que eu não plantei direito, não fiz direito, não soube resolver, volta para mim como consequência. É um momento de “cair na real”, principalmente depois da euforia cheia de promessas do solstício de verão.
O sol do verão brilha com força a pino, não deixando muitas sombras, e sob essa luz desveladora você ou é, ou não é. A chuva lava, limpa, torna nu, expõe. Não tem onde se esconder, nem tem porquê. Nesse momento, é disso que precisamos.
É que esse é também um momento de gratidão. Porque, não importando se a colheita for farta ou não, não importando se nossos atos geraram consequências boas ou ruins, é um momento de aprendizado único, e sob esse aspecto toda consequência é boa. É uma reflexão, é um conhecer-se melhor, é um provar-se quem você é de verdade, sem máscaras ou subterfúgios. É uma oportunidade para crescer.
E a colheita está apenas começando.